sábado, 2 de janeiro de 2016

O caso Wagners


Caro senhor curador da exposição “toda a beleza do mundo”.

Estou perplexo com a sua falta de sensibilidade artística! O senhor recusa a minha obra prima, o senhor recusa o meu olhar artístico. Sob esses aspectos, eu até poderia considera-lo um dos meus críticos e portanto acatar como ponto de vista essa recusa. Porem, eu insisto por que não se trata de uma obra minha, é uma obra da nossa cultura, uma obra que é a marca do nosso tempo. Se eu acreditasse em Deus, diria que não foi minha escolha e sim obra divina esse que lhe apresento.

Apesar de ser contra toda a minha formação artística eu deve lhe contar como surgiu a obra encomendada para sua exposição.
(A principio sabe-se que “toda a beleza do mundo” é uma bobagem. Nada detém toda a beleza mundana, então nada pode representa-la. Nem se eu colocasse um cupido natimorto de ouro estaria sendo fiel a esse principio.)
Eu sei que sou um dos artistas mais importantes vivos, sei disso antes mesmo de ganhar os prêmios que ganhei, antes até de fazer a primeira linha sobre o papel na pré-escola. Onde alias sofri muito por não ser compreendido (é uma marca do gênio). Depois de anos de mostras, exposições, criticas aprendi a tirar de mim o verniz da modéstia e apresentar-me como sou, ou seja, um genial artista. A incompreensão do meu trabalho denota apenas falta de sensibilidade artística, isso é sabido por todos.
Sua carta, respeitável alias, dizia “faça uma obra que represente toda a beleza”. Eu pensei num auto retrato. Porem esses estão tão passados quanto as pinturas rupestres. Então compreendi que ao contrario levaria uma obra: O meu namorado Wagner segundo. Pois e a coisa mais bonita que eu já fiz. Entretanto não é viável deixar um homem comum, vivendo o resto de sua vida dentro de um museu. E mais: ainda não era suficiente para demonstrar o principio desejado: a beleza. Pois ele era apenas uma criatura.
(é amplamente conhecido que meu namorado era morador de rua, alcoólatra, com baixa auto estima, suicida em potencial etc.. e eu o transformei no mais belo exemplar do sexo masculino que conhecemos. Isso ficou claro graças a minha ideia de fazer dessa transformação um reality show: O homem do homem. O país pode ver, episodio por episodio, como eu o transformei, plásticas, aulas, ginástica, inclusão de memória e outra técnicas modernas de poética. Mas eu não acho que essa seja a minha obra prima)
Eu, sou a obra! Eu represento, o ideal de criador da mais pura beleza humana. Isso é evidente até pra mim, quanto mais deveria ser para o senhor. Eu quero a partir do inicio da exposição até a minha morte, estar no museu.
(depois de morto já tenho uma performance planejada que inclui fogos e canibalismo, mas isso é problema que deixemos os advogados resolverem. Risos)
Grato espero a sua carta aceitação e as de desculpas.
Att. Wagner Primeiro.

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Caro senhor diretor do museu Xcart.
A tenho absoluta certeza que sua sensibilidade humana é maior ou tão grande quando a sua sensibilidade artística. Portanto o pedido que lhe faço não deve ser tão estranho quanto poderia parecer noutros tempo.
Gostaria de poder levar pra casa uma de suas obras.
Pois como é amplamente conhecido, o artista Wagner Primeiro resolveu se autodeclarar obra de arte. (denominada O artista) porem, ao visita-lo algumas vezes no museu pude perceber seu enorme descontentamento com sua atual condição. Ele que era um sujeito vivo e muito corajoso agora não passa de um rascunho pálido de um ser humano fraco e sem sol. Não quero dizer com isso que o senhor e o seu museu não sabem tratar bem suas obra, pelo contrario. Porem nesse caso é evidente que a obra em questão não é uma obra, senão um erro. Sim! O artista errou em apresenta-se como arte, pois não há evidencia nenhuma que o transforme em tal coisa. Ele é um ser humano e precisa sair do museu. Ele também reclama que o crachá “não toque” está em desacordo com a estética, sendo uma interferência na obra.  
Como disse confio na sua sensibilidade humana.
Att. Wagner segundo.
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Caro presidente da republica.
Chegou a nosso conhecimento que no almoço com os jornalistas o senhor será questionado sobre o caso Wagners. Para tanto lhe apresentamos os fatos: um artista resolveu que a sua existência poderia ser considerada arte, ela (sua existência) foi comprada por um museu particular e desde então está exposto ali. Entretanto com o passar dos anos ele percebeu que um ser humano precisa de mais coisas que alimentação, higiene, e os demais confortos que tinha como “obra exposta”. Então pediu ao diretor do museu que o contrato fosse recindido. O diretor porem, alegou que havia pagado pela obra, que não havia descumprido nenhuma clausula do contrato que justificasse a quebra. O artista recorreu ao seu cônjuge para que interviesse como antigo proprietário da obra. Porem esse mesmo, já era considerado por todos como uma outra obra, visto que fora transformado no que é, por intermédio desse primeiro artista, quando era estrela de um reality show (os jornais chamam o caso de “uma obra de arte revindica a liberdade de outra”). Desse modo a secretaria de direitos humanos acolheu ao pedido desses senhores para que os contratos rejam revogados e ambos sejam considerados humanos novamente protegidos pelo estatuto desses. Entretanto apenas a presidência poderia agir desse modo, uma vez que a lei da propriedade privada nunca foi desrespeitada em nosso país.

Att. Secretario de comunicação da presidência da republica. 

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