domingo, 23 de dezembro de 2012

Foda-se o gênero




Garoto está olhando a vitrine enquanto a irmã e a mãe visitavam a loja, depois foram pra uma lanchonete com vários anúncios de cerveja. O garoto pensava nesse negocio de ser menino e menina, homem e mulher. Roupas as vezes tão parecidas e outras tão diferentes, ainda que nunca opostas. Estava satisfeito com suas próprias roupas, e nem precisava de novas, porem sentia pena da irmã por ter que usar aqueles tecidos ásperos e pinicantes. Era, em geral, solidário com as meninas, compreendia que a fraqueza delas não era a força do homem, antes era apenas outra forma de ser gente.  E era curioso a respeito dos anúncios de cerveja: mulheres de biquine, felizes, e idênticas entre si. Felizes talvez por estar ao sol, bebendo ou felizes por agradar os homens? Como objetos da vaidade alheia. Foi assim que o menino quis traspor essa barreira, fazer com que as águas de lá, inundasse o lado de cá e também o contrario. No fundo era seu modo de agradá-las, fazendo-as tão livres quanto os homens, para usar roupas confortáveis e largas. “porque não compra um calção para mana?”. Rio a mãe: ”Ela é mocinha tem que estar bonita”. “Fica bonita de calção”. Mas as duas não concordavam, mocinha tinha que estar de roupas justas. Sentiu pena da irmã, parece que seu futuro era ser mais uma dessas moças dos anúncios, poucas roupas e um eterno sorriso.

Grande, o menino via seu reflexo na vitrine: barba, um turbante dourado, um vestido de seda e um salto altíssimo. Era ele mesmo sua  obra, uma estátua, uma criação. Havia dois anos que assumira pra si e para os outros que suas roupas não definem seu gênero, “foda-se gênero!” repetia para todos que o encavaram aturdidos com aquela produção, “nem é carnaval” pensavam. Mas o garoto sentia que sua expressão era um destino, quase uma missão. Visionário de um futuro sem definições por sexo. Esse era o propósito ulterior de tudo quando sonhara: liberdade extrema. Ser feliz sem precisar definir-se isso ou aquilo. Entrou na loja, e pediu pra experimentar o vestido rosa da vitrine. A vendedora negou “desculpe, mas se o senhor não levar como vou vender para uma mulher depois?”. “não é assim que funciona?” respondeu, acrescentando: “As pessoas experimentam, importa o sexo? E se fosse uma ótica, eu não poderia experimentar uns óculos que uma mulher tivesse usado?”. Sempre essas confusões, sempre o confundem com uma travesti qualquer. Mas, ele era politizado e respondia á altura. A moça foi conversar com o gerente, e ele ficou ali olhando outras roupas.

Era noite e a campinha tocou. Ele levantou, vestiu um roupão sobre a camisola e foi atender. “Me ajuda!” era uma amiga de anos. “O pai dele quer ir pegar ele de mim, tenho que esconde-lo” disse apontando para um garoto de três anos, que sondava para dentro do apartamento.  A amiga foi tomar uma água e o filho ficou no sofá, olhando para o dono da casa: esmalte vermelho, chinelo com um pompom vermelho, camisola que não escondia o peito cabeludo, a barba espessa e os olhos que não escondia um pouco de desconforto. Era tarde, não estava acostumado com visitas e muito menos com crianças. Os dois se olharam de perto. O de camisola era pelo menos dois do menor. O menor, calado, estranhava, porem nada dizia.

Lucas era o nome do filho da amiga. Ficou dois dias, para a mãe poder resolver os papeis, a guarda, etc. Tempo bastante pra criar um intimidade “não quero”. “Mas só tem isso, se você não comer vai ficar com fome?”, mas, não há argumentos que convença um filhinho da mãe daquele a comer feijão com arroz. “Tem bolacha, eu vi”. “Agora é hora de comida de verdade, se você comer tudo eu te dou bolacha”. “Dai eu vou estar cheio, não vai caber bolacha, quero agora”. “Não!”. Lucas olhou para aquele homem vestido de mulher, ainda ouvindo aquele “não” cheio de raiva, se sentiu tão só, sem mãe, sem conhecidos por perto, dai ele chorou. O homem trouxe a bolacha, mas ele não conseguia mais parar de chorar. O homem também já não sabia o que fazer, e pedia mil desculpas, e falava “tudo bem, tudo bem, não come” mas algo de grave tinha acontecido na relação dos dois. Era difícil concertar. O homem então pegou o piá no colo, levou para a varanda, mostrou o prédio da frente, o passarinho, imitou o barulho do ônibus. O menino parou de chorar e o homem descobriu que tinha jeito com as crianças. Descobriu que tinha algo de materno em si, e não foram as roupas que o revelou isso. 

fim
img:http://patriciaramalho.com/oleos.aspx

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012


Resistir, é o verbo fundante da língua brasileira.

*

Disse Niemayer : ninguém entende de arquitetura, é preciso explicar, conceituar.  E agora, definitivamente morto, quem dentre nós haveria de contradizê-lo? Mas, em verdade, o que não falta é exemplos quem colaboram com a afirmação do arquiteto: que seria de uma pilha de latas de feijão sem Andy Wrol para nos explicar, mais que explicar, chocar reafirmando a idéia da obra. E quem não iria rir de um pobre folião fora da sua ala na escola de samba. Ele só é quando está devidamente explicado pelo enredo. Mais? Nada a mais. Dê-me seu programa, suas premissas, não esconda a mediocridade de suas ideais sob a peneira da “contemporaneidade” explica-te ou NÂO te devoro.

*

A  cena nos é bem conhecida,  o vôo de uma águia, a diferença dessa é que não se trata de um filme, é, supostamente, uma cena real: um rasante da águia e ela agarra um bebê que engatinhava num gramado. Fim da cena. Por hora não importa se é real ou fictício, se é possível ou águias não se interessam por bebês, o que me importa é se fosse possível decidir naquele instante, se fosse dado á criança o direito de escolher, ganhar os ares, voar por sobre toda a cidades, montanhas mares, atravessar tempestades e dos pícaros sondar a vida ínfima rastejante ou continuar rastejando no gramado, cumprir o protocolo de sorrir para o papai, crescer, estudar-pra-ser-alguem. Se lhe fosse dado a escolha, se fosse possível....que sorte!

*

 A cor púrpura á um cego. Um desconhecido que passa. Uma semente que morreu entre espinhos. A pressão do ar. A curva do universo. O meu amor para você. O luar de Anthe. O sem adjetivo. O fim, antes do inicio.


