quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Festas de Babette e Linspector.


No texto “A repartição dos Pães” de Clarisse Linspector está à descrição de uma surpresa: um almoço de sábado. A autora/narradora começa nos descrevendo uma vida cheia de individualismo, um viver apenas para sí. “Gostávamos demais de sábados para gasta-lo com outros” Assim, enquanto esperava na casa da anfitriã a chamada para a mesa, pensava no dia, que lá fora corria, sem ela. Bebia um café, sem grandes interesse.
No filme “A Festa de Babette” algumas pessoas, muito simples nos seus hábitos protestantes, são convidados pra um jantar. Porém ao contrário dos personagens de Linspector, esses já vão apreensivos. Não que não se conhecessem, nem que gostariam de estar noutro lugar, mas porque o jantar parece ser supreendentemente perigoso: a cozinheira, Babette, empenhou-se muito na preparação, utilizou ingrediente nunca vistos por aquelas pessoas. E pior: pode “enfeitiça-los” pelo paladar. Todos eles pertencem a uma comunidade religiosa, e estão ali, justamente pra comemorar o 100º anos do nascimento de seu líder, já morto, e pai das duas senhoras donas da casa. E deixar-se levar pelo prazer de comer pode coloca-los em condição de pecadores afinal, gula é pecado, e é pecado também sentir prazer com coisas tão vis como alimentos. Prazer só do alto dos hinos e da bíblia.
Quando a narradora do conto de Linspector entra na cozinha para o almoço ela tem uma surpresa: a mesa está lindamente arrumada, com imensos cachos de uvas, maduríssimas, leite fresco, espigas de trigo pra enfeitar, imensos rabanetes, maças, tomates, milhos, abacaxis, e outras peças… “será para nós?” questiona-se a narradora, porque não vê necessidade de tamanha beleza. E ela que não gostaria de estar ali, senta-se á mesa e prova dos alimentos, primeiro com o olhar, depois com o tato, com o olfato e finalmente com o paladar então se sente ali. Totalmente. Seus sentidos trouxeram seus sentimentos para aquele lugar.
As diferenças não são muito grandes entre as duas obras. Ambas falam do prazer de comer. Do colorido da mesa, do requinte de uma boa cozinha. Mas a escritora brasileira lança mão de um almoço pra falar do prazer de estar à mesa com o outro, de celebrar com a comida e com a bebida. De como uma boa mesa pode mudar um cenário, um dia e principalmente o humor dos convivas. Esse aspecto também aparece fortemente no Babette, quando alegres os convidados fazem um roda, e celebram, sob as estrelas, a amizade que os une, coisa que nunca haviam feito.
Comer é uma atividade diária, comum, necessária. Mas pode ser também uma belíssima narrativa, uma forma de demonstrarmos apreço, uma criação. Jantares comemoram vitorias, casamentos, premiações. Então para celebrar a vida os homens aliam o necessário ao mais supérfluo: a beleza. E além de belos jantares, a comida pode gerar belos filmes e contos. A cozinha também parece ser um ambiente onde a feminilidade aflora com mais força, mas isso seria outra historia…

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