sábado, 26 de outubro de 2013

caderno de exercícios.



No caminho muitas,
muitas,
pedras, pedradas, pedregulhos.
Muitos tombos, também ralados...
muitas vezes perdido,
parado, muitas vezes. Desistir
Aí: essa pedra
com brilho longe
(não parece ser daqui)
uma pedra de marte?
Pedra que elava o caminha á jornada.
Brilho que cega, dada a escuridão em volta.
Minha pedra. De marte.



Da vida que nada se leva, só uma lembrança triste de um quase, um pouquinho mais pra amar, ser feliz, gozar muito. Uma pequena maleta contendo uma quase vitoria, um desses pacotezinhos pra um pão, cheio de primeiros beijos, sexos, quase namoros e só. Pouco, muito pouco faltou pra que se realizasse o maior sonho, o maior desafio o melhor talento... tudo um pouquinho e só, ao fim de tudo, um quase. Antes mesmo de morrer ele teve uma quase grande inspiração pra um poema, de um sujeito que vencia o concurso, de um romance com final surpreendente, mas era só um sonho. Acordou. Esqueceu. Vestiu-se pra viver seu ultimo dia de...
...bom dia, dois reais de pão, já vou almoçar, já paguei a prestação e até amanhã...

Então os dias se findaram, quando ele olhava para o joelho. Uma pequena bolha que parecia uma pereba qualquer, era câncer de pele. Tomou a perna, depois, algo no sangue o fez desejar uma morte rápida. Olhava para o próprio joelho como quem olhava uma terra distante, um monumento em fotografia. Mas era câncer de pele, era o fim dos seus dias. Tudo começou com uma pereba no joelho, então ele morreu, deixou de ser, ele mesmo um pereba na vida. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Vagaba


Carla, chamada Carlota, pois combinava mais com sua presença: cabelos escorridos ao lado do rosto, olhos baixos, pela fina e mãos brancas como de gesso. Solteira morava no oitavo andar de um prédio antigo. Os moradores, aposentados, ex-funcionários do governo. Assim, Carlota, era a mais nova e a mais envelhecida. Não se sabe como conseguia dinheiro, essa curiosidade diminuiu ao perceberam como eram modestas suas despesas; provavelmente alguma aposentadoria do pai ou mãe.
Carlota fala pouco, vai à missa, cozinha pra si, e quando faz dobradinha avisava aos vizinhos sobre o odor. Ela era tão parecida com tanta gente, que todos a tratavam com o “de casa” ainda que ela própria fosse de poucas visitas, e de poucos sorrisos.

Os moradores do prédio frequentava as missas da paróquia próxima, iam em bandos, caminhando meio em falso, reclamando das calçadas mal calçadas e falando que de tarde chove. Carlota ai junto, olhando as placas e as vitrines. Vez ou outra uma das velhas comentava que aquele vestido ali ficaria bom pra Carlota, que era magrinha. Porem, quase sempre ela era uma presença muda, surda, pálida.

Era a comum, próxima, aquela cuja existência não prevê novidades, era a figura que misturando-se ao mundo, faz mais parte do cenário que dá ação. Era Carola, a mulher magra de cabelos escorridos ao lado do rosto, que vivia sozinha no oitavo andar de um prédio no centro, a uma quadra da igreja e a duas do mercadão (seu mais longo trajeto, seu medo) a face comum do humano.

No natal as mulheres do prédio, arrumavam uma bela decoração na portaria e uma arvore grande com muitos enfeites, cuja arrumação era incumbência dos homens. Pois eram mais fortes e tinham menos medo de altura, ou porque as mulheres tinham pena desses velhos que afeminaram-se como tempo e lhes arregalavam com esses falsos méritos.

Esse ano revolveram, por inveja de um outro prédio, que fariam a representação da manjedoura de Cristo, com atores de verdade e roupas caprichosamente copiadas. Os maridos, três deles pelo menos, seriam reis magos visitando a sagrada família. Um momento pra se viver a humildade, o milagre, a caridade dos povos.

“ Eu gostaria de fazer a Virgem” disse Carlota, e completou “quero o papel da virgem”. Os senhores atônitos olharam para as senhoras e esperaram alguma reação. As senhoras entreolharam-se e chegaram num “tudo bem” incerto. Carlota faria a virgem Maria, mãe de Jesus, a mulher escolhida por Deus, por seus santíssimos méritos, pra ser a mãe do salvador do mundo. Dentre todas, a mais santa.

Na saída, ainda no corredor uma senhora comentou com a outra que Carlota fora um pouco apressadinha em se oferecer assim. Outra disse que era até feio fazer um virgem de verdade. Três outras acharam que Carlota estava alegrinha demais, por que ela se achava tão perfeitinha assim pra ser A Virgem? Essa menina, teria um segredo com certeza, era provável que quisera ser tão santa quanto a virgem pra esconder algum outro segredo. Outros relembraram que essa menina sempre foi estranha, ficava pelos cantos, sozinha e agora essa historia de querer o papel principal....ai tem coisa. Essas moças, disseram, santas do pau oco. Seria um sepulcro caiado? Alguma voz dissonante ainda arejou a honra da menina, mas era tarde.
Concluíram  que Carlota, Carla em verdade eram uma dessas soberbas que usam da religião pra se fazer de santa, pra querer o papel de protagonista, pra, com seus beleza pálida e cristã, fazer contraste com as outras, santas de verdade, envelhecidas pelos anos de dedicação ao catolicismo. E que, em verdade, mereciam o papel da predileta de Deus, mas, por serem, verdadeiramente, humildes, não se ofereciam.