“Assim falava Zaratrusta”, iniciou sem falhas. As cortinas do teatro foram abrindo lentas, sensuais, no palco vazia uma única luz, cortando a negritude da cena, como uma faca. Um pensamento pesa-me na cabeça: e se der errado, se Ele não quiser. Porem as mãos ainda está secas, o rosto, creio, inexpressivo. Inicia-se a dança, um ator quebra o silencio e soluça num monologo sobre a paixão, a vida e cárceres. Por um momento tento entende-lo e cadê? Há uma perseguição, ele foge de alguém e a orquestra traduz seu trajeto em sons, melodias e movimentos, cada vez mais rápido, é hora? Pressinto o momento, meu momento, concentro no alvo, seus cabelo, as suíças, seu olho. Oh! Os olhos, como não tremer? são olhos de águia, são ferro em brasa. Evito os olhos, evito pensar nos olhos. O ator corre sobre o limite do palco, os musico dançam sobre a cadeira, o maestro emprega todo seu corpo em cada movimento. Era um movimento simples, não? Esse tormento sobre o palco não me deixa pensar, essa musica, nunca toda rumo. São linhas e estalos e vazios... céus! Lá está, os olhos... é minha deixa, é agora minha única fala: Bang!

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Feurbach entende que são os homens que criam Deus á sua imagem e semelhança. A principio isso me parecia ofensivo aos teístas, porem depois de ler a Eneida de Virgílio entendo que aos helenos isso era aceito: quando Ulisses mata um homem ao pés do altar de Troia ele lhe pergunta “se há algum Deus ao qual honrais, clama-o” ou seja, se tu tens honra (algo humano) morra com ela honrando aos seus deuses. Ou seja, os deuses eram, também a expressão da força de um povo. No momento atual ouso dizer, (com o perdão de quem pensa o contrario) que o Deus, repetido á mil pelos alto-falantes e canais de tv é também a nostalgia de um Estado eficiente. Se não temos um povo e uma cultura que podemos confiar, vamos louvar a um Deus enérgico e exigente, para que desse modo possamos mostrar o que esperamos desse povo e dessa cultura. Creio nisso, apenas porque creio que a historia anda em círculos, do contrario ficaria louco. Ou já estou...

*

Que a velhice não paga a pena. Ver a historia e suas vicissitudes rodarem ao ciclo infinito do acaso, ver a beleza tornar-se feia, o amor em ódio e a alegria em tristeza. Sentir a mão pesada do tempo, a luz da razão obscurecendo a realidade, ver o inicia e o fim de tudo, tal qual um fantasma sem poder dizer a isso tudo “´preferiria não”.... se ao menos pudesse sentir qual o sabor de seus lábios.

*

Cena romântica numero 3

(as cenas 2 e 1 não podem ser publicadas, para manter o bom nome de minha reputação)

Eu estava bucolicamente sentado num banco da praça do japão. O pensamento vagueava por entre antigos amores e a necessidade de se expelir água pela urina... (por que as coisas são tão complicadas?) e havia algo no céu, um tom entre cinza e azul marinho, uma nostalgia do sol, um sentimento de tempos imemoráveis e seus segredos... Ou era apenas poluição mesmo, mas, havia algo no céu. E eu, tão não-parte do céu, tão terráqueo, terraquiamente preso no solo, vendo as nuvens passando. Deixei-me levar pelas imagens, deixei o pensamento livre apenas apreciando o curso desgovernado das nuvens, quando... O céu todo travou. 
Dai apareceu uma mensagem de erro404, ouvi como uma voz, como um trovão dizendo @##%@¨%¨¨ e por fim um som das cornetas celestiais anunciando um Ctrl+Alt+Del, e era dia vinte e um do doze, do doze.

*

meu instragram sem sem ser.

-Sol entre nuvens e prédios, dourado efêmero.

-Uma fatia de pizza sabor: seria melhor se estivesse com fome.

-Uma roupa linda que não usaria.

-Gramas brancas, sabor felicidade plástica.

-Anel prata para o amor-próprio-platônico.

-Francesinhas da periferia. 

-Na Viagem nenhuma saudade na mala. 

-Explique esse espelho ou me espelhe nessa explicação. (senão de devoro)

-Meu quarto, minhas regas (que não sigo).

-Despretensiosamente sexy desesperadamente cômica.

-Migalhas de minhas aventuras para os desventurados.

-A arquitetura e a arte de vê-la.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Carta ao meu filho morto, ou Se você estivesse vivo, talvez eu te amasse.


Nada a declarar a respeito da causa de sua morte. Foi um fim natural. Queria que nunca tivesse nascido, queria que nunca tivesse aberto os olhos, nem nunca tivesse visto o meu rosto. Você não era pra ser. Por que foi? E por que não lhe fiz o diabólico favor de adiantar seu fim? Pois nem sei.

Às vezes gostamos de ver as formigas devorar um besouro ainda vivo. Poderíamos poupar-lhe da dor. Mas, não o fazemos. (vejam o prazer do animal que devora, e a careta do que é devorado... ((Shcopenhauer?))).

E sua fraqueza me irritava, seus erros eram dignos de um verdadeiro otário  Nunca em vinte anos de correria vi alguém ter medo de odiar outro alguém. Você tinha. (será meu filho mesmo)

Seus olhos tinham uma piedade, mesmo quando cerrados, mesmo quando inchados de tanta porrada.

Os olhos me lembram as mãos. Mãos que procuravam as minhas em horas de medo! As minhas! Tantas vezes causas do teu medo. Por quê? Achavas que eu poderia protegê-lo? Não percebia que nesse gesto me causava ainda mais raiva? Pois suscitava sentimentos desconhecidos e inomináveis pra um cara como eu. 

Seus olhos puros, a sua mão puríssima tocando meu rosto arranhava o coração, que eu nem sabia, podia doer.  Essa historia estava complicada demais. Você era diferente demais de tudo que conheço talvez diferente de tudo que eu consigo conhecer.

Cadáver é algo que sei bem como é, posso ter dar um nome e nesse nome: cadáver, você cabe por inteiro. Se eu continuasse te chamando “filho” continuaria na mesmo confusão, pois, ou não eras meu filho de verdade, ou era mais que isso: parte de mim, parte desconhecida que nem quero conhecer.

