quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Subir descendo, ou descer subindo.





Numa noite tive um desses sonhos estranhos e fabulosos. Não havia mística nenhuma e nem nenhum chamado da providencia pra que eu juntasse minhas coisas e partisse para uma missão de paz. Na verdade nem sonho era direito, poderia mais se incluir na categoria devaneio. Visto que era o resultado das canseiras provocadas pela nossa conhecidíssima burocracia, pois eu havia passado a tarde correndo pra cima e pra baixo do fórum civil de Curitiba. E numa dessas subidas e descidas me ocorreu a “visão” da burocracia asfixiante descrita n’O Processo de Kafka e a imagem divina da Dike (deusa da justiça que leva Dante Aligere as portas do inferno, ou algo assim) dessas duas imagens surgiu o sonho daquela noite:

Estava eu novamente preso nas amaras da burocracia de algum lugar amplo e movimentado, sei que eu deveria procurar um andar especifico e pra isso me utilizava do elevador, porem havia um erro arquitetônico: O formato do prédio era circular, e o elevado estava na tangente e era quadrado, decorrendo que a cada parada havia uma fenda entre o piso do elevador e do andar.  Cheguei ao meu andar: 11 e ali fui informado que deveria seguir ao andar 12, e que eu tomasse a escada que descia um. Esse era o paradoxo incluso no sonho. Descendo um andar alcançaria um acima.

Esse sonho me parecia totalmente idiota, pois não havia nenhum sentido “subir descendo” mas, já houve alguém que disse que o cotidiano é cheio de surpresas pra quem sabe olhar, hoje tive uma boa resposta pra isso. Fui até um prédio estatal, antigo, e com a mesma pressa de sempre resolvi descer pela escada. Mas, havia um senhor idoso descendo na minha frente e barrando a passagem. De modo que tive que descer a escada no ritmo dele.

Ele, um velho, atingiu o ponto alto do que nós, humanos podemos aspirar: uma vida longa. Um grau acima da idade adulta, dois acima da juventude e muitos além da ignorância. Um velho está sempre subindo, cada vez mais rápido para o grande mistério, a morte, e um velho descendo a escada é um velho que sobe descendo.  Acho que o paradoxo é só esse, sempre subimos na idade, mesmo quando descemos, ainda que seja descer de escada, que é mais lento.

 Dante me acorrentaria num dos piores círculos do inferno por ser tão banal, e Kafka provavelmente desejaria que eu ficasse preenchendo mil formulários ao invés de escrever essas memorias, mas... eles estão mortos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.