sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

e afins.


Textura do tapete persa

Quase todas as doutrinas religiosas e também algumas filosóficas creem num fim: Juízo final, O nirvana, o absoluto de Hegel, até mesmo a revolução de Marx carrega uma esperança de paz na luta de classes e portanto fim de uma longa contradição. Não posso crer em nada disso. A natureza desconhece FINALIDADES. Creio como Aristóteles e Nietzsche que no eterno retorno. E visualizo isso na natureza e na sua infinidade de detalhes, até mesmo um grão de areia carrega em si infinitas particularidades, desenhos, partes ainda menores, e na infinitude do universo: mais e mais infinitudes. A natureza não quer ter UM propósito, muito menos um Fim. Então porque as religiões e a razão humana procura um em todas as ações?

Nesse sentido a única arte que sabe-se parte da natureza me parece ser a arte árabe, com seus milhares de detalhes, dentro de outros detalhes. E a maior loucura é essa procura desenfreada pelo minimalismo (ou puritanismo das formas).


 É no sujo, no rústico e misturado que existe vida. Em outras palavras diversidade. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Le Suicidé.





O quadro de Manet sobre o suicídio retrata a um homem de posses, bem vestido, cuja existência parecia absolutamente normal. Mas, evidentemente era sem sentido. Um burguês enfrenando o niilismo, um ser racional sem mitologias, um cidadão sem a força da nação. Ou seja, um qualquer um de nos, um homem cuja existência se completou de fora da dentro e é portanto muito vazia. Sua única coragem foi esse gesto. O fim foi ele quem determinou, talvez a única coisa que tenha determinado na vida. De resto viveu como se deve, vestiu como se deve, comportou-se como se deve comportar. Mas seu pagamento foi a fome perpetua, a insônia dos sentidos, a carência de calor, a falta de verdade. O suicida de Manet, não morreu, tornou-se um modelo pra variadas gerações. Tornou-se o objetivo da cidadania. Ainda hoje podemos vê-lo nos anúncios, nos catálogos de roupas e no espelho. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Como pode: o amor mata. Inferniza o coração daqueles que nunca serão correspondidos. O amor acaba com a esperança, com o sopro de vida, com a vontade de comer, dançar, sorrir. O amor, como um alvo para setas, oferece muitas mais possibilidade de erro que de acertos. No entanto somos levados a louva-lo por todo a vida. Engrandece-lo como um cruel senhor feudal “obrigado por suas migalhas, pelos pequenos carinhos, pelas leves esperanças”. O amor está reservado a poucos, pouquíssimos e eu não sou um deles. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

caderno de exercícios.

Artur Schopenhauer falava que uma boa biblioteca não passa de cem títulos. Um outro autor falava que bons livros devem ficar no esquecimento, e em fácil acesso. Como os amigos, e esses também, são como livros: só os melhores entram em casa. Penso que livros bons e essenciais são mesmo poucos, devem ser garimpados na multidão de títulos atuais. Nesse sentido ler é um esporte, como a pesca.  E o bom pescador se conta pelo numero de peixes ou pelo melhor peixe?

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O senhor refere-se a minha mãe? Refere-se a mulher que me carregou no útero por nove meses a fio, enfrentando todo o incomodo da gravidez? Está mesmo falando a senhora que escolheu não me abortar, ainda que estivesse no seu pleno direito? Daquela que durante meses se prestou a ouvir Bach, Vivaldi, Cage pra aumentar minha capacidade cultural e fazer power-yoga e massoterapia pra bem realizar o parto domestico e humanizado? Isso  antes de ir trabalhar, antes de escrever sua monografia,  e com tempo ainda pra questionar a sociedade patriarcal via internet?  Acusas el@ de vender o próprio corpo? E não é parte da liberdade humana o livre comercio de bens?Não somos nós livres e muito livres pra fazer tudo isso por dinheiro, ou por outro tipo de beneficio?  Senhor... Falta-lhe atualizar o vocabulário, filha da puta é tão 2006.
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Centopeia correndo, trançando os pés e o pescoços, parece míope.  

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O sexo e as ruas.



A sexualidade e as conquistas em relação a ela são um fenômeno do nosso tempo: gays podem casar, pessoas podem falar de sexualidade abertamente, a educação sexual ocupa espaços na grade escolar etc. Mas, o problema não está resolvido, alias deixou-se de perceber o problema. E qual é ele?

Muitas vezes ouvimos os mais conservadores argumentando que seria um absurdo ver dois homens se beijando na rua, “como vou explicar para meu filho?”. Esse argumento já deduz uma respostas: a sexualidade deve ficar entre quatro paredes. Porem essa mesma resposta esconde o problema real: a convivência.

A rua é um espaço onde a civilidade é posta a prova. Não fosse a rua, como propriedade publica, toda e qualquer regra social seria respeitada, ou melhor, nunca seria questionada. Pois é justamente nessa convivência, nesse choque de pensamentos e subjetividades, que as regras sociais se mostram ou necessárias ou fracas e ultrapassadas.

O sexo está para a moral o que a rua está para o social: não fosse ele (quase) toda moral funcionava. Pois é no sexo que os desejos não se deixam limitar pelas regras morais. O desejo sexual ignora limites morais, sente até muitíssimo bem quando os ultrapassa. Um exemplo de como a sexualidade ignora regras é os eventuais caso homossexuais de pessoas totalmente heterossexuais, e vice-versa, ou os casos extraconjugal, ou a frustração com o sexo-perfeito-dentro-da-lei.

Então o sexo e a rua, são os lugares onde as regras morais e sociais são desrespeitadas com maior frequência, pois são os espaços de maior choque dessas regras. Não é á toa que nesses espaços as regras amontoam, e crescem cada vez mais (incluindo as regras de transito).  Mesmo com o enorme numero de regras, continuam a “desobediência civil-sexual”.


Essa deveria ser o questionamento sobre o beijar na rua, e não se pode ou não pode.   

sábado, 4 de janeiro de 2014

é pavê?


Basta!

De tempos em tempos nosso dicionário deve, necessariamente, perder algumas palavras. Outrora isso nos daria medo. Mas, agora é preciso nos livrarmos de algumas palavras-muro, palavras-divisórias, palavras-fronteiras. “Internauta” é uma que ninguém mais suporta, todos podemos ser internautas ou não, alias foi ela a internet que nos invadiu antes, não somos nós os cosmonautas a explorar um novo ambiente, ela nos explora.

“Artista” chega! Ninguém é artista, todos são artistas. A arte faz parte da vida da humanidade desde que ela é humanidade. Deixemos essa alcunha-fronteira de “artistas” pra lá e não-artistas alhá. Libertemos-nos e libertemos qualquer tipo de arte que há dentro de nos. Sejamos nos mesmo a nossa arte. (foucault?) sejamos artista na arte de apreciar arte. Artistas na arte de escutar musica, artistas na arte da conversa, artistas na arte de ver.

O Brasil, como provocou hoje o Edson Bueno, não é um pais com pouca arte, é um pais onde poucos tem o “alvará” de artista e por isso fazem pouco e ruim.


É necessário que nos qualifiquemos pra sermos artistas, claro. Mas primeiro, deixemos essa palavra para os historiadores da arte. Ao lado da “internauta”, perto da piada do pavê.