Se você estivesse vivo, talvez eu te amasse, e um homem se ama, não é homem. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O logro


 


-alo!
-...atendeu!
-Alô, pois não?
-Boa tarde senhor, aqui quem fala é o relator, seguido do eminente revisor e nós pretendemos...
- Relator?
- Sim, foi democraticamente e mui honrado com esse posto.
- O senhor é juiz?
- Sobre minha profissão, que exerço com muito orgulho, gostaria de falar ulteriormente ao assunto que hora nos constrange.
- Sim, pois não?
- Nos reunimos em assembleia, com a exceção do membro 12 que teve uma crise de enxaqueca. Para decidirmos, 1. Democraticamente e cor do uniforme. 2. Democraticamente o lado do brasão. Ainda que isso seja um assunto delicadíssimo e seja pouco provável que dele sairemos sem algumas ranhuras na nossa estimada coletividade.
- ah! Acho que entendi enxaquecas, eu tenho..
- Pela ordem, senhor! Queremos é que o senhor participe como membro assistente desse assembleia, onde decidiremos a cor vermelha da nossa toga.
- Acho que o eminente relator está adiantando-se na sua conclusão, a cor vermelha ainda não foi decidida.
- De fato, eminente revisor. Porem e vitória ganha, assim como é evidente nossa democrática forma de escolha.
- Não questiono a forma de votar, Senhor, porem a cor vermelha é por demais colérica para um grupa tão harmonioso e gentil.
- alô, eu acho que o vermelho..
- Pela ordem! O senhor falará quando for a hora do senhor falar, por hora devemos manter a hierarquia...
- E o senhor fique desde já sabendo que o fornecedor deve, segundo ao capitulo três de nosso contrato, ser o ultimo a falar... contenha-se
- Admiro sua lembrança do manual, senhor Revisor, porem devo avisa-lo que não se deve ser tão ríspido com o fornecedor, como adverte o manual na clausula decima do terceiro capitulo, devendo, portanto o senhor emitir um pedido de desculpas ao senhor fornecedor.
- Mas, excelência, essa ação deveria passar por plenário.
- Passá-la-emos, Excelência. Eu voto que sim. E como vota o membro numero três?
- Como vocês todos sabem eu penso que as necessidades externas ao processo que hora temos em pauta deveriam, com as vênias de vossas Excelências, serem posta aos reinos do ostracismo ao...
- Vossa Excelência, insinua que um Fornecedor pode ser vilmente atacado por um membro sem a possibilidade de reparo a tão límpida e democrática imagem do conselho?
- Acho.
- Fora daqui! Seu fascista.
-alô! Eu tenho que dizer..
- Tudo bem, excelentíssimo senhor fornecedor. Já lavamos a sua honra com a expulsão democrática daquele crápula que não queria lhe pedir perdão.
- ah.. obrigado
- Agora vamos a votação..
- Caro senhor relator, apenas para causa de esclarecimento, votamos agora o pedido de perdão ou a cor do uniforme.
- Caro senhor revisor, se o senhor insistir nessa tesa de trancar as pautas, corremos o serio risco de andar em círculos...
- alô. O senhor me está ouvindo.
- Caro senhor fornecedor se o senhor não fazer o obsequioso gesto de calar a boca ficaremos discutindo vilanias...
- O membro cinco, no caso eu mesmo, visto que a hierarquia subiu um nível para todos abaixo do três, penso que o senhor foi um pouco indelicado com o senhor fornecedor.
- Como relator devo perguntar ao senhor revisor se foi, de fato indelicado.
- Eu revisor penso, através das qualidade que o posto, que democraticamente me elegeram, o membro cinco mereça a forca.
- Simbólica
- Sim, simbólica e exemplar.
- Então todos os membros abaixo de cinco sobem um degrau na hierarquia, visto que o membro cinco não mais existe.
- Eu existo!!! Não saio daqui..
- Tirem esse ignóbil de entre nós.
- baderneiro.
- Anarquista.
- Socialista.
- pedófilo e fumante.
- alô! Eu tenho que desligar
- Não! O senhor fornecedor deve fazer parte desse processo pra garantir a maneira democrática de decisões.
- Mas eu tenho que trabalhar.
- O senhor fornecedor irá insistir nessa tese de que isso aqui é um chá de comadres e não uma assembleia?
- Acho que é uma assembleia de loucos.
- ...
- De loucos?
- De loucos desocupados.
- Revisor, procure ai na carta magna se somos uma assembleia de loucos...
- Nada consta relator.
- Veja se em algum manual de conduta é citado a loucura como condição para a assembleia.
- Nada de novo. senhor.
- Então o senhor fornecedor foi muito indelicado conosco..
- Sim.
- Eu fui porra nenhuma, tá duas horas falando pra vocês que não temos tecido nenhum aqui é uma farmácia.
- Indelicadíssimo.
- Concordo de novo.
- Votamos o afastamento do fornecedor?
- Imediatamente.
- Deixa que eu então pronuncie o decisivo afastamento: senhor foi um engano.
fim

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Subir descendo, ou descer subindo.





Numa noite tive um desses sonhos estranhos e fabulosos. Não havia mística nenhuma e nem nenhum chamado da providencia pra que eu juntasse minhas coisas e partisse para uma missão de paz. Na verdade nem sonho era direito, poderia mais se incluir na categoria devaneio. Visto que era o resultado das canseiras provocadas pela nossa conhecidíssima burocracia, pois eu havia passado a tarde correndo pra cima e pra baixo do fórum civil de Curitiba. E numa dessas subidas e descidas me ocorreu a “visão” da burocracia asfixiante descrita n’O Processo de Kafka e a imagem divina da Dike (deusa da justiça que leva Dante Aligere as portas do inferno, ou algo assim) dessas duas imagens surgiu o sonho daquela noite:

Estava eu novamente preso nas amaras da burocracia de algum lugar amplo e movimentado, sei que eu deveria procurar um andar especifico e pra isso me utilizava do elevador, porem havia um erro arquitetônico: O formato do prédio era circular, e o elevado estava na tangente e era quadrado, decorrendo que a cada parada havia uma fenda entre o piso do elevador e do andar.  Cheguei ao meu andar: 11 e ali fui informado que deveria seguir ao andar 12, e que eu tomasse a escada que descia um. Esse era o paradoxo incluso no sonho. Descendo um andar alcançaria um acima.

Esse sonho me parecia totalmente idiota, pois não havia nenhum sentido “subir descendo” mas, já houve alguém que disse que o cotidiano é cheio de surpresas pra quem sabe olhar, hoje tive uma boa resposta pra isso. Fui até um prédio estatal, antigo, e com a mesma pressa de sempre resolvi descer pela escada. Mas, havia um senhor idoso descendo na minha frente e barrando a passagem. De modo que tive que descer a escada no ritmo dele.

Ele, um velho, atingiu o ponto alto do que nós, humanos podemos aspirar: uma vida longa. Um grau acima da idade adulta, dois acima da juventude e muitos além da ignorância. Um velho está sempre subindo, cada vez mais rápido para o grande mistério, a morte, e um velho descendo a escada é um velho que sobe descendo.  Acho que o paradoxo é só esse, sempre subimos na idade, mesmo quando descemos, ainda que seja descer de escada, que é mais lento.

