sábado, 3 de novembro de 2012

Vinho vous


Textos que surgiram numa madrugada insone ao som de Patty Smith.

1.

O projeto de encontrar a vida, segundos antes da morte, falhou.  - Caminhando rente ao abismo, amando quem só me odiava, tomando todas, relendo as cartas de amor & ódio. Ainda assim a vazio não se dissipou, o amor não salvou e o silencio não se tornou musica.  Temas e bilhetes suicidas, reduzidos a uma má gramatica sem nem poesia. Que o horror do normal se tornou terror é compreensível, mas, que todos os gritos tenham calado, que os arrepios anestesiados, que... onde passou a vida, que deveria estancar aqui?

2.

É nunca te amei, estava contigo apenas pela heroína. A heroína que você foi me tirando da lama, dizendo que apesar das feridas e do inchaço ainda existia uma espécie de beleza, talvez nos meus olhos. Mas eu não te amo, nem nunca te quis para sempre.  O sempre é muito tempo, é tempo demais, é tempo pra eu pensar em mim e eu odeio fazer isso, você sabe, é tempo de eu ver que cresci, que não tenho mais desculpas, eu tenho que ir agora...Me solta! deixa, é minha hora de voar, por mais confortável que possa ser, seu amor é jaula, de pedras preciosas mas, jaula e é duro, é tempo de eu voar, sem asas, sem fim, sem medo.
3.
Monalisa entristecida, a moça do brinco de perola soluça, o visitante de Raul Cruz fecha definitivamente a porta. O homem vitruviano se desespera como homem de Munch. O pensador chega a inevitável conclusão e também o filosofo de Rembrandt mergulha no breu: os relógios atingem o chão, o bidé quebra, e é tempo... Nada além de cento e quarenta caracteres.

4.

O primeiro foi o sofá-cama que rasgou depois a samambaia morreu. Dai teve a infiltração na parede da sala e a primeira goteira na cozinha. Então o piso perdeu o brilho, as maçanetas emperraram, o vidro quebrou, o teto manchou de bolor, as paredes descascaram. As baratas, os ratos e o limbo nos cantos e o cheiro, tão humano, tudo escatológico e humano. As portas emperradas sepultaram-me aqui. Usei a força de vontade restante pra estancar a torneira e agora?  
                
5.


Vinho vous – abrindo a garrafa de vinho sois escandalosamente volúvel: Os seios, as mãos, os lábios e o vinho oferecidos no melhor momento da safra. Um brilho diabólico na taça e nos olhos. Quanto eu te quis inteira, toda, e por todos os lados. Seu gosto por completo na minha boca, seu suor, seu hálito, queria-a porque só posso querer, desejo desejar-te ao infinito, ao supra do gozo do que me faz viver-te

6.

Trator na terra dura - a vontade de rasga-la feito uma puta velha e desdentada. Manejo na terra, cavoco como um tatu, fazendo dessa terra seca um solo fértil. Far-te-ei o mesmo, sua puta! Esse teu modo de madame, esse teu desprezo vai virar barro, que não seja hoje, nem na próxima colheita, mas assim como semente na terra nasce pra cima, eu vou estar em cima de você. E nem é a chuva que vai molhar essa terra...

7.

Rolamos na lama, cantamos um hino profano, trepamos como bichos, e mesmo assim sua santidade é indiscutível. Não há nada no mundo mais virginal que você, ainda que fumando depois de cheirar uma carreira, até a maconha é santa na sua boca. Um anjo-bebe não toca a harpa com tanto carinho quando você tocando uma punheta pra mim.  Eu assim, meio mole, com dificuldades pra compreender a realidade, Sei e posso provar que quando você rebola no meu colo, os céus seguem seu ritmo. Sua bunda comanda a natureza, seus cabelos, seu brinco, tão naturais quando o vento, o sol, a erva que fuma é a semente da liberdade e eu, devoto seu. Seu sangue me fortalece, sua urina, deixa meus cabelos e pele brilhantes. O sermão que professas nas orgias ou nas overdoses hão de mudar a historia do mundo. Eu sei, vejo, sinto.

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