terça-feira, 20 de março de 2012

Uma passante, de um passado.

Numa dessas corridas pra segurar a porta do elevador,  passei em frente á sala de espera de um dentista, vizinho de andar. Das varias pessoas que aguardavam, tediosamente, a sua vez, havia um rosto familiar: o da minha primeira namorada, de vinte e poucos anos atrás.
Hoje ela é uma bela jovem senhora, que espera calmamente e bem vestida a sua hora no consultório de dentista. Sala essa que tem como enfeite um arranjo de orquídeas brancas. Nada pode combinar melhor com ela. Limpa, simples e rara, mas que indubitavelmente passou pelo mangue.
Ela não me reconheceria mesmo se tivesse parado pra dar um olá. Penso até, que não gostaria de relembrar-me. Devo ter sido o maior dos seus equívocos: não cumpri o mínimo de um “bom” rapaz, nem lhe falei de “futuro juntos” nem do quando ela era especial, porque não era. Foi apenas, uma linda moça pelo qual tive o desejo de beijar a boca, sentir a pele, andar de mãos dadas e mostrar para os outros. Foi um objeto de minha vaidade que no auge de minha volúpia mostrou-se: era alguém com alma dentro. E o que fazer com quem tem mais que uma bela aparência? Na época eu não saberia como proceder, e hoje tenho certeza que não sei nada desse tipo de gente.
Se ela me visse, não reconheceria, sobrevivente de diversas formas de morte, que não fazem parte do mundo dela, e com problema na hérnia. Seria um absurdo supor que um dia dividimos o mesmo espaço, no mesmo tempo. Seria absurdo, se não fosse verdade.

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