 Dante me acorrentaria num dos piores círculos do inferno por ser tão banal, e Kafka provavelmente desejaria que eu ficasse preenchendo mil formulários ao invés de escrever essas memorias, mas... eles estão mortos. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

eram os deuses, deusas?


A cada dia um rosto.
Olhava no espelho e não se reconhecia, pois a cada manhã um novo rosto surgia, refletindo uma continua expressão de espanto.
 - já não suporto mais... Isso não é algo normal, nem tampouco é algo engraçado. Ontem mesmo na hora de dormir já estava resignadamente, aceito o corpo de um velho, branco com costeletas igualmente brancas. Hoje porem esse rosto: moreno, com profundas marcas de expressão sobre a boca, com grossas sobrancelhas.
Seu espirito, ao contrario da face, se conserva o mesmo. Ainda é o mesmo cara que há tempos procura um lugar no mundo, um amor pra vida toda e um aluguel mais em conta.
- queria poder mudar de sonhos assim como mudo de rosto, queria esquecer o passado, a voz de indiferença com que fui, por vezes, insultado. Mas, abaixo dessas múltiplas faces que me encaram, continuam o mesmo olhar e o mesmo espaço vazio, para trás do nariz e ante das nuca. O espaço onde existo de verdade, continuamente só.
Arrumou-se, com as roupas que cabiam, escovou os dentes e saiu para o mundo. Um mundo de aparências sempre tão novas como as dele. 

·          





Havíamos colocados os deuses num monte inacessível. Porem o inacessível tornou-se perto, pra esse ser, dotado de vontade e fogo. Dai elevamos os deuses ás estrelas, ao sol, e uma parte na Lua. A Lua foi alcançada, Marte já não nos da curiosidade e o Sol, medido, estudado e rebaixado à quinta potencia do que sonhávamos.  Então, escondemos os deuses (ou será que foram eles mesmos?) nas entranhas de um ser insoldável: a mulher.
 Maria, Isis, Rita, Dora, Billy e tantas outras maneiras de sondar as divinas, e femininas, maneiras do Ser. Tantas e tão humanas, mas inda assim obliquas assim dúbia. Ainda mais quando são sinceras e claras, ainda quando odeiam, ou quando amam. Só por existirem declaram:  “ a natureza está escondida, ama esconder-se, o melhor esta invisível” . Pobre do homem que acha que amando uma mulher poderá enfim desvenda-la, pobre da mulher que procura compreender-se, mais ainda: pobre do homem quando objeto do amor desses invólucros de paixão, prazer, criação. Há entre a natureza, a criação e as mulheres um sintonia, uma ligação da qual o homem só é espectador.  Ou, no máximo, pecador.


                  *

O professor Giraldeli usa uma metáfora épica para falar do nascimento do homem moderno: se Ulisses ainda acreditasse nas sereias ele não teria apenas se amarrado no mastro, mas também tapado os ouvidos. Pois o crente nem se quer desconfia do poder dos deuses. 

Tive esse mesma sensação hoje quando acordei de mais um pesadelo, desconfiei que meu armazenamento de imagens assustaras está se esgotando
 e meus sonhos estão se tornando roteiros mal-feitos de filme pobre.

Eu caminhava num cemitério, era noite (claro), aproximei-me de um tumulo de vidro. Havia algumas flores de plástico sobre o caixão. Havia a presença marcante da cor azul desbotado e vermelho sujo de poeira. Quando a tampa do caixão começou a abrir, e de dentro saiu uma mão de bebê. Eu bati no vidro pra tentar salvar a criança que fora enterrada viva. Quando percebi que o bebe tinha duas faces, uma em cima da outra, cobrindo a cabeça…. Também percebi que a dona do caixão estava deitada ao lado e ela paria pelo pescoço o bebê de duas caras. Recuei, mas ainda pude ouvir os berros do bebe que era, devorado pela mulher. O que faz desse sonho, além de cliché meio non-sence, visto que a mulher depois de parir, devora o filho. E a voz da morta era grave e é claro, falava inglês, como no inicio da musica The number of the Best, do Iron Maidan, e me jogava umas pragas…

Ao contrario de outras épocas os pesadelos recorrentes já não me assustam, acho que aproximo-me de Ulisses no sentido de, apesar de temer as sereis, quero ouvi-las e saber se cantam tão bem assim.


           *

Sofro de um pessimismo crônico quem consiste em ver como parte do problema o que a maioria vê como solução. Mas, sei que não sofro sozinho.

sábado, 3 de novembro de 2012

Vinho vous


Textos que surgiram numa madrugada insone ao som de Patty Smith.

1.

O projeto de encontrar a vida, segundos antes da morte, falhou.  - Caminhando rente ao abismo, amando quem só me odiava, tomando todas, relendo as cartas de amor & ódio. Ainda assim a vazio não se dissipou, o amor não salvou e o silencio não se tornou musica.  Temas e bilhetes suicidas, reduzidos a uma má gramatica sem nem poesia. Que o horror do normal se tornou terror é compreensível, mas, que todos os gritos tenham calado, que os arrepios anestesiados, que... onde passou a vida, que deveria estancar aqui?

2.

É nunca te amei, estava contigo apenas pela heroína. A heroína que você foi me tirando da lama, dizendo que apesar das feridas e do inchaço ainda existia uma espécie de beleza, talvez nos meus olhos. Mas eu não te amo, nem nunca te quis para sempre.  O sempre é muito tempo, é tempo demais, é tempo pra eu pensar em mim e eu odeio fazer isso, você sabe, é tempo de eu ver que cresci, que não tenho mais desculpas, eu tenho que ir agora...Me solta! deixa, é minha hora de voar, por mais confortável que possa ser, seu amor é jaula, de pedras preciosas mas, jaula e é duro, é tempo de eu voar, sem asas, sem fim, sem medo.
3.
Monalisa entristecida, a moça do brinco de perola soluça, o visitante de Raul Cruz fecha definitivamente a porta. O homem vitruviano se desespera como homem de Munch. O pensador chega a inevitável conclusão e também o filosofo de Rembrandt mergulha no breu: os relógios atingem o chão, o bidé quebra, e é tempo... Nada além de cento e quarenta caracteres.

4.

O primeiro foi o sofá-cama que rasgou depois a samambaia morreu. Dai teve a infiltração na parede da sala e a primeira goteira na cozinha. Então o piso perdeu o brilho, as maçanetas emperraram, o vidro quebrou, o teto manchou de bolor, as paredes descascaram. As baratas, os ratos e o limbo nos cantos e o cheiro, tão humano, tudo escatológico e humano. As portas emperradas sepultaram-me aqui. Usei a força de vontade restante pra estancar a torneira e agora?  
                
