sexta-feira, 16 de novembro de 2012

eram os deuses, deusas?


A cada dia um rosto.
Olhava no espelho e não se reconhecia, pois a cada manhã um novo rosto surgia, refletindo uma continua expressão de espanto.
 - já não suporto mais... Isso não é algo normal, nem tampouco é algo engraçado. Ontem mesmo na hora de dormir já estava resignadamente, aceito o corpo de um velho, branco com costeletas igualmente brancas. Hoje porem esse rosto: moreno, com profundas marcas de expressão sobre a boca, com grossas sobrancelhas.
Seu espirito, ao contrario da face, se conserva o mesmo. Ainda é o mesmo cara que há tempos procura um lugar no mundo, um amor pra vida toda e um aluguel mais em conta.
- queria poder mudar de sonhos assim como mudo de rosto, queria esquecer o passado, a voz de indiferença com que fui, por vezes, insultado. Mas, abaixo dessas múltiplas faces que me encaram, continuam o mesmo olhar e o mesmo espaço vazio, para trás do nariz e ante das nuca. O espaço onde existo de verdade, continuamente só.
Arrumou-se, com as roupas que cabiam, escovou os dentes e saiu para o mundo. Um mundo de aparências sempre tão novas como as dele. 

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Havíamos colocados os deuses num monte inacessível. Porem o inacessível tornou-se perto, pra esse ser, dotado de vontade e fogo. Dai elevamos os deuses ás estrelas, ao sol, e uma parte na Lua. A Lua foi alcançada, Marte já não nos da curiosidade e o Sol, medido, estudado e rebaixado à quinta potencia do que sonhávamos.  Então, escondemos os deuses (ou será que foram eles mesmos?) nas entranhas de um ser insoldável: a mulher.
 Maria, Isis, Rita, Dora, Billy e tantas outras maneiras de sondar as divinas, e femininas, maneiras do Ser. Tantas e tão humanas, mas inda assim obliquas assim dúbia. Ainda mais quando são sinceras e claras, ainda quando odeiam, ou quando amam. Só por existirem declaram:  “ a natureza está escondida, ama esconder-se, o melhor esta invisível” . Pobre do homem que acha que amando uma mulher poderá enfim desvenda-la, pobre da mulher que procura compreender-se, mais ainda: pobre do homem quando objeto do amor desses invólucros de paixão, prazer, criação. Há entre a natureza, a criação e as mulheres um sintonia, uma ligação da qual o homem só é espectador.  Ou, no máximo, pecador.


                  *

O professor Giraldeli usa uma metáfora épica para falar do nascimento do homem moderno: se Ulisses ainda acreditasse nas sereias ele não teria apenas se amarrado no mastro, mas também tapado os ouvidos. Pois o crente nem se quer desconfia do poder dos deuses. 

Tive esse mesma sensação hoje quando acordei de mais um pesadelo, desconfiei que meu armazenamento de imagens assustaras está se esgotando
 e meus sonhos estão se tornando roteiros mal-feitos de filme pobre.

Eu caminhava num cemitério, era noite (claro), aproximei-me de um tumulo de vidro. Havia algumas flores de plástico sobre o caixão. Havia a presença marcante da cor azul desbotado e vermelho sujo de poeira. Quando a tampa do caixão começou a abrir, e de dentro saiu uma mão de bebê. Eu bati no vidro pra tentar salvar a criança que fora enterrada viva. Quando percebi que o bebe tinha duas faces, uma em cima da outra, cobrindo a cabeça…. Também percebi que a dona do caixão estava deitada ao lado e ela paria pelo pescoço o bebê de duas caras. Recuei, mas ainda pude ouvir os berros do bebe que era, devorado pela mulher. O que faz desse sonho, além de cliché meio non-sence, visto que a mulher depois de parir, devora o filho. E a voz da morta era grave e é claro, falava inglês, como no inicio da musica The number of the Best, do Iron Maidan, e me jogava umas pragas…

Ao contrario de outras épocas os pesadelos recorrentes já não me assustam, acho que aproximo-me de Ulisses no sentido de, apesar de temer as sereis, quero ouvi-las e saber se cantam tão bem assim.


           *

Sofro de um pessimismo crônico quem consiste em ver como parte do problema o que a maioria vê como solução. Mas, sei que não sofro sozinho.

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