sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Carta ao meu filho morto, ou Se você estivesse vivo, talvez eu te amasse.


Nada a declarar a respeito da causa de sua morte. Foi um fim natural. Queria que nunca tivesse nascido, queria que nunca tivesse aberto os olhos, nem nunca tivesse visto o meu rosto. Você não era pra ser. Por que foi? E por que não lhe fiz o diabólico favor de adiantar seu fim? Pois nem sei.

Às vezes gostamos de ver as formigas devorar um besouro ainda vivo. Poderíamos poupar-lhe da dor. Mas, não o fazemos. (vejam o prazer do animal que devora, e a careta do que é devorado... ((Shcopenhauer?))).

E sua fraqueza me irritava, seus erros eram dignos de um verdadeiro otário  Nunca em vinte anos de correria vi alguém ter medo de odiar outro alguém. Você tinha. (será meu filho mesmo)

Seus olhos tinham uma piedade, mesmo quando cerrados, mesmo quando inchados de tanta porrada.

Os olhos me lembram as mãos. Mãos que procuravam as minhas em horas de medo! As minhas! Tantas vezes causas do teu medo. Por quê? Achavas que eu poderia protegê-lo? Não percebia que nesse gesto me causava ainda mais raiva? Pois suscitava sentimentos desconhecidos e inomináveis pra um cara como eu. 

Seus olhos puros, a sua mão puríssima tocando meu rosto arranhava o coração, que eu nem sabia, podia doer.  Essa historia estava complicada demais. Você era diferente demais de tudo que conheço talvez diferente de tudo que eu consigo conhecer.

Cadáver é algo que sei bem como é, posso ter dar um nome e nesse nome: cadáver, você cabe por inteiro. Se eu continuasse te chamando “filho” continuaria na mesmo confusão, pois, ou não eras meu filho de verdade, ou era mais que isso: parte de mim, parte desconhecida que nem quero conhecer.

Se você estivesse vivo, talvez eu te amasse, e um homem se ama, não é homem. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O logro


 


