segunda-feira, 4 de junho de 2012

Fim da Partilha


 

Então eu havia me tornado um anjo e imediatamente percebi que não mais precisaria de um corpo. Era, agora, etério, pura consciência. Mas, não seria ingrato, libertaria os meus membros das tão penosas tarefas que á anos os submetera.

Pés e pernas teriam seus descansos merecidos. Coloquei-os numa bicicleta e os indiquei o rumo da praia, iriam passar o resto dos dias pisando a areia fofa e banhando-se nas águas do atlântico. Correram apressados.

Mãos. A esquerda, desabilidoza, iria pra um bordeu de prostitutas e travestis. Passaria a vida fazendo o que mais gostava: rossar-se nas bundas empinadas, nos peitos macios e acariciar os cabelos das meretrizes – ainda que falsos – secar as lagrimas das novatas – ainda que falsamente – e dedilhar nos lábios…todos.

A direita – a mão que escreve – precisava aprimorar sua arte, por isso mandei-a pra a faculdade. Deveria forma-se escritor ou escritora, visto que só poderia usar do gênero que lhe é devido: feminino. E aproveitar a onda de neo-escritoras de pretensas auto-ajudas pra ganhar um dinheiro e compra uns anéis.

A bunda mandei pra privada, caso antigo, a barriga pra cozinha, feliz pra sempre.  O pênis não disse pra onde iria, ele sempre teve essa atitude meio autônoma, espero que não falhe na sua missão. Me envergonharia muito.

O peito e a cabeça coloquei-os num pedestal e eregi um monumento na praça. Não só porque sou merecedor dessa honra, como porque assim posso assistir incólume aos assuntos da cidade, e suas mesquinharias noturnas.

Já o coração. Ah! Quem entende o coração? Levei-o até a janela e o lancei no espaço “vôa, sê livre” mas, caiu feito chumbo no quintal. Recolhi, lavei, lhe dei algum dinheiro e disse que fosse para onde quisesse. Horas depois ele volta, bêbado, maltrapilho e contando “nessa bomba não ando mais, botaram um bagulho no banco de trás”. Pobre iria consumir-se em cachaça. Aconselhei-o que não fizesse isso, antes fosse até uma biblioteca e embriagasse de sentimentalismo literário, desde Camões até a Coleção Julia. Assim ficaria enorme, pulsante. Foi, mas, começou do lado errado (coleção Julia e Polliana Moça) voltou efeminadissimo, procurando com languidez um príncipe negro num cavalo branco-neve.

Ah! O coração quem entende? Tive de trazê-lo comigo. Agora está aqui, já não tão afeminado e nem bebe mais. Porem as vezes, fica miúdo, saldoso. Acho que esse tempo pra chuva, que faz todas as cicatrizes doerem. Né?


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