quarta-feira, 12 de junho de 2013

DIA 1.

1.

Então a placa dizia algo sobre seguir em frente para alcançar tal cidade e retornar pra atingir outra. Problema: não busco nenhuma das duas. Então acho que me perdi de novo. Sei, mais ou menos, onde estou, mas não sei se estou na direção certa, não sei se estou perto ou me distanciando cada vez mais. Penso também na gasolina que gasto nessa de procurar a direção. E penso no meu pai, era ele que sabia todos os caminhos e direções, era ele que poderia me explicar como fazer pra chegar e pra voltar. E agora? Essa estrada vazia, esse sol a pino fazendo o asfalto tremular de calor, e eu cada vez mais só. Me perdendo mais e mais, ou me encontrando (conto com a sorte) sem ele pra auxiliar. Sem mais ninguém. Talvez seja esse o momento certo pra virar homem, tomar, literalmente, as rédeas de minha própria vida. Buscar eu mesmo o caminho certo ou me perder, porem, por minha própria conta. Sem pai, sem mapa, sem placa de trânsito. Apenas com a aquela leve intuição de que posso e consigo encontrar a direção. Que posso, também, ser eu um guia, que quem sabe um dia....Passe por aqui alguém, como um filho meu, e sinta minha falta.

2.

Se eu falar a verdade, talvez você entenda. O que, em tese, seria ótimo. Porem, iria nos reduzir a dois seres, carne e osso, cheios de verdade, com fôlego e sangue. E quede nossa poesia? O velho encantamento de confabularmos amenidades, e bobagens? Deixemos as verdades e suas durezas de lado. A mentira ainda é uma cama quente, deitemo-nos...

3.

Ébrios, quem olha não sabe se dançam ou cambaleiam. Quem vê também não advinha se estão felizes ou tristes, tristissimos, ou ambos. Eram assim como bobos, expulsos da corte. Erram em várias direções, cantam variados refrãos.  São santos e loucos, perdidos por ruas, por cidades escuras e épocas sem importância ( como os anos 10). São assim como um eu qualquer.

4.

Eu, que nada quero além do que é meu. Que, só pra contrariar, não desejo a gloria nem a fortuna tenho esbarrado vez ou outra com a reencarnação. Nunca acreditei nisso, nem acho que ela, enquanto teoria se sustenta. Mas, quem vive pra imortalidade vive melhor: faz hoje sabendo que desse passado jamais irá de livrar ou sabendo que mais dia menos dia será recompensado. Acho bela a imagem de nós humanos, carne e osso e desejo sexual, alem de muco e cheiro de sovaco, termos uma ligação estreita com o universo para alem do temporal. Ou tão imersos no todo de tal modo que com ele retornarmos. É uma ideia boa demais pra ser esquecida ou pior: religiosa. Desejo hoje, varias reencarnações e mesmo que elas não existam, quero-as pra viver sem-fim esse infinito agora.

5.
 Eu estou na minha mesa e vejo voando perto de mim um mosquito. Um desses bem pequenos, ele erra sem direção, pousa sobre um xícara suja que está aqui a algum tempo. Eu vejo esse animal como esse meu olhar vulgar de sempre, sempre pensando pequeno, sempre tão igual. Mas, num instante faz-se presente a lembrança do livro de Clarice, era uma vez uma mulher e uma barata. E passo a perceber esse ser com essa evidente qualidade: ser vivo. Ele é tão vivo quanto eu. Nela jaz o sopro divino tanto quanto deve haver em mim. Num instante bato-lhe com a palma da mão. Espremo-o contra a mesa, de seu corpo sai um pouco e sangue e um liquido viscoso amarelo. Eu como, porque sou mais vivo que ele.    

6.

Antes de partir pára á porta. (um segundo, ou menos, uma paradinha pra marcar bem o fato. Como um tiro de misericórdia na cara do amor, o ultimo amor, que juraste amar até o infinito. Quando tornas-te tão audacioso a ponto de falar de amor e astrologia numa só frase. Um segundo pra dar à ela aquele esperança, pra fazê-la sofrer, mesmo, da dor de sua nobre e vitoriosa partida. Aquele segundo que demonstra estar em completo acordo em tudo quando disseste. Aquele momento que faz de ti o herói das ultimas cena. Ès o sol iluminando a casa, a vida, dessa pobre senhora, mas, agora vai-te. Pois quantos lares e colos não terá tu, á disposição de teus afetos? Fosses mais sentimental veria a ti mesmo como um Amazonas dando vida e água a vários países. Todos eles pobres e ignorantes. Esse segundinho é pra anunciar ao mundo, que vai-te, que é livre, que ainda que não vemos, tu voas!!)

7.


Nesses dias festivos me comporto como um discípulo de Dalton, ou Shoppenhauer, Kant, Sêneca, ou seja, pessoas que não querem e nem se sentem bem em publico. Queremos muito a mais doce solidão, aquela rara solidão de estar acompanhado pela satisfação ( não aquela outra que inclui a vontade de estar com alguém). A solidão inútil contraria também aquela de Picasso, que a utilizava pra criar, o que no caso dele era capitalizar. Quero a solidão intestinal, solidão estrela-do-mar, contra aquela do Leão que mantém todos ao largo, pra mostrar sua força. Nem a solidão ornitorrinco, que isolado foge de comparações. Menos ainda a clausura de uma Edirh steim, (Deus me livre).  Vinde a mim, a doce solidão das estrelas, juntas e separadas, das montanhas, das pedras e do deserto.  Sem sair de casa, tenho os pés na areia do mais árido sertão mineiro. Tenho Cabral de melo neto. O mundo passa no seu cortejo: ora carnaval, ora corpos Crist, ora dia de são Valentin, santo Antonio. Eu não passo, deixo o calendário intacto desde o começo do ano. Feliz dia um.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.