“Olha moça, o papel da virgem, vai ficar com a neta dessa aqui.” Disse uma delas, com olhos secos e boca serrada, mirando bem no fundo os olhos úmidos de Carla. 

fim


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

courier

Eu estava sentado na mesa da cozinha, ao redor a família comia e falava, falava, falava. Seus lábios batiam e retiniam como se fossem de lata. Nada com nada, eram o que diziam. Eu tentava acompanhar a conversa, porem, ela mesma não seguia rumo nenhum. Olhei-os mais atentamente, seus movimentos exatos, olhos fixos, gestos estranhos. Não eram humanos eram autônomos agindo como humanos. As vezes, quando riam, eram animais. Quando graves e indignados apontavam inimigos eram como robôs, programados pra não gostar de outros robôs. E sempre, sempre estava como quem participa de um quadro antigo, bidimensionais. Nada me era estranho, porem tudo estava diferente. Pensei na possibilidade de eu estar louco ou que teria errado de casa nessa noite. Mas a verdade é que era ela mesmo minha família eu só estava crescendo. Sabia que dali um tempo, seria minha hora de automatizar a vida, os gestos, os sonhos. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

VI

turvo,
    turvo,
       cinza e ocre: um calidoscópio de lixo panos sujos sacolas colchões sobre um terreno fétido.

Tudo turvado como se sonhássemos, como se o mundo acabara de findar-se e o inferno não existisse e só restasse isso: a realidade ordenada por um não-deus julgador cruel, mas, sem penas. Intermitências de justiça, intermitências de sentido direção cor. Turva a fumaça do cachimbo de crack. Pequenas luzes que acendem que nada tem de ver com estrelas ou vaga-lumes e apagam.
A um século quem diria que isso seria futuro? Quem, olhando a invenção da imprensa diria que ela seria incapaz de falar sobre o homem? E esse futuro traz imagens realistas demais pra crermos no jornal: Turba cracolandia, zumbis sem rostos, espelhos no lugar dos olhos. Onde nos vemos. Turba ilhada no centro da cidade, dessa mesma cidade ilhada pelo niilismo moderno – eles já viram – que não pudemos perceber quando chegou – ele perceberam.

           Háaa: zimbu: zumbi que no lugar de celebro come c..hárá ié ié.

Turba que iria nos redimir desse namoro com a morte ( trazê-los á luz? Qual, essa? Está apagada a séculos, nós iludindo com seu lume e eles sabem).  Porem, cai sobre os olhos a negritude do véu do individual, separa-nos, pra fazer de conta que sobrevivemos. Cai a noite e um menino tateia o muro, pará em frente ao poste, procura o interruptor pra acende-lo. Não há interrupção, não há luz, o breu é total, dentro e fora. Ele cambaleia (pra ler ao ritmo do cuduro) cai, cai cai, cai, cai cai. O vento sobra, um outro morre. Fumei a pedra e to de porre. Cai cai cai, cai balão: tuberculose, com depressão.

 E jaz sobre a cidade uma lua branca, boiando sobre todos os sonhos e deuses, boiando como todos aqui em baixo. Branca como uma pedra. Inalcançável ao menino que desistiu de ligar o poste, (a pouco morre) a companhia elétrica também. Alias todas as companhias desistiram de acompanhar. Só a lua como quem procura um filho, mira as ruas.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

merda

[MERDA]
FEZES HUMANAS, SOBRE TELA. SEM DATA. 

OBS;
não! Não gostem dessa obra, não olhem para ela como uma parte artística da vida. Ela é uma merda. Um excremento de ideias, seu texto é um papel higiênico usado, duas vezes. Aprendam com ela a rejeitar! O artista, esse artista quer a rejeição. Quer a vaia. Viva! E conviva com a vaia. Use-a antes de tudo sobre esse artísta que voz fala. Pois, esse, sente-se perola e sente-os porcos. Vocês que comeram no coxo da musica pop, vocês que aprovam a programação colonizada das únicas rádios nacionais, vocês que assistem a choram com a mesma novela á décadas: não merecem minha arte, não merecem o meu gesto. Abortem-me. Ou antes, odeiem-me do mesmo modo que amam aos galãs. O publico, que fora respeitável, prostitui-se pelo conforto. E as artes, mortas, só podem feder pra lembra-los dos vossos narizes. Apodrecem! Vejam, vejam a feiura! Não estão acostumados não é? Pois saibam que aquela arte que vocês comem todos os dias é mais podre que isso. E ainda assim, os alimenta... vão! Não aplaudam.