quinta-feira, 29 de maio de 2014

Reflexos do Vidro

                                                                                 para J. favarettus


Olhando pela janela do ônibus, a cidade passa rápido, calma e como se estivesse a favor da personagem. As cores das casas e das arvores harmonizam-se. O seu próprio reflexo no vidro é de um rosto calmo e até belo. A personagem pensa o quanto passou pra chegar até ali, o quanto tem em si mesmo desse passado e o quanto, assim como a cidade, vai ficando pra trás. É, pensa, o resultado de alguns dos dias vivido e não de todos, como supunha. Há, dentro de si a vontade de agradecer a essa paisagem por tudo que ela é, assim calma, correndo do lado de fora do vidro do ônibus, semelhante a um aquário, a cidade é bela.  Prédios, casa e arvores assim, em conjunto, correndo na direção contraria a sua. A melhor definição de uma gigante serpente que pode imaginar.

Sabe porem que do ponto de vista das aves é apenas um ponto que se move curiosamente. Da vizinha de banco mais um passageiro, em movimento consoante ao seu. Do cobrador do coletivo é dois reais e setenta a mais no cofre.  E pra si mesmo, vendo-se do reflexo é uma confusão de vozes e desejos, de sonhos, de palavras, de diálogos, de frases interrompidas e um pouco também de todo os rostos que passou. De verdade é tão confuso quanto a paisagem em movimento.

De fixo apenas uma lembrança, que faz sorrir involuntariamente, que prega a peça em de fazer-se alegre entre tantos rostos sóbrios desse fim de tarde e de trabalho. Uma lembrança com cheiro e vontade de cama, com tato de boa roupa, entre lençóis limpos, peles próximas e, respiração tão profunda, quanto o vento no rosto.

É com a distancia que sobrevém a consciência dos destinos trocados. Distanciam-se a cada metro. Cada uma dessas casas que passam dentro do seu próprio reflexo é uma distancia a mais, um obstáculo a mais. Seu corpo é transpassado por todas essas distancias. Desde o primeiro adeus, até o até logo que tornou-se nunca mais. Cada uma dessas despedidas mal curadas doe quando sobrepõe uma nova. Uma rede de saudades que agita quando mais uma, com um peixe, soma-se as outras. E, a personagem sabe bem, é uma e mesma rede, pois nunca conseguiu dividir-se. Suas dores todas, de ser o filho recém saído do lar, até do amigo que morreu de acidente. Dores são como veios no mesmo mármore, cristalizados mais ainda visíveis.


Suspira a espera do novo, seja ela qual for. Prevê que assim como outras despedidas essa irá doer, ecoar na memória e por fim juntar-se as outras. Talvez seja disso mesmo que se faz uma vida. Porque não tê-las com esteio pra futuros rumos, caminhos e amores? Sobre essa malha de tantas coisas, de mil lembranças transpassadas umas as outras e com elas esse tão presente sentimento de estar vivo. Olhando pela janela, confundindo-se com o próprio reflexo que lhe olha de maneira investigativa. Com tantas vozes alem da sua a personagem contempla o tão seu eu. Mudo esse eu. Quase vazio , entretanto tão familiar. Confortável mesmo... confortável na mais nova saudade. 

Signo: desconforto com ascendência em desequilíbrio.

1.Condenado ao esquecimento (cedo ou tarde) assim como todos os outros, assim como tudo que há.

2. Fosse numa miragem, ou num sonho, diriam “você se ilude” mas, eu vi na TV. Num desses programas que falam de tudo, e com superficialidade: a pobreza na malásia, choca aos olhos, depois a ditadura na Tailândia, a china, pobre china. Então o sol (como uma câmera de reportagem) passa sobre o Oriente médio: guerra na Siria, refugiados, teocracias e fanatismo. Sobre a Europa a xenofobia. África: fome e refugiados, meninas sequestradas. Nossa America, nossa mãe: a violência urbana, as drogas, a exploração dos pobres.
Fosse numerar onde há paz e liberdade, encontraríamos poucos exemplos no planeta e na historia.
É isso que é a humanidade? Pessoas mortas amontoadas mortas pela peste, por ser judeu, pelos judeus ou capitalistas (Crimeia ontem) ou pelos comunistas. Essa é nosso limite? Odiarmos uns a outros e matarmos quanto a natureza mesma não o faz? Planificando a superfície e a historia somos um grupo que apesar de numérico destrói, mata, sofre e nunca pensa.
Acima da linha de sangue nunca  houve vida.
A saber que a linha de sangue é a proporção de violência e sofrimento ao largo do tempo.