5.


Vinho vous – abrindo a garrafa de vinho sois escandalosamente volúvel: Os seios, as mãos, os lábios e o vinho oferecidos no melhor momento da safra. Um brilho diabólico na taça e nos olhos. Quanto eu te quis inteira, toda, e por todos os lados. Seu gosto por completo na minha boca, seu suor, seu hálito, queria-a porque só posso querer, desejo desejar-te ao infinito, ao supra do gozo do que me faz viver-te

6.

Trator na terra dura - a vontade de rasga-la feito uma puta velha e desdentada. Manejo na terra, cavoco como um tatu, fazendo dessa terra seca um solo fértil. Far-te-ei o mesmo, sua puta! Esse teu modo de madame, esse teu desprezo vai virar barro, que não seja hoje, nem na próxima colheita, mas assim como semente na terra nasce pra cima, eu vou estar em cima de você. E nem é a chuva que vai molhar essa terra...

7.

Rolamos na lama, cantamos um hino profano, trepamos como bichos, e mesmo assim sua santidade é indiscutível. Não há nada no mundo mais virginal que você, ainda que fumando depois de cheirar uma carreira, até a maconha é santa na sua boca. Um anjo-bebe não toca a harpa com tanto carinho quando você tocando uma punheta pra mim.  Eu assim, meio mole, com dificuldades pra compreender a realidade, Sei e posso provar que quando você rebola no meu colo, os céus seguem seu ritmo. Sua bunda comanda a natureza, seus cabelos, seu brinco, tão naturais quando o vento, o sol, a erva que fuma é a semente da liberdade e eu, devoto seu. Seu sangue me fortalece, sua urina, deixa meus cabelos e pele brilhantes. O sermão que professas nas orgias ou nas overdoses hão de mudar a historia do mundo. Eu sei, vejo, sinto.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Curitiba, 19-10-12



Sentado num café no centro de Curitiba. A minha volta algumas mesas vazias e outras ocupadas por pessoas que almoçam.  É uma cena qualquer, de um dia qualquer de uma vida que, infelizmente, está se tornando qualquer coisa. E é isso que me fere: não adoeço, nem morro de tedio, mas meu medo é passar por tudo dessa forma: transeunte. Sem a experiência de transformar a vida em aventura, arte, feito... E os dados! Que ao serem lançados ao acaso me reservaram poucas possibilidades, pra ser exato: um lugar, um caderno e uma caneta, um desejo enorme de compreender o mundo, o mundo em volta e a vida. (...) quando a caneta escorre como um borrão sobre a folha escrevendo, o que pode ser uma sentença de morte ou um bilhete de uma loteria vencida:
Deus está suspenso,
Reis já não existem.
Eu e você, água e óleo.
E de que serve esse dia?
Habitat da imortal esperança.

                   *

Todos sabem que a filosofia é um mal estar passageiro (Pessoa). Se alguém se põe a pensar é por certo efeito de remédios, fome ou os vinte e poucos anos cobrando seu preço. Mas que dizer do corpo? Prisão? Jaula, inferno? Seria no mínimo deselegante aceitar essa verdade. Porem no campo do possível sou cético e só vejo o visível. Então me sinto condenado a essa massa, que se ora respira, outrora agoniza. Não posso de isso me esquecer sem aceitar a loucura salvadora ( E. Roterdã) #aceita #aloca

    *

De sono  – é sono esse sentimento de “poesia” que me toca. Nada do que vejo é ou representa algo. São apenas matéria morta, xícaras e pregos. Se passa algo pela mente é mentira ( isso não é trocadinho ). Já a verdade é um chute no saco, dói por horas. A arte é um beijo doce, um doce, uma nota, um detalhe. Queria eu viver sem ela, queria apenas a madeira e os pregos pra ser crucificado na realidade, acordado.

    *

Exercício sob Vila Lobos – valsa da dor:


Um milhão de estrelas que caem, como lagrimas que inundam o mar , uma superfície difícil de atravessar. Aço contra o vento, a osso sob a pele, que ameaça romper, em pranto, dor e caretas de dor. Mas ainda as estrelas distantes miram e mostram que tudo na vida merece apenas o silencio. O  mar revolto é luxo, a lagrima na linha reta do olho ao queixo é regra... é assim que aprende-se a ser o que se é, escondendo a dor e sorrindo imitando as estrelas, musas e mártires de Deus. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

tudo bem



Tudo bem.

Se eu não me engano, o plano era ser feliz.
Depois de crescer, sofrer e até amar: ser feliz.
Dai os ventos mudaram de direção…e tudo que importava foi com ele..
Mas, acho que ainda vivo, respiro e espero
Confio nessa, ainda que paca, pacata estada:
Estalagem amorfa na alameda do silencio.

Se eu pulasse? Gritasse? Plagiasse Clarisse?
Dieta e malhação, drogas e noites pensando em passado?
Quem sabe um talento escondido? Cade aquele baú?

Não.
Deixa tudo como está, briza morna e palavras incompletas.
A gravidade contra a pulsão. Um momento antes do silencio,
a cor pastel, tudo, num reduzido “bem e vc?”
Acho que isso completa, o curto espaço entre almas,
dos sonhos que o vento levou e nem poesia deixou.


                                   *


Por gostar dessa mina - sempre sonhar em encontra-la numas dessas esquinas da vida, louca, na selva da cidade cinza.. da cidade de asfalto molhada, prédios calados, mendigos, drogados. Makes and fakes. Eu tão próximo dessa brisa, tão parte da pior parte. Quase esqueço que sou rico e vivo. O frio que me gela os ossos nas noites de inverno não é pior que a solidão das manhãs de domingo, quando a alvorada me surpreende, com os desejos insatisfeitos, com o gosto... Desde a boca da noite até a boca de uma ponte sem rio, que me convida ao mergulho seco, sussurra a mesma e continua frase: você não tem lugar. Quando um grito ecoa, um estrondo, um fim? Quando o fim, enfim? Um perdão. – mina dantesca, sem ouro, só pedra.


                                  *

estava sentado na frente do pão de açúcar e pensava que as duas ruas que seguem dali levam a meu bairro. Por ele ser longe do centro me veio o pensamento que quanto mais longe se quer chegar maior é o numero de caminhos a seguir, não sei pra que isso vale. Na verdade só fala ao espirito daqueles que como eu, estão no meio do caminho e sem muita certeza de onde se quer chegar. Repudio o argumento sofista do gato da Alice ( quando não se sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve) eu não tenho certeza se estou no caminho certo, mas sei onde NÃO quero chegar. Não quero a roda dos escarnecedores, nem dos sábios-blazé, nem da alegria induzida por substancias, e acho que nem dos alegres também. Tampouco me desespero como o homem de Munch que Grita quando poderia cantar, afinal estar perdido é uma chance de contemplar novas paisagens, novos modos de ver a mesma paisagem... há muitos caminhos, a muitas coisas certas a fazer, pena eu estar só de passagem, (leminsk) ou pena que eu ter a má-fe de jurar não ser o responsável pela criação de novos caminhos (sarte).



