domingo, 23 de dezembro de 2012

Foda-se o gênero




Garoto está olhando a vitrine enquanto a irmã e a mãe visitavam a loja, depois foram pra uma lanchonete com vários anúncios de cerveja. O garoto pensava nesse negocio de ser menino e menina, homem e mulher. Roupas as vezes tão parecidas e outras tão diferentes, ainda que nunca opostas. Estava satisfeito com suas próprias roupas, e nem precisava de novas, porem sentia pena da irmã por ter que usar aqueles tecidos ásperos e pinicantes. Era, em geral, solidário com as meninas, compreendia que a fraqueza delas não era a força do homem, antes era apenas outra forma de ser gente.  E era curioso a respeito dos anúncios de cerveja: mulheres de biquine, felizes, e idênticas entre si. Felizes talvez por estar ao sol, bebendo ou felizes por agradar os homens? Como objetos da vaidade alheia. Foi assim que o menino quis traspor essa barreira, fazer com que as águas de lá, inundasse o lado de cá e também o contrario. No fundo era seu modo de agradá-las, fazendo-as tão livres quanto os homens, para usar roupas confortáveis e largas. “porque não compra um calção para mana?”. Rio a mãe: ”Ela é mocinha tem que estar bonita”. “Fica bonita de calção”. Mas as duas não concordavam, mocinha tinha que estar de roupas justas. Sentiu pena da irmã, parece que seu futuro era ser mais uma dessas moças dos anúncios, poucas roupas e um eterno sorriso.

Grande, o menino via seu reflexo na vitrine: barba, um turbante dourado, um vestido de seda e um salto altíssimo. Era ele mesmo sua  obra, uma estátua, uma criação. Havia dois anos que assumira pra si e para os outros que suas roupas não definem seu gênero, “foda-se gênero!” repetia para todos que o encavaram aturdidos com aquela produção, “nem é carnaval” pensavam. Mas o garoto sentia que sua expressão era um destino, quase uma missão. Visionário de um futuro sem definições por sexo. Esse era o propósito ulterior de tudo quando sonhara: liberdade extrema. Ser feliz sem precisar definir-se isso ou aquilo. Entrou na loja, e pediu pra experimentar o vestido rosa da vitrine. A vendedora negou “desculpe, mas se o senhor não levar como vou vender para uma mulher depois?”. “não é assim que funciona?” respondeu, acrescentando: “As pessoas experimentam, importa o sexo? E se fosse uma ótica, eu não poderia experimentar uns óculos que uma mulher tivesse usado?”. Sempre essas confusões, sempre o confundem com uma travesti qualquer. Mas, ele era politizado e respondia á altura. A moça foi conversar com o gerente, e ele ficou ali olhando outras roupas.

Era noite e a campinha tocou. Ele levantou, vestiu um roupão sobre a camisola e foi atender. “Me ajuda!” era uma amiga de anos. “O pai dele quer ir pegar ele de mim, tenho que esconde-lo” disse apontando para um garoto de três anos, que sondava para dentro do apartamento.  A amiga foi tomar uma água e o filho ficou no sofá, olhando para o dono da casa: esmalte vermelho, chinelo com um pompom vermelho, camisola que não escondia o peito cabeludo, a barba espessa e os olhos que não escondia um pouco de desconforto. Era tarde, não estava acostumado com visitas e muito menos com crianças. Os dois se olharam de perto. O de camisola era pelo menos dois do menor. O menor, calado, estranhava, porem nada dizia.

Lucas era o nome do filho da amiga. Ficou dois dias, para a mãe poder resolver os papeis, a guarda, etc. Tempo bastante pra criar um intimidade “não quero”. “Mas só tem isso, se você não comer vai ficar com fome?”, mas, não há argumentos que convença um filhinho da mãe daquele a comer feijão com arroz. “Tem bolacha, eu vi”. “Agora é hora de comida de verdade, se você comer tudo eu te dou bolacha”. “Dai eu vou estar cheio, não vai caber bolacha, quero agora”. “Não!”. Lucas olhou para aquele homem vestido de mulher, ainda ouvindo aquele “não” cheio de raiva, se sentiu tão só, sem mãe, sem conhecidos por perto, dai ele chorou. O homem trouxe a bolacha, mas ele não conseguia mais parar de chorar. O homem também já não sabia o que fazer, e pedia mil desculpas, e falava “tudo bem, tudo bem, não come” mas algo de grave tinha acontecido na relação dos dois. Era difícil concertar. O homem então pegou o piá no colo, levou para a varanda, mostrou o prédio da frente, o passarinho, imitou o barulho do ônibus. O menino parou de chorar e o homem descobriu que tinha jeito com as crianças. Descobriu que tinha algo de materno em si, e não foram as roupas que o revelou isso. 

fim
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012


Resistir, é o verbo fundante da língua brasileira.

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Disse Niemayer : ninguém entende de arquitetura, é preciso explicar, conceituar.  E agora, definitivamente morto, quem dentre nós haveria de contradizê-lo? Mas, em verdade, o que não falta é exemplos quem colaboram com a afirmação do arquiteto: que seria de uma pilha de latas de feijão sem Andy Wrol para nos explicar, mais que explicar, chocar reafirmando a idéia da obra. E quem não iria rir de um pobre folião fora da sua ala na escola de samba. Ele só é quando está devidamente explicado pelo enredo. Mais? Nada a mais. Dê-me seu programa, suas premissas, não esconda a mediocridade de suas ideais sob a peneira da “contemporaneidade” explica-te ou NÂO te devoro.

