segunda-feira, 25 de junho de 2012

Essa propriedade está...





Sentir todo mundo sente. Intuir, só os distraídos vencedores. Ver é mais raro, porque necessita compreensão, tradução, que não é algo imediato... e estou falando apenas de uma praça, que por força de cotidianisses sentei hoje. O vento nas arvores, o barulho dos carros e ônibus, a agua dançando no chafariz, eu senti na praça. E nas formas particulares de seu projeto e das pedras da calçada intuí: a praça é antiga, data do começo do século passado, e não apenas nos seus elementos normais de praça como calçada, bancos, chafariz, há o testemunho do tempo no discurso mudo das estátuas e bustos. Um professor homenageado que olha fixamente para a universidade, um senador discreto no canto, alguns militares esquecidos, e... uma atriz! De fronte ao teatro Guaira, sua mascara sorri copiosamente, em contraste com as outras, seus cabelos encaracolados contornam o rostos e o céu, rugas ao redor da boca e dos olhos marcam uma vida toda sorrindo ou chorando, verdadeiramente, os dentes são gastos e sinceros, ela toda é sincera e eloquente, exagerada também. Ela é Lala Schineider.

Alguns postes ostentam uma forma romântica, (nosso desejo de amar?). As arvores antigas declaram que há vida, ali se respira. Vive-se, ainda que por poucos instantes, visto que a praça é um lugar apenas de travessias.( A não ser para mendigos e sem-tetos, cuja presença é quase necessária numa praça que se prese.) As crianças, os velhos, as pombas todos os elementos das praças de todas as cidades do mundo, estão presentes. Mas, na Santos Andrade eles estão dispostos “dessa” forma, “nesse” tom, e tem “esse” barulho. “Isso” não se repete em nenhuma outra praça. E (não tenho certeza) nenhuma outra praça do mundo tem um monumento à uma atriz. Uma heroína efêmera que agora  sorri para toda a eternidade talhada em bronze. O que lhe da uma nota trágica: ela, uma atriz, presa, por ferro e cimento a sua própria personagem. Nosso povo, não satisfeito ainda re-reproduz a imagem tirando fotos, passando da memoria do bronze para a de bytes da maquina digital (confio mais no bronze)

Essa praça ainda verá muita coisa. Passaram por ela muitas pessoas apressadas, multidões revoltosas, hordas anarquistas e todos sentiram o ar fresco as arvores centenárias. Alguns hão de intuir, se olharem para as pedras da calçada, que a praça é histórica, outros intuirão que eles mesmos fazem parte da historia. E outros vão sentar no banco e tentar traduzir num texto como sente essa propriedade do povo.

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