sábado, 26 de janeiro de 2013

sal x las ( no qual o s representaria altura a comprimento l largura e x a referencia ao observador que por sua vez tem l largura a comprimento e s auturia)





 Inspiração: eu era apenas um pintor recém saído da faculdades de artes. Saíram comigo na verdade, meu senso estético era aviltante para aqueles burocratas. Mas, eu estava numa pré-seleção para expor no principal salão de “novíssimos” do estado. Eu estava no caminho certo. De minha parte só precisava ser genial, ouvir o que o mundo me sugeria como ensejo artístico, mastigar essas influencias com o meu toque pessoal e cuspir, defecar e urinar arte contemporânea. Foi assim que criei Sal x las um composição aos moldes redy made, com um toque de arte popular e grafismos: tampa de caixa de isopor, de um metro por sessenta centímetros e fita crepe.
  Configuração: o salão estava cheio de lixo, e de artistas. A única obra que dialogava diretamente com a cidade era Sal x las, e novamente fui desdenhado colocando-me num canto escuro e não ventilado, próximo, e eu diria “próximo demais” dos novíssimos conformadíssimos artistas egressos da faculdade “formadora” ou “deformadora”, como queiram. Não! Isso era demais. Fiz o que qualquer pessoa com brios faria. Numa tarde chuvosa entrei por uma porta lateral do museu, dotado de uma pasta grande. Olhei para minha obra e só tive um pensamento: vou salvá-la.
Complementação: a delegacia era fria, mal iluminada e cheia de papeis pregados na parede. Esses papeis foram envelhecendo, umedecendo. Eu, de pijamas, relatei aos policiais que vira um homem, com mais ou menos minha idade e minha altura, saindo do prédio do museu numa atitude suspeita. O retrato falado foi feito, disse que os olhos eram da mesma cor que os meus e pelas roupas ele parecia artista. Não era feio. Nota que o retratista estranhou.
 Finalização: Nas entrevistas chorei pedindo mais respeito às artes e a cultura do país. Por carta nos jornais implorei ao deplorável ladrão que devolvesse a obra, ainda que em retalhos. Ao menos assim ficaria provada que a causa do roubo fora a inveja. Rasguei, aos prantos a minha própria tela, e enviei para o meu próprio endereço. Recebi o pacote e quase tive um enfarte. A minha obra em retalhos numa caixa de papelão. Chorei dias e noites! Uma obra prima! Uma obra prima!   

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