domingo, 4 de maio de 2014

vultos e memória.

 
                                                                                           gravura: Liosmar Martins 


Vultos.

Antes que a noite chegue, que paire sobre as poças de água
o reflexo das estrelas e o seus silêncios:
A cidade passa depressa: vai pra casa.
E os seus corpos, seus rostos e roupas nesse lusco fusco são vultos.
Negros vultos que por pouco, mesmo, não se colam ao asfalto,
ao céu escuro, as nuvens cinzas, a escuridão das fachadas.
Passam sem deixar marcas esses rascunhos de gravuras.
Personagens secundários do Grito.
E eles passam, e não me veem e não me sabem, e nem eu deles.
E todos sofremos,
á distancias.

Outros vultos.

 E mais essa agora: não chegaram novos vultos?
Vindos de pais exótico, vindos por necessidade,
aos milhares desembarcam entre os já fixados.
Trazem um quê qualquer que não é mendicância.
Nos irritam os dentes tão brancos olhos tão vivos.
E mais essa agora.
Erguemos nossa bandeira, ela rasgou.
Elevamos a voz e nossa língua não bate tão rápido.
A deles dança.
Nos “ais de sermos”...um sussurro.
No “ai” de ti....uma voz.
E dançam.

Memória. 1

Cena qualquer numa cidade qualquer. O louco ocupa o lugar do excluído. Devidamente clinicamente declarado louco até pra si mesmo. E ele anda por entre as ruas, pessoas e carros como um louco qualquer. Esmoleia simpatia dos sãos, ganha um ou outro sorriso. Espalha por entre as gentes a sensação de ser normal.
Do outro lado da rua uma cena: qualquer usuário de crack. Mendigos ou em vias de ser, feios grossos estranhos. Gente, mas, da pior qualidade. Gente que não sabe ser gente. Alvos constantes do desdém humano. Peças obsoletas do processo capital.
E numa cena incomum.
O louco doméstico, por ignorância e descuido mistura-se com os usuários. Relaciona-se com eles de modo direto. E eles jogam bola. Chuta o louco uma pelota velha que é recebida com rapidez por um drogado maltrapilho. Ergue ele o objeto redondo e novamente lança para o louco, faz um táaa. O doido corre dois passos à direta pra alcançar a linha da bola, recebe-a. Olha o outro pra mira-lo melhor, vê-o com alvo, a despeito de ninguém querer enxerga-lo, chuta. O cara pega fácil, pois o chute era certeiro, arma novo lance, ignora que o outro não pode raciocinar com lógica e civilidade. E passam tempos nesse jogo, inútil pra aqueles que os veem dos carros.

Memória. 2


Falo pra vocês, com a clareza que a verdade deve ter, que eu não acredito na existência de Deus. Embora creia na validade das religiões e na beleza que há nesse sentimento de busca. Creio ser uma jornada falida: após a morte apenas o nada. E penso também que a ideia da não-existencia  dEle deveria ser sim mais difundida. Se você pensar na escravidão criada pela esperança.  Ao se afirmar que após uma vida há um paraíso ou um inferno cria-se uma expectativa agonizante. Uma religião válida seria aquela que faz do momento presente uma felicidade, e qual delas é capaz disso? Budismo? Mas o que é o budismo sem a cultura oriental senão uma falsificação tola. Então amigos. Pra sermos sinceros nossa religião deveria ser a comunhão. 


img: Liosmar Martins  http://atelielivredegravura.blogspot.com.br/p/como-produzimos.html

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