sábado, 29 de agosto de 2015

Parado no portão.


Essa cidade é uma loucura
As ruas são só íngremes.
Todas elas: subidas intermináveis e cansativas.
O vento dessa cidade corre pra todos os lados, arrastando tudo o que encontra.
As cruzes sobre as igrejas rasgam o tecido do céu, de chumbo derretido.
Aqui tudo se movimenta e é aleatoriamente.
Aqui tudo é confusão
Aqui....
Apenas a sua casa permanece imóvel, fixa e igual.

Ela é o tumulo do tumulto.  
Sua casa é uma anti-caixa de pandora.
Na cadencia do mundo ela é uma pausa, um lugar preso em si mesmo.

Sua casa, guarda o silencio de tua boca,
O habito de teu gesto. A tua casa:
morada do teu sono, cheiro, riso.
As paredes da tua casa:
as paredes de fora da tua casa me expulsam de perto de você.
as paredes de dentro te protegem de mim, do meu amor doente,
as sabias paredes da tua casa te escondem dos meus olhos famintos.
O portão de tua casa zomba do meu olhar espreitado entre as barras de ferro.

Na sua casa não venta, não há som, barulho.
Na sua casa não escapa telha, folha, luz, reboco.
A tua casa me põe medo.
E me põe no olho da rua.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O ultimo discursa.

 


Era uma vez. Era uma vez num tempo futuro. E era uma vez, porque o tempo já não importava mais. Havíamos findado: eu, você e todos os outros. Era o tempo de um só homem, o Ultimo. E ele monologava.

“Como eu fui sábio! quando lutei contra aqueles que diziam que o mundo acabaria se não cuidássemos do ambiente. Eles estavam errados. Eu sou a prova e o mundo que a minha frente está, também prova: sobrevivemos às catástrofes, sobrevivemos às hecatombes e as enchentes. Eles clamariam por aqueles que morreram na grande chuva, que afogaram nos anos da grande fumaça, ou tentariam gritar por aqueles que simplesmente não tinham mais água/alimentos. Mas, eu diria que a morte faz parte.... que morrer não prova nada...que estar vivo é estar certo, e que a morte é natural.”

Dirigindo o seu olhar para outra ponta da cidade vazia ele diz: “eu também estive certo, ainda que falasse praticamente contra todos, quando dizia que eles, os minoritários: homo, trans, não-binários etc... etc... nada tinham para contribuir com o futuro. Cadê eles agora? Pois só nós, héteros reproduzimos, eu provo isso.”

Num outro conto do vazio ecoa um novo discurso do Ultimo:
“Sou a espécie mais forte de toda a criação. Sou. Enquanto todas as outras sucumbiram, morreram ou foram mortas por outros, que como eu eram os mais fortes. Eu, aqui, provo isso.”

Assim dizia o ultimo homem... O Feliz, O satisfeito, O certo, O coerente. 



imagem: Phillippe Petit