-alo!
-...atendeu!
-Alô, pois não?
-Boa tarde senhor, aqui quem fala é o relator, seguido do eminente revisor e nós pretendemos...
- Relator?
- Sim, foi democraticamente e mui honrado com esse posto.
- O senhor é juiz?
- Sobre minha profissão, que exerço com muito orgulho, gostaria de falar ulteriormente ao assunto que hora nos constrange.
- Sim, pois não?
- Nos reunimos em assembleia, com a exceção do membro 12 que teve uma crise de enxaqueca. Para decidirmos, 1. Democraticamente e cor do uniforme. 2. Democraticamente o lado do brasão. Ainda que isso seja um assunto delicadíssimo e seja pouco provável que dele sairemos sem algumas ranhuras na nossa estimada coletividade.
- ah! Acho que entendi enxaquecas, eu tenho..
- Pela ordem, senhor! Queremos é que o senhor participe como membro assistente desse assembleia, onde decidiremos a cor vermelha da nossa toga.
- Acho que o eminente relator está adiantando-se na sua conclusão, a cor vermelha ainda não foi decidida.
- De fato, eminente revisor. Porem e vitória ganha, assim como é evidente nossa democrática forma de escolha.
- Não questiono a forma de votar, Senhor, porem a cor vermelha é por demais colérica para um grupa tão harmonioso e gentil.
- alô, eu acho que o vermelho..
- Pela ordem! O senhor falará quando for a hora do senhor falar, por hora devemos manter a hierarquia...
- E o senhor fique desde já sabendo que o fornecedor deve, segundo ao capitulo três de nosso contrato, ser o ultimo a falar... contenha-se
- Admiro sua lembrança do manual, senhor Revisor, porem devo avisa-lo que não se deve ser tão ríspido com o fornecedor, como adverte o manual na clausula decima do terceiro capitulo, devendo, portanto o senhor emitir um pedido de desculpas ao senhor fornecedor.
- Mas, excelência, essa ação deveria passar por plenário.
- Passá-la-emos, Excelência. Eu voto que sim. E como vota o membro numero três?
- Como vocês todos sabem eu penso que as necessidades externas ao processo que hora temos em pauta deveriam, com as vênias de vossas Excelências, serem posta aos reinos do ostracismo ao...
- Vossa Excelência, insinua que um Fornecedor pode ser vilmente atacado por um membro sem a possibilidade de reparo a tão límpida e democrática imagem do conselho?
- Acho.
- Fora daqui! Seu fascista.
-alô! Eu tenho que dizer..
- Tudo bem, excelentíssimo senhor fornecedor. Já lavamos a sua honra com a expulsão democrática daquele crápula que não queria lhe pedir perdão.
- ah.. obrigado
- Agora vamos a votação..
- Caro senhor relator, apenas para causa de esclarecimento, votamos agora o pedido de perdão ou a cor do uniforme.
- Caro senhor revisor, se o senhor insistir nessa tesa de trancar as pautas, corremos o serio risco de andar em círculos...
- alô. O senhor me está ouvindo.
- Caro senhor fornecedor se o senhor não fazer o obsequioso gesto de calar a boca ficaremos discutindo vilanias...
- O membro cinco, no caso eu mesmo, visto que a hierarquia subiu um nível para todos abaixo do três, penso que o senhor foi um pouco indelicado com o senhor fornecedor.
- Como relator devo perguntar ao senhor revisor se foi, de fato indelicado.
- Eu revisor penso, através das qualidade que o posto, que democraticamente me elegeram, o membro cinco mereça a forca.
- Simbólica
- Sim, simbólica e exemplar.
- Então todos os membros abaixo de cinco sobem um degrau na hierarquia, visto que o membro cinco não mais existe.
- Eu existo!!! Não saio daqui..
- Tirem esse ignóbil de entre nós.
- baderneiro.
- Anarquista.
- Socialista.
- pedófilo e fumante.
- alô! Eu tenho que desligar
- Não! O senhor fornecedor deve fazer parte desse processo pra garantir a maneira democrática de decisões.
- Mas eu tenho que trabalhar.
- O senhor fornecedor irá insistir nessa tese de que isso aqui é um chá de comadres e não uma assembleia?
- Acho que é uma assembleia de loucos.
- ...
- De loucos?
- De loucos desocupados.
- Revisor, procure ai na carta magna se somos uma assembleia de loucos...
- Nada consta relator.
- Veja se em algum manual de conduta é citado a loucura como condição para a assembleia.
- Nada de novo. senhor.
- Então o senhor fornecedor foi muito indelicado conosco..
- Sim.
- Eu fui porra nenhuma, tá duas horas falando pra vocês que não temos tecido nenhum aqui é uma farmácia.
- Indelicadíssimo.
- Concordo de novo.
- Votamos o afastamento do fornecedor?
- Imediatamente.
- Deixa que eu então pronuncie o decisivo afastamento: senhor foi um engano.
fim

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Subir descendo, ou descer subindo.





Numa noite tive um desses sonhos estranhos e fabulosos. Não havia mística nenhuma e nem nenhum chamado da providencia pra que eu juntasse minhas coisas e partisse para uma missão de paz. Na verdade nem sonho era direito, poderia mais se incluir na categoria devaneio. Visto que era o resultado das canseiras provocadas pela nossa conhecidíssima burocracia, pois eu havia passado a tarde correndo pra cima e pra baixo do fórum civil de Curitiba. E numa dessas subidas e descidas me ocorreu a “visão” da burocracia asfixiante descrita n’O Processo de Kafka e a imagem divina da Dike (deusa da justiça que leva Dante Aligere as portas do inferno, ou algo assim) dessas duas imagens surgiu o sonho daquela noite:

Estava eu novamente preso nas amaras da burocracia de algum lugar amplo e movimentado, sei que eu deveria procurar um andar especifico e pra isso me utilizava do elevador, porem havia um erro arquitetônico: O formato do prédio era circular, e o elevado estava na tangente e era quadrado, decorrendo que a cada parada havia uma fenda entre o piso do elevador e do andar.  Cheguei ao meu andar: 11 e ali fui informado que deveria seguir ao andar 12, e que eu tomasse a escada que descia um. Esse era o paradoxo incluso no sonho. Descendo um andar alcançaria um acima.

Esse sonho me parecia totalmente idiota, pois não havia nenhum sentido “subir descendo” mas, já houve alguém que disse que o cotidiano é cheio de surpresas pra quem sabe olhar, hoje tive uma boa resposta pra isso. Fui até um prédio estatal, antigo, e com a mesma pressa de sempre resolvi descer pela escada. Mas, havia um senhor idoso descendo na minha frente e barrando a passagem. De modo que tive que descer a escada no ritmo dele.

