quinta-feira, 16 de maio de 2013

O mapa do meu nada.




Vez ou outra alguém me questiona qual é minha religião. Algumas vezes dou-lhe uma resposta medíocre e fácil, assim com alguém que indica um caminho pra um desorientado, um caminho rápido e ruim. Outras vezes, sou sincero e explico mais detalhadamente, ainda que -  novamente a metáfora - desorientamo-nos ambos em explanações e possibilidades.

O caminho rápido e fácil é no fundo uma mentira confortável: sou ateu. Simples, Deus não existe, o mundo é, e continuará sendo e eu estou muitíssimo feliz com os meus anos de vida até que, findando-os apodreça-me na terra do cemitério. Numa construção lógica e mecânica, bem ao gosto moderno, cujo único e raso valor é valorizar o hoje.
No caminho mais demorado, cuja paisagem é mais bonita, ou árida sublime e terrível, a resposta é: não sei. Não sei se Deus existe,  se é verdade tudo aquilo que Paulo, Pascal e meu Pai falaram. Não sei se milagres e santos e catarses são manifestações d’Ele. Porem, esse caminho, ladeado pela duvida, não passa nem perto de nenhuma igreja. Acho-as chatas na sua essência, ou seja, um alguém que pensa  deter o poder de falar como eu devo viver.

Nesse caminho existem alguns andarilhos: um velho e manso, com um olhar profundo e doce que num murmúrio sutil me disse “se Deus não existe tudo é permitido” (Dostoievski). Depois de ouvir isso ainda pude dar uma dezena de passos antes paralisar-me, olhei para traz e o velhinho seguia sem nada dizer.... Que teria visto esse velho? Quão mais profundo foi o seu olhar sobre o mundo-sem-deus  para inferir tão dura sentença? E qual seria essas coisas que ainda não são permitidas, mas, que poderiam compor o todo?  A cada pergunta, mais distante ficava eu da resposta.

O outro andarilho é jovem e sanguíneo: Nietzsche. Que numa dessas caminhadas, olhou as pedras do caminho e disse que elas, e ele, estariam sempre retornando. Numa racionalidade trágica, quase um Prometeu (cuja condenação é ferido, sarar-se e tornar à ser ferido) ou um Sísifo (e sua pedra, vendo-a rolar  do cume ao pé da montanha, para tornar a carrega-la ao topo). Pena esse moço ter emudecido tão cedo, sem nos dizer a extensão desse “eterno retorno”, sem objetivos, sem liberdade, apenas necessidade e, para alguns, amor ao destino.

Há ainda alguns outros passantes, todos com alguma nova indicação de onde encontrar a resposta pra questão Deus, ou parar de perguntar. Alguns embelezam o caminho (Boff, T. D’avila) ou outros atrapalham a passagem (Malafaia, Valdomiro). Caminho apesar de todos eles, quem caminha constrói o caminho... e sobre tudo isso um céu em silencio.