sábado, 30 de julho de 2016

sopraram a vela.



Eu vivia numa antiga aldeia, gerações e gerações ali tinham filhos, casas, comiam.  E desde que eu me vejo por gente, havia Cisto, o maluco. Maluco que acordava cedo, calor ou frio, se é tempo de plantar ou colher. Levanta-se e no meio da praça começa com seus rá, trá, iiiiaaaaaaaa!!!!, é seu “karatê”. Diz ele “ quando Eles vierem, temos que estar preparados, nos vamos lutar com eles aqui mesmo nessa praça... dai você mete um soco assim, depois uma voadora... depois tu finaliza ele assim...” Passa dias se preparando para uma tal invasão nunca explica. E contra “Eles” que ele nunca nominou.   
Quando eles chegaram mataram com um tiro, o primeiro que foi correndo em direção à eles. Era Cisto.

Agora somos escravos deles, eles são nossos ídolos e “cistar” é contar piada. 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Duas historias sobre meninos e seus jogos.


Rami. Um garoto de pele escurecida pelo sol, olhos negros, cabelos lisos  igualmente escuros.  Ele sozinho parado em frente a sua casa nos arredores de kabul, Afeganistão. Era como uma fotografia da natinal geografic. No olhar de Rami cabia caças ingleses e americanos que davam rasantes na sua aldeia, cabiam cabras que pastavam silenciosas, cabia os meninos dos arredores com quem brincava até mesmo durante a guerra. Ele não se assusta mais com quase nada. Apenas algo o deixou perplexo aquela manhã: sua mãe disse que era “hoje” o dia que iria a nova escola. Os americanos tomaram a região do poder dos talibans, assim as crianças voltaria á vida normal de sala de aula. Mas o normal pra Rami era ficar em casa, brincar, procurar pedras brilhantes... Era hoje: ele sairia de sua casa, esperaria o ônibus numa estrada próxima, e ia conhecer a escola. No caminho da sua casa até o ponto, um vento seco, uma pedra, ou qualquer outra distração o atrasou. Quando olha para estrada lá ao longe vem o ônibus e ele longe do ponto. Correu Rami o quanto pode, mas não alcançou. Passou o ônibus. Do outro lado da estrada alguns garotos de idade igual ou maior que a sua, carregam fuzis e juraram lealdade ao talibam. Quem vai a escola “dos americanos” deveria ser morto. Rami vira-se de costas, larga os cadernos no chão, corre o quanto pode, suas sandálias de courro enterram-se na areia quente, ele tenta escapar dos tiros – aqueles, um dia, foram seus amigos. Rami morreu com um tiro de fuzil nas costas. Seu corpo magro e pequeno está caído no chão do Afeganistão, sobre ele paira um silencio absoluto. Os outros garotos se vão....


Num imenso país da America do sul, havia uma grande cidade e suas periferias. Nele um clube de futebol, que disponibilizava seu campo de treinamento para os garotos da comunidade próxima. Uma vez por semana naquele gramado jogavam dois times os coletes vermelhos e os azuis. Como caridade tem limites, ambos os uniformes eram velhos. Para os garotos não havia diferença, suavam a “camisa” para defender o time, mesmo que na outra semana jogassem no time contrario. Mas, um dia apareceu um jogo coletes novos, azuis. Agora quem jogasse no time azul era melhor e não deveria andar com os outros, os vermelhos. 


imagem:Debret

segunda-feira, 4 de julho de 2016

duas lembranças


Carta para A.

Olá, como vai você? Talvez essa mensagem depois de algum tempo até te surpreenda pois eu sei que não é costume as pessoas procurarem antigos casinhos depois de serem sumariamente descartadas. Porém eu sou de outro tempo, um tempo em que não se descarta um amigo apesar de tudo. Principalmente em momentos de intolerâncias e solidão. Então se você ainda tem alguma espécie de afeto por mim, me diga se está tudo bem, me fale de como tem levado sua vida e seus amores, me conte se ainda escreve musicas românticas ou político-sociais. Se está otimista com o segundo semestre. “Fora temer” ainda é uma frase agregadora? ou está lutando por alguma outra coisa? aquele cara que eu conheci e me identifiquei era ilusão? Era? já era?

Carta para J.

Oi como vai? É... talvez eu esteja insistente, e até inconveniente lhe mandando mensagens depois desse tempo todo sem respostas.  Mas, devo dizer que ha coisas mais importantes no que meu orgulho ferido, nossa amizade por exemplo - Pois creio que ainda somos amigos - De tal modo que me interessa muito saber sobre você, o que tem feito. Tem saído muito com os amigos novinhos? Tem pego muitos novinhos? Você ainda sorri timidamente quando alguém te elogia, ainda se veste de maneira impecável?  Eu teria muitas coisas pra lhe contar também, a respeito de minhas próprias lutas, do quanto foi difícil lidar com o silencio que de repente caiu entre você e eu, e do quanto eu me sinto forte por aguentar tudo isso, todos os dias, e ainda achar motivos pra rir de qualquer coisa. Pois a alegria é feita dessas “quaisquer coisas” e das lembranças boas e más que moram em nossa memória. Sim! Eu aprendo com as lembranças más, aprendo com o vazio deixado por você. E não é no vazio que o seu perfume se propaga melhor?