quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Vagaba


Carla, chamada Carlota, pois combinava mais com sua presença: cabelos escorridos ao lado do rosto, olhos baixos, pela fina e mãos brancas como de gesso. Solteira morava no oitavo andar de um prédio antigo. Os moradores, aposentados, ex-funcionários do governo. Assim, Carlota, era a mais nova e a mais envelhecida. Não se sabe como conseguia dinheiro, essa curiosidade diminuiu ao perceberam como eram modestas suas despesas; provavelmente alguma aposentadoria do pai ou mãe.
Carlota fala pouco, vai à missa, cozinha pra si, e quando faz dobradinha avisava aos vizinhos sobre o odor. Ela era tão parecida com tanta gente, que todos a tratavam com o “de casa” ainda que ela própria fosse de poucas visitas, e de poucos sorrisos.

Os moradores do prédio frequentava as missas da paróquia próxima, iam em bandos, caminhando meio em falso, reclamando das calçadas mal calçadas e falando que de tarde chove. Carlota ai junto, olhando as placas e as vitrines. Vez ou outra uma das velhas comentava que aquele vestido ali ficaria bom pra Carlota, que era magrinha. Porem, quase sempre ela era uma presença muda, surda, pálida.

Era a comum, próxima, aquela cuja existência não prevê novidades, era a figura que misturando-se ao mundo, faz mais parte do cenário que dá ação. Era Carola, a mulher magra de cabelos escorridos ao lado do rosto, que vivia sozinha no oitavo andar de um prédio no centro, a uma quadra da igreja e a duas do mercadão (seu mais longo trajeto, seu medo) a face comum do humano.

No natal as mulheres do prédio, arrumavam uma bela decoração na portaria e uma arvore grande com muitos enfeites, cuja arrumação era incumbência dos homens. Pois eram mais fortes e tinham menos medo de altura, ou porque as mulheres tinham pena desses velhos que afeminaram-se como tempo e lhes arregalavam com esses falsos méritos.

Esse ano revolveram, por inveja de um outro prédio, que fariam a representação da manjedoura de Cristo, com atores de verdade e roupas caprichosamente copiadas. Os maridos, três deles pelo menos, seriam reis magos visitando a sagrada família. Um momento pra se viver a humildade, o milagre, a caridade dos povos.

“ Eu gostaria de fazer a Virgem” disse Carlota, e completou “quero o papel da virgem”. Os senhores atônitos olharam para as senhoras e esperaram alguma reação. As senhoras entreolharam-se e chegaram num “tudo bem” incerto. Carlota faria a virgem Maria, mãe de Jesus, a mulher escolhida por Deus, por seus santíssimos méritos, pra ser a mãe do salvador do mundo. Dentre todas, a mais santa.

Na saída, ainda no corredor uma senhora comentou com a outra que Carlota fora um pouco apressadinha em se oferecer assim. Outra disse que era até feio fazer um virgem de verdade. Três outras acharam que Carlota estava alegrinha demais, por que ela se achava tão perfeitinha assim pra ser A Virgem? Essa menina, teria um segredo com certeza, era provável que quisera ser tão santa quanto a virgem pra esconder algum outro segredo. Outros relembraram que essa menina sempre foi estranha, ficava pelos cantos, sozinha e agora essa historia de querer o papel principal....ai tem coisa. Essas moças, disseram, santas do pau oco. Seria um sepulcro caiado? Alguma voz dissonante ainda arejou a honra da menina, mas era tarde.
Concluíram  que Carlota, Carla em verdade eram uma dessas soberbas que usam da religião pra se fazer de santa, pra querer o papel de protagonista, pra, com seus beleza pálida e cristã, fazer contraste com as outras, santas de verdade, envelhecidas pelos anos de dedicação ao catolicismo. E que, em verdade, mereciam o papel da predileta de Deus, mas, por serem, verdadeiramente, humildes, não se ofereciam.


“Olha moça, o papel da virgem, vai ficar com a neta dessa aqui.” Disse uma delas, com olhos secos e boca serrada, mirando bem no fundo os olhos úmidos de Carla. 

fim


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