domingo, 16 de setembro de 2012

Senta, ceia.







Era uma mesa grande, na extremidade uma cadeira bonita, branca de alto encosto. A frente da cadeira um prato de boa porcelana, copos de cristal, talheres de prata. Adiante uma cesta de frutas: maças vermelhas, morangos, uvas. Mas o lugar está vazio, espera...
Na outra extremidade uma cadeira velha, dura, manca. A sua frente um prato onde vagueiam moscas. Uma colher semi-limpa. Alguns frutos apodrecem á frente. E eu estou sentado. Te espero.



                             *

Corre! Atrás de ti a dor de ser quem se é, a vergonha, a criançada, o mendigo, a vontade de largar tudo, o marido da amante, a amante, a mãe, o complexo de édipo, a vingança da juventude transviada, a dor nas costas... ah! Dor nas costas.
Atenção: com o joelho, com o triglicerídeo, essa tossinha seca,  a colher de sobremesa é diferente da de sopa, sua qualidade de cidadão, amanhã a Deus pertence, a suas qualidade e medos, a monotonia conjugal, ah! Monotonia
Pare: olha a tua idade pra fazer isso! Baixo astral é tão 90’s, cigarro (quase um mês) , trabalho temporário temerário, não cobre d’Ele, não para! Não para!, Joyse nem é pra você, rancores pra que?


                               *



Você estava se ainda se acomodando numa das poltronas da sala, quando o avo parou á sua frente. Olhou no seu rosto e te perguntou se não seria você filho de Tonho, finado Tonho. Não, respondeste, quando a tia avó de pronto acrescentou que nada disso esse ai é do Bento, é filho ou neto do Bento. Dai a outra tia mais velha ainda riu-se a balançar as tetas, grandes e caídas falando como poderia ser d
os do Bento se é concunhado da Josefina. Não é concunhado da Josefina porque é genro da Gertrudes, finada Gertrudes disse aquela tia solteirona que vivia de luto. Dai o avo olhou mais fixamente pra você. Você sorriu. Ele sentenciou que se era genro da Gertrudes, concunhado da Josefina e do lado do Bento e não era filho do Tonho você era um grande Filho da Puta. E é corno disse a tia das tetonas, pobre e feio disse a solteirona ajudando o velho. O avo foi arrastando as chinelas e repetindo que você era mesmo um filho da puta!



                   *


A falha da fala.

Palavras ainda que lacrimosas
não traduzem a tragédia
Da mãe que mata o filho;
Do não-amor-correspondido;
Da falta – que chama saudade – 
Não!
Nada de símbolos pra vida
- vida é vida e só – daí
a indiferença da letra
sobre as chagas, que chamam
Feridas, fere.
Dói na pele a letra
que não acalenta a dor,
Mas...
Letras são esquecidas,
Dores, curadas
E
A fenda entre elas
Creio:
Insuperada.