quinta-feira, 4 de julho de 2013

#confissõesdamadrugada

Essa hastag esteve nos tt por alguns dias. Sempre penso que por trás dessas há vários adolescentes ociosos usando de maneira trivial um instrumento que poderia ser tão útil e bla bla bla... Dai depois que esse meu velho ranzinza para de falar penso que é exatamente pra isso que serve esses ferramentas, pra servir ao homem e pra que esse possa reconhecer-se no outro, até mesmo nas suas confissões, inconfessáveis de dia.
 
1.       Tenho medo de ficar louco. Não da loucura criativa de um Van Gogh, esse coisa charmosa, que é muito mais a explicitação de uns idiossincráticos, tenho medo daquela loucura de Camille Claudel, a loucura de um Lima Barreto. Loucura que as mentes, brilhantes ou não, adentram numa caverna escura, sem pensamentos lógicos, sem lembranças. A loucura parecer ser uma espécie de pesadelo sem fim. Devo dizer que não é sem razão que esse medo me assalta. Numas das poucas vezes que me aventurei a experimentar algumas substancias ilícitas, tive a sensação de que minhas paranoias todas acordaram: o medo do escuro, o medo de ser roubado a qualquer hora, o medo que de repente eu perdesse a consciência. Por essas e outras que tento levar uma vida mais saudável.  Outro motivo é que dois amigos já foram diagnosticados “loucos”. Obviamente “loucos” não foi a palavra usado pelos médios e sim “em crise”, (mas doutor somos um geração em crise!) Desses um deles fui visitar no hospital, estava como que em transe, ou com aquela cara de quem acabou de acordar e não está entendendo nada. Foi triste. Pior foi o diagnóstico de um outro amigo “isso deve ser espírito”. A religião tem uma explicação pra tudo, pior que ela só o senso comum. A loucura clinica é triste. Tenho medo dela talvez porque (confissão)  tenho muito egoísmo da minha personalidade, do meu foro intimo forjada a base de decepções e rupturas, mas ainda e, sobretudo, integra.  Então aqui fica registrado, se um dia eu ficar louco mesmo, saibam que estou odiando isso, e que um dia já foi lúcido.

2.       Que meu ateísmo é o resultado natural de um processo familiar: Bisavós católicos, avos protestantes, pais protestantes moderados, eu ateu. Ou seja, o sagrado passou das imagens e ritos, para ritos mais cotidianos, para consciência religiosa, e agora eu, sacralizo nada ou muito pouco. Esse sagrado pra mim está no alimento, por exemplo. Detesto quem come com banalidade, está na conversa, detesto papo-furado, está no riso: a gargalhada tem algo de vulgar e diabólico e sacralizo principalmente o silencio. Quer congregar comigo? Comamos em silencio e se for bom, rimos humildes perante o mistério do universo.

2.   Que em silencio eu desejo a morte pra quem filma alguém comendo, ou pior falando e comendo. Diretores de TV e cinema que fazem isso, por mim vossos lugares estão marcados no inferno.

3.       Que sou anarquista demais pra ser Zen. O budismo e o Zen-budismo muito me inspiram. Nas horas de profunda agitação lembro-me de um monge zen respirando, bebendo chá em silencio, olhando o mar. Penso na imagem de Buda, sorrindo. Penso que seria muito feliz se pudesse entender Buda, Dharma etc... Porem lembro-me  que o zen teve de ser o que é, ele enfrentou muitas guerras, fome, frio intenso. A vida do zen é cheia de atribulações e a meditação, a paciência, o kang fu, foram maneira de sobreviver. Eu não passei por isso, não precisei lutar pela casa onde moro, tenho um trabalho que exigem paciência, mas, sem comparações com o do Japão medieval ou da China medieval e moderna. Penso no Zen com respeito, mas não o encontro como tabua de salvação. E é do caráter do meu povo levar tudo em banho-maria, nas coxas, seria difícil um de nos viver a castidade, o total desapego, ser brasileiro é um privilegio e um vício.

4.       Também tenho o vicio de imaginar-me em outras e variadas vidas. Mas, quem não tem? Poderia ser um muçulmano, com uma túnica incrivelmente branca, rezando para Alá, com a cabeça em direção a Meca e ao sol se pondo no deserto. Meu ser acharia em minha tribo e religião a minha identidade. Eu saberia de cor passagens do alcorão, falaria baixo e com a articulação de quem reza, sempre. Seria profundo.

5.       Acho as pessoas feias, mais elegantes que as bonitas. Não a feiura clássica: falta de dentes; verruga no nariz, cabelos desgrenhados... Acho bela aquela feiura de uma Rossy de Palma, de um Bowie, a feiura luxuosa da Amy, magra de sutiã e um rosário ao pescoço. Acho que é mais identificação que propriamente gosto. O feio está mais próximo, é mais humano. Gente feia não surpreende quando estampa o caderno policial, os ônibus lotados, a câmara legislativa é cheia de gente feia. Porque gente bonita só serve pra posar pra foto.

6.       Volto a loucura. E encontro a raiz do medo. Numa tarde de verão o céu, de repente, escurece. Uma tremenda tempestade cai sobre as casas, arranca telhas, enche os rios e quebra galhos nas arvores, que pareciam tão resistentes. Então nós percebemos que a natureza, que nós cerca e também nos forma, é violenta. E deixar o pensamento seguir o curso de uma tempestade, pensar sem barreiras, pensar, por exemplo, em praticar um assassinato em serie ou no que é o Ser no seu interior,  é fazer tempestade na mente. Creio que isso tem um preço, não é possível pensar pra alem do comum e voltar a assistir o comercial da cerveja e rir. Em suma: pensar dionisiacamente (como Nietzsche) é exigir da mente uma capacidade que não sabemos se ela tem. Talvez por isso exista uma fabula de que nós estudantes de filosofia ficamos meio esquisitos.
      Seriam essas as confissões, poucas pra um mundo tão ávido de reality show, mas suficiente pra me tirar o sono. E agora compreendo melhor esse tag, não é que a confissão afaste a insônia, ela é que tira o sono. Sim, confissões só dão sono em padre.

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