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A  cena nos é bem conhecida,  o vôo de uma águia, a diferença dessa é que não se trata de um filme, é, supostamente, uma cena real: um rasante da águia e ela agarra um bebê que engatinhava num gramado. Fim da cena. Por hora não importa se é real ou fictício, se é possível ou águias não se interessam por bebês, o que me importa é se fosse possível decidir naquele instante, se fosse dado á criança o direito de escolher, ganhar os ares, voar por sobre toda a cidades, montanhas mares, atravessar tempestades e dos pícaros sondar a vida ínfima rastejante ou continuar rastejando no gramado, cumprir o protocolo de sorrir para o papai, crescer, estudar-pra-ser-alguem. Se lhe fosse dado a escolha, se fosse possível....que sorte!

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 A cor púrpura á um cego. Um desconhecido que passa. Uma semente que morreu entre espinhos. A pressão do ar. A curva do universo. O meu amor para você. O luar de Anthe. O sem adjetivo. O fim, antes do inicio.


“Assim falava Zaratrusta”, iniciou sem falhas. As cortinas do teatro foram abrindo lentas, sensuais, no palco vazia uma única luz, cortando a negritude da cena, como uma faca. Um pensamento pesa-me na cabeça: e se der errado, se Ele não quiser. Porem as mãos ainda está secas, o rosto, creio, inexpressivo. Inicia-se a dança, um ator quebra o silencio e soluça num monologo sobre a paixão, a vida e cárceres. Por um momento tento entende-lo e cadê? Há uma perseguição, ele foge de alguém e a orquestra traduz seu trajeto em sons, melodias e movimentos, cada vez mais rápido, é hora? Pressinto o momento, meu momento, concentro no alvo, seus cabelo, as suíças, seu olho. Oh! Os olhos, como não tremer? são olhos de águia, são ferro em brasa. Evito os olhos, evito pensar nos olhos. O ator corre sobre o limite do palco, os musico dançam sobre a cadeira, o maestro emprega todo seu corpo em cada movimento. Era um movimento simples, não? Esse tormento sobre o palco não me deixa pensar, essa musica, nunca toda rumo. São linhas e estalos e vazios... céus! Lá está, os olhos... é minha deixa, é agora minha única fala: Bang!

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Feurbach entende que são os homens que criam Deus á sua imagem e semelhança. A principio isso me parecia ofensivo aos teístas, porem depois de ler a Eneida de Virgílio entendo que aos helenos isso era aceito: quando Ulisses mata um homem ao pés do altar de Troia ele lhe pergunta “se há algum Deus ao qual honrais, clama-o” ou seja, se tu tens honra (algo humano) morra com ela honrando aos seus deuses. Ou seja, os deuses eram, também a expressão da força de um povo. No momento atual ouso dizer, (com o perdão de quem pensa o contrario) que o Deus, repetido á mil pelos alto-falantes e canais de tv é também a nostalgia de um Estado eficiente. Se não temos um povo e uma cultura que podemos confiar, vamos louvar a um Deus enérgico e exigente, para que desse modo possamos mostrar o que esperamos desse povo e dessa cultura. Creio nisso, apenas porque creio que a historia anda em círculos, do contrario ficaria louco. Ou já estou...

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Que a velhice não paga a pena. Ver a historia e suas vicissitudes rodarem ao ciclo infinito do acaso, ver a beleza tornar-se feia, o amor em ódio e a alegria em tristeza. Sentir a mão pesada do tempo, a luz da razão obscurecendo a realidade, ver o inicia e o fim de tudo, tal qual um fantasma sem poder dizer a isso tudo “´preferiria não”.... se ao menos pudesse sentir qual o sabor de seus lábios.

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Cena romântica numero 3

(as cenas 2 e 1 não podem ser publicadas, para manter o bom nome de minha reputação)

Eu estava bucolicamente sentado num banco da praça do japão. O pensamento vagueava por entre antigos amores e a necessidade de se expelir água pela urina... (por que as coisas são tão complicadas?) e havia algo no céu, um tom entre cinza e azul marinho, uma nostalgia do sol, um sentimento de tempos imemoráveis e seus segredos... Ou era apenas poluição mesmo, mas, havia algo no céu. E eu, tão não-parte do céu, tão terráqueo, terraquiamente preso no solo, vendo as nuvens passando. Deixei-me levar pelas imagens, deixei o pensamento livre apenas apreciando o curso desgovernado das nuvens, quando... O céu todo travou. 
Dai apareceu uma mensagem de erro404, ouvi como uma voz, como um trovão dizendo @##%@¨%¨¨ e por fim um som das cornetas celestiais anunciando um Ctrl+Alt+Del, e era dia vinte e um do doze, do doze.

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meu instragram sem sem ser.

-Sol entre nuvens e prédios, dourado efêmero.

-Uma fatia de pizza sabor: seria melhor se estivesse com fome.

-Uma roupa linda que não usaria.

-Gramas brancas, sabor felicidade plástica.

-Anel prata para o amor-próprio-platônico.

-Francesinhas da periferia. 

-Na Viagem nenhuma saudade na mala. 

-Explique esse espelho ou me espelhe nessa explicação. (senão de devoro)

-Meu quarto, minhas regas (que não sigo).

-Despretensiosamente sexy desesperadamente cômica.

-Migalhas de minhas aventuras para os desventurados.

-A arquitetura e a arte de vê-la.