terça-feira, 20 de maio de 2014

k.h. regra

Confessemos, pois, que a natureza coloca-nos sonhos impossíveis de realizar. Como paixões proibidas e até desejos imorais, sem ter limites. Deixa à nós essa tarefa de limitarmos. O desejo tende ao infinito, levando assim, o ser finito, eu, pra frente. Mas uma hora morremos. Deus é amor, paz é Bem, e vice-versa, são também desejos que nos impulsionam a um passo pra frente. Entretanto o  alvo é falso: Miragem.  Nem o mal nem o bem são radicais, o desejo, esse sim move o sujeito com todas as forças, sem freios naturais.
Se desejo algo absolutamente impraticável. Então coloco-me um limite e nisso fricciono desejo e moral produzindo uma narrativa pra mim mesmo, uma maneira de continuar vivendo. Acho que isso é mais uma prova de que a cultura é destituída de sentido natural. Que vivemos num mundo apartado da natureza e somos em suma inúteis ao mundo. Talvez sejamos um empecilho a nossa própria natureza. Algo como a alma uma prisão ao corpo.
Era isso que falava Nietzsche? convicções são cárceres, algo como pensamentos tautológicos, verdades verdadeiras são o limite para a natureza e o corpo. 
Saber disso só tem uma função agora: morrer em paz. Morrer sabendo que nada fica no mundo que não seja ilusão. E eu mesmo como ilusão. Saber disso não me faz feliz nem forte, ao contrario me iludo mais uma vez com a possibilidade de descortinar o mundo, revela-lo. E pra que revelar esse bastidor? A felicidade está na direção contrária à essa, na direção da ilusão.


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Era madrugada eu voltava de bicicleta do centro da cidade para a casa. No caminho um homem correu em minha direção “para! Para!” queria me assaltar. Pedalei com um pouco mais de força e logo escapei do alcance. A Poucos metros a frente sorri pelo meu sucesso e lembro de querer xinga-lo. Mas, o primeiro xingamento que veio a minha boca era relativo a cor do homem.  Me senti envergonhado por ter um vocabulário, no sentido de palavrão, tão limitado a racismos, homofobia e cu. Porque os xingamentos que tenho em meu repertorio são ligados à raça e a opção sexual, porque eu aprendi apenas esses? Ou porque são esses os que, penso, realmente ferem a honra de outrem?  Triste viver nos estreitos limites do racional e social.
Queria ser eu o assaltante. Ou nunca chegar em casa, talvez ter outra casa. Enfim, subverter essas regras mesquinhas do mundo miloitossentista. Não suporto mais um mundo em repetição constante.  Ao que se indica aquele cara continuará assaltando (reincidência, é o que a sociedade espera não? ) eu continuo sendo o assaltado.  A ordem continuará a ser bradada nos programas da TV,  e qualquer um que tentar olhar pra fonte do mal ou pra necessidade de repetição continuara a ser tachado de idiota. Ei! “Idiota” é um bom xingamento, foge ao padrão.

Mas a repetição me parece natural, ela é boa, somos felizes em repetir o que os outros fazem. Ou melhor, precisamos apenas saber o que é bom repetir.

A fonte do mal parece ser a falta de talento pra ser livre. Então quando podemos ser livre e fazer justiça não sabemos como parar, o desejo é desenfreado. Ex. linchamentos. 

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então o desejo é radical e é necessário limita-lo através do carcere cultural. Entretanto é nosso o poder de prende-lo ou solta-lo nos momentos certos. 

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exemplo: vai tomar no cu! que porra de texto caga-regas foi esse. 

sábado, 17 de maio de 2014

trânsito interrompido

Hoje acontece uma marcha em minha cidade. Pessoas de diferentes idades e classes sociais saem as ruas para comemorar sua religião. É a chamada Marcha para Jesus. Os motivos que levam essas pessoas são variados, em comum apenas o desejo de expressar-se, de mostrar e reconhecer a força do movimento. Dentre suas reivindicações merece destaque a condenação do aborto, do casamento gay. Grosso modo eles se opõem a pautas tachadas de progressistas, mas, que em suma seriam de liberdades individuais. Ainda que eles próprios idolatrem o livre arbítrio e a consciência individual. Ou seja, é um movimento contorcionista que os pés fixam nas regras da igreja e no dever e as mãos agarrar o individual, a alegria e esse humanismo contemporâneo.
O cristianismo é esteticamente conservador e politicamente reacionário. Basta lembrar o teatro cristão e o “dai á Cesar” pra perceber que ele nada tem a acrescentar nas artes e na política. Portanto esse movimento não me seduz em nada.

