sábado, 21 de dezembro de 2013

A frente.

 

“Oh!, oh!” o pai sempre acordava assim o menino, tocando-lhe o braço. Depois falava do almoço “quanto o sol tiver a pino, em cima da mesa tem comida”. E saindo dizia que Deus o abençoasse. Então o dia começava com a espera do sol que cumpria lentamente uma linha até em cima da casa. Quando ele estivesse bem no alto era hora de comer a comida da mesa: arroz, feijão, ovo.
A vida era uma espera. Primeiro pelo sol, depois do pai. Ele chegava à noite, ligava o radio, fazia a comida do dia seguinte. Calado. Sempre acordando o menino e deixando-o com a comida sobre a mesa. Saindo e caminhando pela estrada até sumir na curva. A estrada era longa, terra clara, tremulava sob o sol forte. Por ela o pai ia caminhando todos os dias até a curva. Então sumia e o menino esperava-o a noite.
Depois de comer o menino ficava olhando a estrada. Uma vez quis saber o que tinha depois da curva. Se o pai ia e voltava todos os dias deveria ser pelo menos algo importante. E foi...devagar. Caminhando até a curva, e pra alem dela.
Passou pelo mato denso ao lado da estrada, depois descampados, então a estrada ficou dura de pedra e continuou. Casas, quase caído de tão velhas e feias surgiram. O menino com passos firmes seguia para frente. Para dentro de uma multidão de barracos que apareceram amontoados ao lado da estrada. O caminhar tornou-se difícil, cada passo novas casas e coisas. Como carros, tão raros na estrada de sua casa. Havia muitas pessoas, caminhantes apressados e severos no olhar.
Era esse o lugar do pai? Era esse lugar onde ele vinha todos os dias? Um mundo deveras grande e vasto. Cheio de cores, e logo que a noite ia caindo, surgiam luzes, faróis. Esse mundo confuso de penumbra, de cores acinzentadas e pessoas andando para todos os lados. Esse era certamente o lugar onde o pai vinha todos os dias, por isso que ele não gostava de barulho. Ele vivia num mundo já barulhento. E por isso que ele vivia cansado: esse mundo corre depressa. Era esse o lugar que o pai trazia dentro e si a noite.
A noite tomou todo o lugar. Fundiu as cores, as grandes casas, as ruas, tudo negro. Diluiu as pessoas em vultos e o menino perdeu-se. Doía-lhe os pés. Era hora de voltar a trás. Ir, como o pai, para a casa. Mas, por acaso escolheu ficar.
Era esse o mundo do pai, não a casa pra dormir, roncar, ali era pra viver. Ele ficaria.
Fim.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.