domingo, 10 de fevereiro de 2013

qartas


Um atacante se prepara para bater o pênalti. Centenas de pessoas na arquibancada, concentradas como se elas próprias participassem, ativamente do ato com suas energias positivas. Esse espetáculo dura três segundos. O gooooooooll ou o praaaaa foooooooora finaliza uma ação que parece ser coletiva. Mas, o que é essa tal de energia positiva? Se centenas de pessoas são capazes de interferir no curso da bola, apenas com suas energias positivas como seria se fossem bilhões? E se esses bilhões torcessem não por três segundos, mas por séculos. Pois há bilhões de pessoas a séculos torcendo com toda força e fé para que algum, alguém encontre uma solução definitiva para algo como o câncer, ou a AIDS e sabe o que acontece? Nada.
Existe em todos nós uma essência do lúdico, um lado jogador que alguém já chamou de “homo ludicus”. Essa esfera da vida é o que dá graça e emoção a tantas coisas como jogos, apostas, adivinhações. O problema é quando essa esfera Ludicus atinge peso maior que outras como a Sapiens. E tudo vira jogo, a religião, a pátria, a região, e surgem coisas como “o sul é meu pais”, ou “Jesus te ama” ou “ame-o ou deixe-o”, “homem mais mulher igual a família”. Ou seja, nós contra eles.
Estou de minha parte, torcendo e enviando energias positivas para que nos novos tempos haja mais espaço para o sapiens. Ou... a trasvaloração de tudo em vida, arte.  E então a consciência de que câncer, AIDS, hemorroidas não tem cura. Mas guerra, medo e preconceito têm.
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Eles eram pequenos. Não eram anões. Eram achatados, chatos pela moral, pelo certo contra o errado, pelo fashion. Eram limitados pela imposição do papa, do pastor, do colunista social, do cantor de sucesso.  A arte desses chatos era a glorificação do tédio e da mesmise como transcendência. Seu deus e ou deuses havia, necessariamente de ter sofrido (sempre no passado). Não compreendiam ironia. Só riam aos sábados. Mas, e mais, eles tinham corpo, sexo pêlos sangue muco suor saliva tesão e era aí, bem no meio do cu que a verdade iria nascer. E apartir dai que tudo teria de fazer sentido. A dor dos outros era traduzida. Louvado seja o corpo. Louvado o sangue. A ultima saída. E, crendo no corpo, serão grandes.

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É conhecido o fato de que Strauss visitando uma aldeia indígena escrevia num bloco e um índio achando a cena engraçada imitou-o. O índio não sabia escrever, nem tinha necessidade disso. Eu sou esse índio. Eu imito a vida da Janis Joplin para não viver o marasmo da minha, eu bebo porque Fernando Pessoa e Leminski bebiam. As vezes me tenho pena, as vezes me amo e tenho duvidas da veracidade de meu auto-amor.  As vezes sou Stauss e o índio ao mesmo tempo, vivo e assisto minha vida, anotando-a como um fato curioso que pode fazer ou não parte do costume local, experimentando ser eu. As vezes sou apenas Stauss, vendo e deixando o índio morrer a míngua apenas porque não me compete salvar ninguém. Nem a mim, nem a nada.
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Quem disse que não tem como viver sem amor? Quem foi que disse que toda panela precisa de tampa? Quem falou que tudo fica melhor com um sorriso, um carinho, um olhar cúmplice? Um toque improvável. Aquela lembrança persistente, que “me liga” é quase um pedido de socorro. Uma mensagem, sms, e... olá a tecnologia serve pra alguma coisa! E finalmente é possível compreender de que Vinicius de Morais estava falando. É possível ver a vida, com cores novas. Ainda que tarde. Ainda que por um instante. Quem disse?
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Puxei uma camiseta da pilha e vieram todas abaixo. Puxei conversa com um estranho e ele acabou me contando toda a sua vida. Puxei a campainha do ônibus e todos desceram. Puxei a porta e a casa toda se abriu. Puxei a descarga e toda minha obra foi embora.
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