Ele, um velho, atingiu o ponto alto do que nós, humanos podemos aspirar: uma vida longa. Um grau acima da idade adulta, dois acima da juventude e muitos além da ignorância. Um velho está sempre subindo, cada vez mais rápido para o grande mistério, a morte, e um velho descendo a escada é um velho que sobe descendo.  Acho que o paradoxo é só esse, sempre subimos na idade, mesmo quando descemos, ainda que seja descer de escada, que é mais lento.

 Dante me acorrentaria num dos piores círculos do inferno por ser tão banal, e Kafka provavelmente desejaria que eu ficasse preenchendo mil formulários ao invés de escrever essas memorias, mas... eles estão mortos. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

eram os deuses, deusas?


A cada dia um rosto.
Olhava no espelho e não se reconhecia, pois a cada manhã um novo rosto surgia, refletindo uma continua expressão de espanto.
 - já não suporto mais... Isso não é algo normal, nem tampouco é algo engraçado. Ontem mesmo na hora de dormir já estava resignadamente, aceito o corpo de um velho, branco com costeletas igualmente brancas. Hoje porem esse rosto: moreno, com profundas marcas de expressão sobre a boca, com grossas sobrancelhas.
Seu espirito, ao contrario da face, se conserva o mesmo. Ainda é o mesmo cara que há tempos procura um lugar no mundo, um amor pra vida toda e um aluguel mais em conta.
- queria poder mudar de sonhos assim como mudo de rosto, queria esquecer o passado, a voz de indiferença com que fui, por vezes, insultado. Mas, abaixo dessas múltiplas faces que me encaram, continuam o mesmo olhar e o mesmo espaço vazio, para trás do nariz e ante das nuca. O espaço onde existo de verdade, continuamente só.
Arrumou-se, com as roupas que cabiam, escovou os dentes e saiu para o mundo. Um mundo de aparências sempre tão novas como as dele. 

·          





Havíamos colocados os deuses num monte inacessível. Porem o inacessível tornou-se perto, pra esse ser, dotado de vontade e fogo. Dai elevamos os deuses ás estrelas, ao sol, e uma parte na Lua. A Lua foi alcançada, Marte já não nos da curiosidade e o Sol, medido, estudado e rebaixado à quinta potencia do que sonhávamos.  Então, escondemos os deuses (ou será que foram eles mesmos?) nas entranhas de um ser insoldável: a mulher.
 Maria, Isis, Rita, Dora, Billy e tantas outras maneiras de sondar as divinas, e femininas, maneiras do Ser. Tantas e tão humanas, mas inda assim obliquas assim dúbia. Ainda mais quando são sinceras e claras, ainda quando odeiam, ou quando amam. Só por existirem declaram:  “ a natureza está escondida, ama esconder-se, o melhor esta invisível” . Pobre do homem que acha que amando uma mulher poderá enfim desvenda-la, pobre da mulher que procura compreender-se, mais ainda: pobre do homem quando objeto do amor desses invólucros de paixão, prazer, criação. Há entre a natureza, a criação e as mulheres um sintonia, uma ligação da qual o homem só é espectador.  Ou, no máximo, pecador.


                  *

O professor Giraldeli usa uma metáfora épica para falar do nascimento do homem moderno: se Ulisses ainda acreditasse nas sereias ele não teria apenas se amarrado no mastro, mas também tapado os ouvidos. Pois o crente nem se quer desconfia do poder dos deuses. 

Tive esse mesma sensação hoje quando acordei de mais um pesadelo, desconfiei que meu armazenamento de imagens assustaras está se esgotando
 e meus sonhos estão se tornando roteiros mal-feitos de filme pobre.

Eu caminhava num cemitério, era noite (claro), aproximei-me de um tumulo de vidro. Havia algumas flores de plástico sobre o caixão. Havia a presença marcante da cor azul desbotado e vermelho sujo de poeira. Quando a tampa do caixão começou a abrir, e de dentro saiu uma mão de bebê. Eu bati no vidro pra tentar salvar a criança que fora enterrada viva. Quando percebi que o bebe tinha duas faces, uma em cima da outra, cobrindo a cabeça…. Também percebi que a dona do caixão estava deitada ao lado e ela paria pelo pescoço o bebê de duas caras. Recuei, mas ainda pude ouvir os berros do bebe que era, devorado pela mulher. O que faz desse sonho, além de cliché meio non-sence, visto que a mulher depois de parir, devora o filho. E a voz da morta era grave e é claro, falava inglês, como no inicio da musica The number of the Best, do Iron Maidan, e me jogava umas pragas…

Ao contrario de outras épocas os pesadelos recorrentes já não me assustam, acho que aproximo-me de Ulisses no sentido de, apesar de temer as sereis, quero ouvi-las e saber se cantam tão bem assim.