                                  *


 

Do meu sangue
quando escorre
vermelhando a pele
e os pés.
Sumo do corpo,
Que e meu tempo findo.
Do meu sangue que escorre,
que esvai,
sem deixar marca.
Serpenteando-se em rios, 
como veias, 
abertas até o chão.
Resta um
Corpo
Dois
Olhos secos, 
Lábios sem cor nem fala
Que meu sangue quando escorre
Recusa tradução.
(sem titulo)


                            *


Era um bobo da corte, da corte de um tirano rei. Era fiel, aliviava o coração real das angustias diárias de torturar, matar, ferir. Seu oficio era imprescindível para o sono do rei, nas noites de duras insônias quando os gemidos dos torturados ensurdeciam a consciência soberana. O bobo sabia como trazer novos pensamentos, sensações, sono, mas, levava pra seu leito a voz dos desesperados. Em sua alcova os transmutava em deboches, piadas e pandegas... Porem numa noite de sonhos viu: o rei nu! Chicoteando uma criança pálida e chorosa, enquanto ele, o bobo, chupava o pênis real. Incapaz de lidar como tais imagens escolheu esmagar o crânio pulando da torre. Nem em pensamento ousaria difamar o rei.

domingo, 16 de setembro de 2012

Senta, ceia.







Era uma mesa grande, na extremidade uma cadeira bonita, branca de alto encosto. A frente da cadeira um prato de boa porcelana, copos de cristal, talheres de prata. Adiante uma cesta de frutas: maças vermelhas, morangos, uvas. Mas o lugar está vazio, espera...
Na outra extremidade uma cadeira velha, dura, manca. A sua frente um prato onde vagueiam moscas. Uma colher semi-limpa. Alguns frutos apodrecem á frente. E eu estou sentado. Te espero.



                             *

Corre! Atrás de ti a dor de ser quem se é, a vergonha, a criançada, o mendigo, a vontade de largar tudo, o marido da amante, a amante, a mãe, o complexo de édipo, a vingança da juventude transviada, a dor nas costas... ah! Dor nas costas.
Atenção: com o joelho, com o triglicerídeo, essa tossinha seca,  a colher de sobremesa é diferente da de sopa, sua qualidade de cidadão, amanhã a Deus pertence, a suas qualidade e medos, a monotonia conjugal, ah! Monotonia
Pare: olha a tua idade pra fazer isso! Baixo astral é tão 90’s, cigarro (quase um mês) , trabalho temporário temerário, não cobre d’Ele, não para! Não para!, Joyse nem é pra você, rancores pra que?


                               *



Você estava se ainda se acomodando numa das poltronas da sala, quando o avo parou á sua frente. Olhou no seu rosto e te perguntou se não seria você filho de Tonho, finado Tonho. Não, respondeste, quando a tia avó de pronto acrescentou que nada disso esse ai é do Bento, é filho ou neto do Bento. Dai a outra tia mais velha ainda riu-se a balançar as tetas, grandes e caídas falando como poderia ser d
os do Bento se é concunhado da Josefina. Não é concunhado da Josefina porque é genro da Gertrudes, finada Gertrudes disse aquela tia solteirona que vivia de luto. Dai o avo olhou mais fixamente pra você. Você sorriu. Ele sentenciou que se era genro da Gertrudes, concunhado da Josefina e do lado do Bento e não era filho do Tonho você era um grande Filho da Puta. E é corno disse a tia das tetonas, pobre e feio disse a solteirona ajudando o velho. O avo foi arrastando as chinelas e repetindo que você era mesmo um filho da puta!



                   *


A falha da fala.

Palavras ainda que lacrimosas
não traduzem a tragédia
Da mãe que mata o filho;
Do não-amor-correspondido;
Da falta – que chama saudade – 
Não!
Nada de símbolos pra vida
- vida é vida e só – daí
a indiferença da letra
sobre as chagas, que chamam
Feridas, fere.
Dói na pele a letra
que não acalenta a dor,
Mas...
Letras são esquecidas,
Dores, curadas
E
A fenda entre elas
Creio:
Insuperada.

sábado, 25 de agosto de 2012

notas avulsas sobre a Dama de Ferro





1 - Estou orgulhosamente fora das novidades, então um ano depois me sento pra assistir a dama de ferro, filme que deu a Marly Streep o oscar de 2011.
2  - Oh! Não Hollywood ainda entrando na cabeça e nas alucinações dos personagens, Já vejo que Margareth terá de batalhar com fantasmas, do passado e com o do marido.
3  - A fotografia didaticamente modifica-se de acordo com o tempo: presente, azul; passado, amarelo. Também poderíamos chamar isso de cliche, mas como até aqui Maryl Streep Já me emocionou embarquei no filme.
4  - Como o amor é lindo, até mesmo pra casais conservadores.  Ela pontuo muito bem que não quer ser uma mulher “Amelia”, isso deve ser importante para o filme.
5  - Essa atriz é uma bruxa, ou fada, como poder ser tão boa assim? Não há um gesto qualquer que não traga á tela a imagem de Margareth!
6 - As lições politicas que a Dama passa são excelentes e validas pra nosso pais, mesmo quanto ela representa um pensamento conservador e autoritário, suas escolhas e opiniões demonstram um enorme talento politico. Ela definitivamente preferia estar de acordo com os princípios que ser louvada pelo povo.
7 - Meu Deus! essa conclusão de que hoje as pessoas só sentem e não pensam é uma facada na consciência atual. Muito, mas muita acertada. Margareth é de uma geração que primeiro fazia para depois se sentir. A nossa é o contrario, interessante o diretor ter dado destaque a isso pois poderia soar marxista “ o homem está de ponta cabeça”. Porem psicologismos ainda que fúteis não desapareceram por completo, qual a saída?
7.7b  volto a mesma questão porque agora percebo o a Dama teve seu momento “sentir” quando tem de desfazer-se das roupas do marido, acho que o diretor está propondo um meio termo entre o sentimentalismo & psicologismo e a coragem cega daquele que age. Pelo jeito esse é o mote do filme.
8-  Será que os argentinos gostaram do filme? O clímax na hora da vitória sobre eles pegou meio mal, porque não enfatizaram a questão econômica ao invés da guerra? E porque deixaram a questão terrorismo sem uma resposta histórica. ( a não ser que o dialogo na mesa de jantar, onde a dama parecer estar ausente) significa um “ rejeitamos essa questão por completo, de tanto que ela nos fere?  Alias ela diz mesmo que os terroristas hão de cair no esquecimento.
9- esse azul enjoa.
1-   Lindo filme, linda atuação dessa Bruxa/fada Streep.
1-    Me falta conhecimento histórico pra analisar a Historia (com maiúscula) do filme, mas, acho que como qualquer outra biografia o personagem é inventado de acordo com o ponto de visto de quem biografa.


