terça-feira, 23 de outubro de 2012

Curitiba, 19-10-12



Sentado num café no centro de Curitiba. A minha volta algumas mesas vazias e outras ocupadas por pessoas que almoçam.  É uma cena qualquer, de um dia qualquer de uma vida que, infelizmente, está se tornando qualquer coisa. E é isso que me fere: não adoeço, nem morro de tedio, mas meu medo é passar por tudo dessa forma: transeunte. Sem a experiência de transformar a vida em aventura, arte, feito... E os dados! Que ao serem lançados ao acaso me reservaram poucas possibilidades, pra ser exato: um lugar, um caderno e uma caneta, um desejo enorme de compreender o mundo, o mundo em volta e a vida. (...) quando a caneta escorre como um borrão sobre a folha escrevendo, o que pode ser uma sentença de morte ou um bilhete de uma loteria vencida:
Deus está suspenso,
Reis já não existem.
Eu e você, água e óleo.
E de que serve esse dia?
Habitat da imortal esperança.

                   *

Todos sabem que a filosofia é um mal estar passageiro (Pessoa). Se alguém se põe a pensar é por certo efeito de remédios, fome ou os vinte e poucos anos cobrando seu preço. Mas que dizer do corpo? Prisão? Jaula, inferno? Seria no mínimo deselegante aceitar essa verdade. Porem no campo do possível sou cético e só vejo o visível. Então me sinto condenado a essa massa, que se ora respira, outrora agoniza. Não posso de isso me esquecer sem aceitar a loucura salvadora ( E. Roterdã) #aceita #aloca

    *

De sono  – é sono esse sentimento de “poesia” que me toca. Nada do que vejo é ou representa algo. São apenas matéria morta, xícaras e pregos. Se passa algo pela mente é mentira ( isso não é trocadinho ). Já a verdade é um chute no saco, dói por horas. A arte é um beijo doce, um doce, uma nota, um detalhe. Queria eu viver sem ela, queria apenas a madeira e os pregos pra ser crucificado na realidade, acordado.

    *

Exercício sob Vila Lobos – valsa da dor:


Um milhão de estrelas que caem, como lagrimas que inundam o mar , uma superfície difícil de atravessar. Aço contra o vento, a osso sob a pele, que ameaça romper, em pranto, dor e caretas de dor. Mas ainda as estrelas distantes miram e mostram que tudo na vida merece apenas o silencio. O  mar revolto é luxo, a lagrima na linha reta do olho ao queixo é regra... é assim que aprende-se a ser o que se é, escondendo a dor e sorrindo imitando as estrelas, musas e mártires de Deus. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

tudo bem



Tudo bem.

Se eu não me engano, o plano era ser feliz.
Depois de crescer, sofrer e até amar: ser feliz.
Dai os ventos mudaram de direção…e tudo que importava foi com ele..
Mas, acho que ainda vivo, respiro e espero
Confio nessa, ainda que paca, pacata estada:
Estalagem amorfa na alameda do silencio.

Se eu pulasse? Gritasse? Plagiasse Clarisse?
Dieta e malhação, drogas e noites pensando em passado?
Quem sabe um talento escondido? Cade aquele baú?

Não.
Deixa tudo como está, briza morna e palavras incompletas.
A gravidade contra a pulsão. Um momento antes do silencio,
a cor pastel, tudo, num reduzido “bem e vc?”
Acho que isso completa, o curto espaço entre almas,
dos sonhos que o vento levou e nem poesia deixou.


                                   *


Por gostar dessa mina - sempre sonhar em encontra-la numas dessas esquinas da vida, louca, na selva da cidade cinza.. da cidade de asfalto molhada, prédios calados, mendigos, drogados. Makes and fakes. Eu tão próximo dessa brisa, tão parte da pior parte. Quase esqueço que sou rico e vivo. O frio que me gela os ossos nas noites de inverno não é pior que a solidão das manhãs de domingo, quando a alvorada me surpreende, com os desejos insatisfeitos, com o gosto... Desde a boca da noite até a boca de uma ponte sem rio, que me convida ao mergulho seco, sussurra a mesma e continua frase: você não tem lugar. Quando um grito ecoa, um estrondo, um fim? Quando o fim, enfim? Um perdão. – mina dantesca, sem ouro, só pedra.


                                  *

estava sentado na frente do pão de açúcar e pensava que as duas ruas que seguem dali levam a meu bairro. Por ele ser longe do centro me veio o pensamento que quanto mais longe se quer chegar maior é o numero de caminhos a seguir, não sei pra que isso vale. Na verdade só fala ao espirito daqueles que como eu, estão no meio do caminho e sem muita certeza de onde se quer chegar. Repudio o argumento sofista do gato da Alice ( quando não se sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve) eu não tenho certeza se estou no caminho certo, mas sei onde NÃO quero chegar. Não quero a roda dos escarnecedores, nem dos sábios-blazé, nem da alegria induzida por substancias, e acho que nem dos alegres também. Tampouco me desespero como o homem de Munch que Grita quando poderia cantar, afinal estar perdido é uma chance de contemplar novas paisagens, novos modos de ver a mesma paisagem... há muitos caminhos, a muitas coisas certas a fazer, pena eu estar só de passagem, (leminsk) ou pena que eu ter a má-fe de jurar não ser o responsável pela criação de novos caminhos (sarte).



                                  *


 

Do meu sangue
quando escorre
vermelhando a pele
e os pés.
Sumo do corpo,
Que e meu tempo findo.
Do meu sangue que escorre,
que esvai,
sem deixar marca.
Serpenteando-se em rios, 
como veias, 
abertas até o chão.
Resta um
Corpo
Dois
Olhos secos, 
Lábios sem cor nem fala
Que meu sangue quando escorre
Recusa tradução.
(sem titulo)


                            *


Era um bobo da corte, da corte de um tirano rei. Era fiel, aliviava o coração real das angustias diárias de torturar, matar, ferir. Seu oficio era imprescindível para o sono do rei, nas noites de duras insônias quando os gemidos dos torturados ensurdeciam a consciência soberana. O bobo sabia como trazer novos pensamentos, sensações, sono, mas, levava pra seu leito a voz dos desesperados. Em sua alcova os transmutava em deboches, piadas e pandegas... Porem numa noite de sonhos viu: o rei nu! Chicoteando uma criança pálida e chorosa, enquanto ele, o bobo, chupava o pênis real. Incapaz de lidar como tais imagens escolheu esmagar o crânio pulando da torre. Nem em pensamento ousaria difamar o rei.