Mas, essa cidade sempre se deleitou com o mesmo, com a repetição... continua, como afirmou Leminski, sem Eros, sem erotismo. Deixemos a marcha marchar, pra tudo continuar como sempre foi.  Pois assim com a marcha interrompe o trânsito a religião interrompe as ideias, mas de uma maneira ou de outra eles voltam a se movimentar. 

domingo, 4 de maio de 2014

vultos e memória.

 
                                                                                           gravura: Liosmar Martins 


Vultos.

Antes que a noite chegue, que paire sobre as poças de água
o reflexo das estrelas e o seus silêncios:
A cidade passa depressa: vai pra casa.
E os seus corpos, seus rostos e roupas nesse lusco fusco são vultos.
Negros vultos que por pouco, mesmo, não se colam ao asfalto,
ao céu escuro, as nuvens cinzas, a escuridão das fachadas.
Passam sem deixar marcas esses rascunhos de gravuras.
Personagens secundários do Grito.
E eles passam, e não me veem e não me sabem, e nem eu deles.
E todos sofremos,
á distancias.

Outros vultos.

 E mais essa agora: não chegaram novos vultos?
Vindos de pais exótico, vindos por necessidade,
aos milhares desembarcam entre os já fixados.
Trazem um quê qualquer que não é mendicância.
Nos irritam os dentes tão brancos olhos tão vivos.
E mais essa agora.
Erguemos nossa bandeira, ela rasgou.
Elevamos a voz e nossa língua não bate tão rápido.
A deles dança.
Nos “ais de sermos”...um sussurro.
No “ai” de ti....uma voz.
E dançam.

Memória. 1

Cena qualquer numa cidade qualquer. O louco ocupa o lugar do excluído. Devidamente clinicamente declarado louco até pra si mesmo. E ele anda por entre as ruas, pessoas e carros como um louco qualquer. Esmoleia simpatia dos sãos, ganha um ou outro sorriso. Espalha por entre as gentes a sensação de ser normal.
Do outro lado da rua uma cena: qualquer usuário de crack. Mendigos ou em vias de ser, feios grossos estranhos. Gente, mas, da pior qualidade. Gente que não sabe ser gente. Alvos constantes do desdém humano. Peças obsoletas do processo capital.
E numa cena incomum.
O louco doméstico, por ignorância e descuido mistura-se com os usuários. Relaciona-se com eles de modo direto. E eles jogam bola. Chuta o louco uma pelota velha que é recebida com rapidez por um drogado maltrapilho. Ergue ele o objeto redondo e novamente lança para o louco, faz um táaa. O doido corre dois passos à direta pra alcançar a linha da bola, recebe-a. Olha o outro pra mira-lo melhor, vê-o com alvo, a despeito de ninguém querer enxerga-lo, chuta. O cara pega fácil, pois o chute era certeiro, arma novo lance, ignora que o outro não pode raciocinar com lógica e civilidade. E passam tempos nesse jogo, inútil pra aqueles que os veem dos carros.

Memória. 2


Falo pra vocês, com a clareza que a verdade deve ter, que eu não acredito na existência de Deus. Embora creia na validade das religiões e na beleza que há nesse sentimento de busca. Creio ser uma jornada falida: após a morte apenas o nada. E penso também que a ideia da não-existencia  dEle deveria ser sim mais difundida. Se você pensar na escravidão criada pela esperança.  Ao se afirmar que após uma vida há um paraíso ou um inferno cria-se uma expectativa agonizante. Uma religião válida seria aquela que faz do momento presente uma felicidade, e qual delas é capaz disso? Budismo? Mas o que é o budismo sem a cultura oriental senão uma falsificação tola. Então amigos. Pra sermos sinceros nossa religião deveria ser a comunhão. 


img: Liosmar Martins  http://atelielivredegravura.blogspot.com.br/p/como-produzimos.html