domingo, 8 de julho de 2012

O diário de una nova vida.



19-o4-02 – tomei a melhor das decisões de minha vida: deixei a Mari. Ele definitivamente não é a mulher ideal pra mim. Na verdade ela não é mais, porque quando namoramos ele era atenciosa, meiga e bela. Hoje, não importa com a aparência, não me da atenção, nem se importa comigo. Vi num programa de tv que um sujeito divorciou-se e quase ficou maluco por causa da solidão, mas salvou-se do suicídio escrevendo um diário. Vou fazer o mesmo.

20-04-02 – a casa que aluguei é bem cômoda, tem dois quartos e uma cozinha mais, é claro, o banheiro. Ao lado mora um senhor que vive com dois cachorros. Na frente uma família com três crianças, uma escadinha. Todos parecem boas pessoas. Mas não quero fazer amizade com eles, por enquanto não, pois terão a curiosidade de perguntar por mulher, filhos essas coisas que não quero falar.

24-04-02 – estou profundamente arrependido de ter deixado tudo os moveis com a Mari. Falta uma cadeira confortável nessa casa e principalmente um rádio. Quis ser mais nobre que a Mari abdicando de tudo da nossa casa e olha só...( eu disse nossa? Deveria dizer aquela casa) um radio faz falta porque as vezes os cachorros latem demais. Vou adquirir um assim que puder.

25-04-02 – não pude dormir, os cachorros latem a noite toda. Não quero reclamar já, porque nem conheço o velho ainda e também não quero falar com o ele, na certa vai pergunta de mulher, filhos. Velho chato.

26-04-02 – malditos cachorros, latem sempre que estou pegando no sono. Se a Mari estivesse aqui ela, na certa, já teria ido brigar com o vizinho. É bem do feitio dela, fazer um escândalo por qualquer coisa. Certa vez ele mandou o sujeito do gás trocar o bujão porque o lacre está meio solto, pode? Meio solto. Mas aquela mulher é assim. O problema é que quando ele coloca uma ideia na cabeça, as coisas tem que estar de acordo com a imaginação dela. Nesses dias ela falava mal de todas as minhas coisas, de tudo, dos programas que eu assistia, da maquina de lavar, malditos cachorros.

28-04-02 – esse velho maldito, quem ele pensa que é? Um caçador pra ter uma matilha em casa? Agora percebi, são vários cachorros, pelo menos seis que latem a noite toda e de dia tem as crianças da frente. Umas pestes, esses dias eu ai chegando em casa e todas ficaram me olhando, examinado minha roupa etc.. na certa pensam “fracassado”, só porque um casamento fracassou não quer dizer que sou um fracassado. E nem quer dizer que eu não consiga viver com outra mulher. Idiotas!

27-04-02 – esses crianças disseram alguma coisa a meu respeito para o pai delas. Hoje ele me viu saindo e correu, correu mesmo, pra me alcançar e puxar assuntozinhos. Soltou um monte de bobagens sobre “aqui é muito bom pra morar”, “seja bem vindo”. Dava pra ver que ele queria me tirar algo, que eu dissesse por que estou sozinho, sem mulher. Panaca! Não disse nada. Emudeci, na certa ele vai contar pra mulher, na hora da cama “ o novo vizinho é um idiota mudo etc..”

28-04-02 – agora sei. São treze cachorros, pude perceber pelos latidos: três são pequenos, dois são de raça e o resto é vira lata. O velho só dá comida para os de raça, os pequenos comem também, mas pelo vão das pernas dos outros. E todos os outros ficam com fome a noite toda, por isso latem, latem e fedem, posso sentir daqui o fedor deles.  Estou ferrado, quem deve estar muito feliz é a Mari, com a casa toda pra ela, tudo isso não passa de um plano dela.

29-04-02 – tenho um radio, finalmente. Quando os cachorros latem eu coloco no volume máximo.  Acabei com o plano do velho de me atormentar.

31-04-02 – as musicas, todas elas estão falando comigo. Às vezes choro. Mas sempre sou interrompido pelo comercial de moveis. Acho que é coisa da Mari, ela sempre queria comprar moveis.

32-04-02 – o velho grita reclamando do som do radio. E eu? Que aguento essa matilha dele? As crianças entraram na minha casa e mexeram na comida.

33-04-02 – nunca mais vou ouvir radio, eles percebem a minha rotina pelo som do radio. Vou tirar essa arma deles. Não sei como as crianças entraram aqui, mas coloquei mais dois cadeados na porta. Nessa noite elas mudaram os moveis de lugar e sinto um cheiro estranho, acho que é veneno na comida. Vou jogar fora.

34-04-02 – o velho é louco, ele quer me matar e dar minha carne para os cachorros vira-latas dele. Hahhah eu rio na cara dele, esse velho não mata mais ninguém, ele é pedófilo, e é ele quem ensina as crianças pra entrar aqui.

     -04-02 – não sei que dia é hoje, e perdi o caderno, estou escrevendo em código pra eles não acharem. Também faço silencio total o dia todo pra eles acharem que não tem ninguém. Vou esperar as crianças e pega-las no ato.  Fiz um laço com a corda do varal pra enforcar os cachorros.

  -04-02 – fico no quarto, esperando.

  -04-02 – não aguento mais essa perseguição, tenho fome, mas, se eu sair eles invadem. Comi a única coisa que eles não envenenaram: a pasta de dente.

40 - 04-02 pelo caderno é dia quarenta. Essa casa tem espirito. Eu não caibo na cozinha. A roupa tem bicho. O velho é o diabo. Adeus. Me mato antes que o velho mande as crianças me matar.

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