           *

Sofro de um pessimismo crônico quem consiste em ver como parte do problema o que a maioria vê como solução. Mas, sei que não sofro sozinho.

sábado, 3 de novembro de 2012

Vinho vous


Textos que surgiram numa madrugada insone ao som de Patty Smith.

1.

O projeto de encontrar a vida, segundos antes da morte, falhou.  - Caminhando rente ao abismo, amando quem só me odiava, tomando todas, relendo as cartas de amor & ódio. Ainda assim a vazio não se dissipou, o amor não salvou e o silencio não se tornou musica.  Temas e bilhetes suicidas, reduzidos a uma má gramatica sem nem poesia. Que o horror do normal se tornou terror é compreensível, mas, que todos os gritos tenham calado, que os arrepios anestesiados, que... onde passou a vida, que deveria estancar aqui?

2.

É nunca te amei, estava contigo apenas pela heroína. A heroína que você foi me tirando da lama, dizendo que apesar das feridas e do inchaço ainda existia uma espécie de beleza, talvez nos meus olhos. Mas eu não te amo, nem nunca te quis para sempre.  O sempre é muito tempo, é tempo demais, é tempo pra eu pensar em mim e eu odeio fazer isso, você sabe, é tempo de eu ver que cresci, que não tenho mais desculpas, eu tenho que ir agora...Me solta! deixa, é minha hora de voar, por mais confortável que possa ser, seu amor é jaula, de pedras preciosas mas, jaula e é duro, é tempo de eu voar, sem asas, sem fim, sem medo.
3.
Monalisa entristecida, a moça do brinco de perola soluça, o visitante de Raul Cruz fecha definitivamente a porta. O homem vitruviano se desespera como homem de Munch. O pensador chega a inevitável conclusão e também o filosofo de Rembrandt mergulha no breu: os relógios atingem o chão, o bidé quebra, e é tempo... Nada além de cento e quarenta caracteres.

4.

O primeiro foi o sofá-cama que rasgou depois a samambaia morreu. Dai teve a infiltração na parede da sala e a primeira goteira na cozinha. Então o piso perdeu o brilho, as maçanetas emperraram, o vidro quebrou, o teto manchou de bolor, as paredes descascaram. As baratas, os ratos e o limbo nos cantos e o cheiro, tão humano, tudo escatológico e humano. As portas emperradas sepultaram-me aqui. Usei a força de vontade restante pra estancar a torneira e agora?  
                
5.


Vinho vous – abrindo a garrafa de vinho sois escandalosamente volúvel: Os seios, as mãos, os lábios e o vinho oferecidos no melhor momento da safra. Um brilho diabólico na taça e nos olhos. Quanto eu te quis inteira, toda, e por todos os lados. Seu gosto por completo na minha boca, seu suor, seu hálito, queria-a porque só posso querer, desejo desejar-te ao infinito, ao supra do gozo do que me faz viver-te

6.

Trator na terra dura - a vontade de rasga-la feito uma puta velha e desdentada. Manejo na terra, cavoco como um tatu, fazendo dessa terra seca um solo fértil. Far-te-ei o mesmo, sua puta! Esse teu modo de madame, esse teu desprezo vai virar barro, que não seja hoje, nem na próxima colheita, mas assim como semente na terra nasce pra cima, eu vou estar em cima de você. E nem é a chuva que vai molhar essa terra...

7.

Rolamos na lama, cantamos um hino profano, trepamos como bichos, e mesmo assim sua santidade é indiscutível. Não há nada no mundo mais virginal que você, ainda que fumando depois de cheirar uma carreira, até a maconha é santa na sua boca. Um anjo-bebe não toca a harpa com tanto carinho quando você tocando uma punheta pra mim.  Eu assim, meio mole, com dificuldades pra compreender a realidade, Sei e posso provar que quando você rebola no meu colo, os céus seguem seu ritmo. Sua bunda comanda a natureza, seus cabelos, seu brinco, tão naturais quando o vento, o sol, a erva que fuma é a semente da liberdade e eu, devoto seu. Seu sangue me fortalece, sua urina, deixa meus cabelos e pele brilhantes. O sermão que professas nas orgias ou nas overdoses hão de mudar a historia do mundo. Eu sei, vejo, sinto.