                                                  *


A jogadora


A menina corre para o centro do gramado.
Todos sorriem, ela corre para aquecer.
Está pronta para o jogo.
O arbitro lança a moeda para o alto.
Ela pega o moeda.
Comentarista: veja que não foi a moeda que caiu e sim ela que cresceu!
Ela avança, avança no time adversário, 
Passa por um, por dois é três e..
Caiu!!
Comentarista: uma hora tinha que cair não?
Mas ela está levantando, pronta para o ataque de novo e..
Cai outra vez
Comentarista: caiu no quarto heim!
Está deitada no chão e com um sorriso meio maroto na boca..
Comentarista: está fingindo com certeza, essa malandra.
Ela levanta-se avança novamente e chega firme num adversário e epa! Que drible do adversário! Ela despenca no gramado outra vez.
Comentarista: e agora feriu de verdade!
Os colegas de time chegam. Dão uma força, ponham-na de pé, e a fazem seguir em frente.
Comentarista: muito bem, pra isso que serve a equipe!
Ela recupera-se, avança, ganha espaço, joga com um adversário, joga bem, e marca!!!
É gooool!!!
O time aplaude.
Ela continua no jogo e veja lá: carrega um novo jogador na barriga!
Ela o ensina a jogar.
Ela fica na retaguarda, ensinando, servindo ao time...é a parte forte da equipe! Não é?
Comentarista: com certeza, ela é o segredo da resistência do time!
E....acho que...será?
Comentarista: sim isso mesmo...
O treinador a chama pra sair de campo,
Comentarista: ela merece descanso.
E é aplaudida pelo estádio inteiro.
Comentarista: haja coração!




                               *



Busca de dons.


Pra vencer o medo;
Pra fugir da dor;
Pra chorar em segredo
aos pés do criador.

E os olhos se turvam;
O coração se amplia;
Os joelhos se curvam;
A mente esvazia.

Orar por paz;
Rezar pelo irmão;
Pedir...ou apenas:
Sentar no chão

Menino ou homem feito:
Que traz divina centelha,
brilhando no peito:

Que nunca pare de brilhar
as paredes de teu coração,
teu intimo altar.


                                        *


Os caras começaram, oh! Cara não tem um negocio aí pra nós? O cara se fazendo de besta falou o que? Os caras, que não se intimidam com a preguiça alheia, um rango!. Dai o cara na condição de dono da casa foi, slep slep slap arrastando as chinelas até a geladeira e gritou que lá tem frango. Os caras se animaram opa! Um franguinho, nada mal, manda o galeto aí pra nós. O cara ficou lá arrumando o alimento até que do mais intimo de si saiu um grito o bicho tá vivo. Os caras saíram da frente da tv e juntaram-se ao cara que ofegante explicou que o bicho estava vivo e se mexeu. Os cara ficaram vendo aquele frango meio rosa e branco deitado desconfortavelmente na tigela e procuravam alguma espécie de vida nela. Como não encontraram nada concluíram que o cara havia matado o bicho meu Deus! você matou o bicho, você matou um ser vivo alguém que tinha o sopro da vida, que tinha dor e quiçá família... O cara ficou meio sem jeito, mas tentou arrumar vamos comer então. Só de pensar o estomago dos caras embrulhou se você acha que vamos ocultar o cadáver você se enganou cara. Os caras resolveram fazer um enterro decente pro animal ex-vivo no jardim. O cara chorou um pouco quando um dos cara citou um trecho da bíblia.


                               *

Ao Cão que me morde a canela!
Vai, passa! Passa! Vai trabalhar
Vai ser útil, seguir a parelha
Sai! (seu latir atrapalha meu sonhar.)
Aos Sarnentos reacionários:
Pestilento profanador do céu,
Senhor de bem ou bento missionário.
Tua moral é cu querendo caralho.
sE tudo que você me diz é bíblico:
Pois a bíblia é como conselhos 
De um amoroso pai
Entra por um ouvido
E pelo mesmo sai.

domingo, 29 de julho de 2012

G.Thomas & CiC


Coberto pelo manto de uma noite fria, com saudades, medos e desejos, me lanço rumo ao bom e velho enigma dessa, que é minha, cidade. Frio: chove, está frio, as pessoas usam roupas escuras, o vidro do ônibus está suado. Ainda assim não compartilhamos, cada um vive o tempo ao seu tempo, cada um dos torturados pelo vento recolhe-se na carapuça e reclama apenas com sua própria consciência. Noite: que guarda os silêncios, os assaltantes, tarados, mortos e mendigos, o crack. Noite que ninguém viu como veio, que nem se esperava tão densa. Toma a cidade pra si num abraço de tamanduá, ninguém sobrevive. Agua: cai do céu num bale guaírico, leve e brando, “chuva de molhar bobo” duplica as luzes, torna escorregadia a calçada. Ethos etilico: vou mais uma vez beber o quanto o estomago e o bolso aguentar, mergulhar minhas memorias todas em copos de cerveja vodca gim vou encontrar o sabor supremo de imaginar-me acompanhado dos antigos e preciosos amores. Amor: a única coisa digna de se viver. A! a noite, revela-se com seus vícios, eu estrangeiro mais que habituado e esse espetáculo cruel, de minhas falsas amizades, de meu verdadeiros desprezos. Eu beijo essa boca de mal hálito. E finda o passeio e um amigo morreu. Trabalhava num bar que eu frequentei, era alegre de riso aberto, era triste de alma, assim como as melhores pessoas que conheço, era Sergio. Não é mais.

. . .
E... e coming
Voa...
nada além de pássaro;
não... senão pássaro.

breve pardal;
lépido sabiá
vem, com
delicadeza,
fura-me os olhos
e voa.

. . .
 

