sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Não olhe nos olhos do fantasma - parte 2


Três meses depois.

O garoto acordou. Espreguiçou-se. Sorriu ao perceber que era tarde, passava das uma. Luiz tinha ido trabalhar. O garoto pensou que era muito chato ficar sozinho. Lembrou da noite anterior: eles haviam ido a um bar “descolado”, bebido, dançado e Luiz até fez aquela carinha de ciúmes por causa de uma novo amigo do garoto. “Que bobo” disse enquanto examinava o conteúdo da geladeira. Suco, manteiga, massa pra pastel, poderia escolher se tomava um café ou preparava o almoço. A umas duas semanas ele praticamente morava na casa de Luiz, suas melhores roupas eram presente dele, seus melhores dias e noites eram, também, pagos por Luiz.

(antes, porem)

Luiz acordou, viu no relógio que estava atrasado. Ao lado o belo garoto dormia, com todo o cobertor, que como de costume, roubara durante a noite. Estava com dor de cabeça e ainda meio tonto. E ele que tinha prometido não sair mais dia de semana…”quem consegue dizer não ao garoto?”. Correu para o serviço com mau persentimento e chegando o chefe mandou-lhe chamar.
            - Atrasado de novo Luiz? -  foi direto ao assunto – posso te perguntar o porquê?
            - Não vai acontecer de novo…eu…não vai acontecer.
Na volta para a mesa Luiz percebeu que estava sendo prejudicado pela “agenda” de seu garoto. Mas como dizer “não”, como resistir aos olhos castanhos-dourados e ao sorriso que o fazia perder o folego? E mais: ele tinha 19 anos, tempo de se diertir…

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O garoto resolver tomar um suco com torradas e geleia. Mas, o suco estava amargo, as torradas secas e a geléia muito doce. Jogou tudo fora e foi comer no shopping.

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Luiz trabalhou preocupado. Não tinha um bom relacionamento com o chefe e tampouco um relacionamento confiável com os colegas. A ‘competitividade’ dentro do escritório era grande e tinha alvos específicos: mulheres e homossexuais. No seu pensamentos orbitavam as contas atrasadas, o cartão de créditos que dera ao garoto, o cheiro e o toque da pele do dele e o desejo de pagar a carteira de motorista para ele. Mas, no fundo da gaveta ainda havia uma foto sua com Fábio. Uma foto da vida em parceira que ele havia trocado por um estilo glamouroso, caro e solitário.

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O garoto passou a tarde toda vendo vitrines. Então foi pra casa e teve um boa ideia pra acabar com aquele tédio, ligou pra Luiz: “venha logo, tenho uma surpresa”.
Luiz resolveu que era melhor ir mesmo e explicar a situação ao namorado. Mas, o chefe lhe chamou:
            - Luiz, preciso que você faça uma extra hoje.
            - Bem…eu não vou poder porque estão me esperando em casa..
            - Quem? O marido! – disse o chefe, rindo junto com dois colegas – é?
            - È.
            - Então pode ir, que eu tenho alguns pais-de-família aqui, que vão deixar os filhos e as mulheres sozinhas em casa, porque levam isso aqui a sério.

Quando Luiz abriu a porta de casa, viu o garoto no meio da sala com duas malas aos pés.
            - Oi! Vai tomar um banho que nós vamos á praia!
            - Praia?
            - Sim, eu pensei e acho que isso que a gente está precisando, um momento de lazer só nosso.
            - Eu não posso.
            - Por que não? você não vai fazer isso comigo né? Eu levei mais de uma hora pra fazer sua mala. E amor: está um tédio essa cidade!
            - Não tenho dinheiro.
            - Não me venha com essa agora. Se não quer minha companhia não inventa desculpa. Se fosse o Fabio…
           
Luiz relembrou o ultima vez que vira o Fábio, parado no portão, embaixo de chuva, as três da madrugada, dentro do carro ele pode ouvir “te amo, ainda”.

            - Se você fosse o Fábio não me pedia uma coisa dessas. E eu não teria chegado atrasado no trabalho hoje porque ele me acordava. Se você fosse ele eu não teria dividas inúteis. E garoto, seu rotinho bonitinho e inocente é tão patético como de uma socialite. Me enganei demais por acreditar nesse beleza falsa que é a tua. Me enganei em trocar um cara que era companheiro por um belo e inútil adereço. – Luiz disse tudo isso sem olhar nos olhos do garoto. Por que senão a beleza desse o calaria, e ele precisa dar esse passo, mesmo que eu falso.

O garoto empalideceu e teve muita raiva. Pegou sua mala e foi embora. No trajeto até a casa de sua mãe ele começou a transforma-se em homem e a cidade começou a deixar de ser desmontável, como uma vitrine pra ficar real.

fim


Parte1: http://marciocampus.blogspot.com/2011/07/nao-olhe-nos-olhos-do-fantasma.html.

Img>http://www.flickr.com/photos/elcabriton/5002458432/sizes/m/in/photostream/

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O passatempo do passar do tempo.


"Deus existe?" é uma questão comum em discussões pretensamente filosóficas. "Pretensamente" porque não é de direito de filósofos ou de filosofias determinar verdade ou falsidade á está questão. Ainda mais quando sabemos que numa pergunta como essa escondem-se diversas outras como: Qual Deus? Porquê? Etc...

Sapientíssimos, gordos e bem-servidos, Agostinho e Tomas de Aquino eram ilhas de vida iluminada no mar de ignorância da idade média. Eles pensaram filosoficamente a existência de Deus. Tomas, influenciado por Aristóteles demonstra isso em cinco teses, entre elas a do movimento: se tudo está em movimento, existe algo que impulsiona esse movimento. Vejamos: o tempo, está em movimento e é impulsionado por… outro tempo, o seu anterior, ou o mesmo tempo, que imensamente  grande passa sem que percebemos (nós os finitos) a sua finitude. Para os teólogos ele, o tempo, está subordinado ao Eterno, que é Deus. Então passado e futuro são necessários, pois já estão configurados pelo próprio mover-se do tempo, sob o olhar atendo do Eterno. Sendo assim o movimento é necessário e não-livre.

Na língua portuguesa usamos tempo para tempo-relógio e também para tempo-clima. Assistimos cotidianamente a previsão do tempo não para saber se as próximas horas terão sessenta minutos mas, pra saber como será o clima nos próximo dias. Porem o tempo-clima é essencialmente diferente do tempo-relógio porque não é idêntico a si mesmo, ou seja, um dia chove, outro não. Enquanto todos os dias tem vinte e quatro horas, invariavelmente. Nesse aspecto o tempo-clima demonstra que na natureza as coisas são livres e movem-se sem a necessidade rígida do A=A.

Para Nietzsche todos os movimentos provem de forças e essas são finitas por que as coisas (materiais) são finitas e estão submetidas a um tempo (ou possibilidade de tempo) infinito. Portanto um dia tudo se repete e volta a repetir-se infinitamente. E não seria isso acabar também com a idéia de movimento? Se tudo está num movimento necessario, tudo não está – paradoxalmente – parado? Um rio que segue seu curso, movimenta-se?

Afirmar que existe ou não o movimento, a liberdade, a eternidade é risível até mesmo quando proferido por pessoas do quilate de Hegel, Kant, Nietzsche porque eles não estiveram lá pra saber. Então pensar sobre isso é apenas um diletantismo mas que serve pra conhecer a fronteira do pensar, dos conceitos, das contradições. Para poder inferir juízos possíveis sobre coisas possíveis do mundo cotidiano. Não vejo melhor função pra o filosofo.



img: filósofo meditando, de Rembrandt