Nada acontece entre o CIC e o Portão. Dai dia desses eu vou emudecer o bairro com meu brado redentor:

“Adoro Gerald Thomas”


E isso em nada tem a ver com seu traseiro estampado nos jornais, nem com sua ultima peça no FTC e menos com o fato dele ter sido amigo de Sam Beckett. Meu adorar e puro e simples: porque ele é inteligente e essa sua qualidade ilumina as outras: audácia, elegância e solidariedade. Audácia: porque se põe á favor de correntes imensas e perigosas do mar profundo da arte: o teatro como manifestação da subjetividade, ou antes, supra-subjetividade (imagens que todos temos e que é a nos oculta). Elegância: culto, fino e do tipo que você pode apresentar á sua avó na saída da igreja (sem medo de que ele fale alguma Buceta no lugar de Vagina (se é que vaginas&bucetas faram parte do assunto)). Solidariedade: porque os grandes espíritos são assim. Como Dalton Trevisan, Golias, Zé do Caixão etc.. surpreendem-nos lapidando joias colidas no infinito do mundo prontas pra mil pontas de interpretações. Isso só é arte. Espero que não fiquem chocados com tão apaixonadas declarações e que o mundo, por favor, continua sua caminhada rumo ao nada. Mas ficam todos cientes que entre o cic e o portão há um ( e outros) antropófagos consumindo com sus miedos.



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domingo, 8 de julho de 2012

O diário de una nova vida.



19-o4-02 – tomei a melhor das decisões de minha vida: deixei a Mari. Ele definitivamente não é a mulher ideal pra mim. Na verdade ela não é mais, porque quando namoramos ele era atenciosa, meiga e bela. Hoje, não importa com a aparência, não me da atenção, nem se importa comigo. Vi num programa de tv que um sujeito divorciou-se e quase ficou maluco por causa da solidão, mas salvou-se do suicídio escrevendo um diário. Vou fazer o mesmo.

20-04-02 – a casa que aluguei é bem cômoda, tem dois quartos e uma cozinha mais, é claro, o banheiro. Ao lado mora um senhor que vive com dois cachorros. Na frente uma família com três crianças, uma escadinha. Todos parecem boas pessoas. Mas não quero fazer amizade com eles, por enquanto não, pois terão a curiosidade de perguntar por mulher, filhos essas coisas que não quero falar.

24-04-02 – estou profundamente arrependido de ter deixado tudo os moveis com a Mari. Falta uma cadeira confortável nessa casa e principalmente um rádio. Quis ser mais nobre que a Mari abdicando de tudo da nossa casa e olha só...( eu disse nossa? Deveria dizer aquela casa) um radio faz falta porque as vezes os cachorros latem demais. Vou adquirir um assim que puder.

25-04-02 – não pude dormir, os cachorros latem a noite toda. Não quero reclamar já, porque nem conheço o velho ainda e também não quero falar com o ele, na certa vai pergunta de mulher, filhos. Velho chato.

26-04-02 – malditos cachorros, latem sempre que estou pegando no sono. Se a Mari estivesse aqui ela, na certa, já teria ido brigar com o vizinho. É bem do feitio dela, fazer um escândalo por qualquer coisa. Certa vez ele mandou o sujeito do gás trocar o bujão porque o lacre está meio solto, pode? Meio solto. Mas aquela mulher é assim. O problema é que quando ele coloca uma ideia na cabeça, as coisas tem que estar de acordo com a imaginação dela. Nesses dias ela falava mal de todas as minhas coisas, de tudo, dos programas que eu assistia, da maquina de lavar, malditos cachorros.

28-04-02 – esse velho maldito, quem ele pensa que é? Um caçador pra ter uma matilha em casa? Agora percebi, são vários cachorros, pelo menos seis que latem a noite toda e de dia tem as crianças da frente. Umas pestes, esses dias eu ai chegando em casa e todas ficaram me olhando, examinado minha roupa etc.. na certa pensam “fracassado”, só porque um casamento fracassou não quer dizer que sou um fracassado. E nem quer dizer que eu não consiga viver com outra mulher. Idiotas!

27-04-02 – esses crianças disseram alguma coisa a meu respeito para o pai delas. Hoje ele me viu saindo e correu, correu mesmo, pra me alcançar e puxar assuntozinhos. Soltou um monte de bobagens sobre “aqui é muito bom pra morar”, “seja bem vindo”. Dava pra ver que ele queria me tirar algo, que eu dissesse por que estou sozinho, sem mulher. Panaca! Não disse nada. Emudeci, na certa ele vai contar pra mulher, na hora da cama “ o novo vizinho é um idiota mudo etc..”

28-04-02 – agora sei. São treze cachorros, pude perceber pelos latidos: três são pequenos, dois são de raça e o resto é vira lata. O velho só dá comida para os de raça, os pequenos comem também, mas pelo vão das pernas dos outros. E todos os outros ficam com fome a noite toda, por isso latem, latem e fedem, posso sentir daqui o fedor deles.  Estou ferrado, quem deve estar muito feliz é a Mari, com a casa toda pra ela, tudo isso não passa de um plano dela.

29-04-02 – tenho um radio, finalmente. Quando os cachorros latem eu coloco no volume máximo.  Acabei com o plano do velho de me atormentar.

31-04-02 – as musicas, todas elas estão falando comigo. Às vezes choro. Mas sempre sou interrompido pelo comercial de moveis. Acho que é coisa da Mari, ela sempre queria comprar moveis.

32-04-02 – o velho grita reclamando do som do radio. E eu? Que aguento essa matilha dele? As crianças entraram na minha casa e mexeram na comida.

33-04-02 – nunca mais vou ouvir radio, eles percebem a minha rotina pelo som do radio. Vou tirar essa arma deles. Não sei como as crianças entraram aqui, mas coloquei mais dois cadeados na porta. Nessa noite elas mudaram os moveis de lugar e sinto um cheiro estranho, acho que é veneno na comida. Vou jogar fora.

34-04-02 – o velho é louco, ele quer me matar e dar minha carne para os cachorros vira-latas dele. Hahhah eu rio na cara dele, esse velho não mata mais ninguém, ele é pedófilo, e é ele quem ensina as crianças pra entrar aqui.

     -04-02 – não sei que dia é hoje, e perdi o caderno, estou escrevendo em código pra eles não acharem. Também faço silencio total o dia todo pra eles acharem que não tem ninguém. Vou esperar as crianças e pega-las no ato.  Fiz um laço com a corda do varal pra enforcar os cachorros.

  -04-02 – fico no quarto, esperando.

  -04-02 – não aguento mais essa perseguição, tenho fome, mas, se eu sair eles invadem. Comi a única coisa que eles não envenenaram: a pasta de dente.

40 - 04-02 pelo caderno é dia quarenta. Essa casa tem espirito. Eu não caibo na cozinha. A roupa tem bicho. O velho é o diabo. Adeus. Me mato antes que o velho mande as crianças me matar.