segunda-feira, 3 de outubro de 2011

uma palavra imprópria



Era uma vez uma palavra, ou era uma vez um sábio que falou uma palavra, ou era uma vez um sábio que num dia não tão sábio falou uma palavra no meio de um sermão e a palavra não encaixou no todo. Não que ela fosse CAIXA ALTA enquanto todas eram caixa baixa e nem isso ao contrário. Ela não encaixou por própria incompetência ou incompatibilidade.

Era um vez uma palavra fraca – estanha que as vezes envergonhava sua familia-frase ou prejudicava seus amigos, moradores do mesmo paragrafo. Houve uma duvida que essa palavra fosse mesmo desse idioma mas, a luz dos novos tempos já provou a possibilidade real de que essa língua aceite palavras de outra diferanciado-as por intemédio de um estilo italico. Pórem ao vestir essa palavra de italico percebeu-se o quão redícula ela ficou, (algo como um folião travestido de mulher do carnaval de Antonina, que corre para o enterro do pai sem se trocar) Não! A palavra era desse idioma mesmo.

Uma palavra pesada – certa vez essa palavra foi parar dentro de um delicado poema de amor. Esse poema era leve, flutuava tal qual fumaça de insenso e era apanhado no ar por longos suspiros de moças e rapazes apaixonados. O mais lindo dos poemas. Mas, tal como um espinho na carne de peixe frita essa palavra cravou na boca e na alma dos leitores e ouvintes e o poema desandou, estragou, estourou a bile do poema e ele ficou sujo, feio e venenoso, por causa da palavra pesada entre tanta delicadeza.

Uma palavra leve – houve um acordo de paz entre dois povos, inimigos tradicionais e por causa disso os povos celebravam as boas colheitas, animadas festas, casamentos, ferias, pic-nic com os filhos etc. A paz, até então desconhecida, mostrou-se a melhor das instituições . Então foi marcado um dia para uma grande festa onde todas as pessoas iriam celebrar a paz. Ergueu-se uma grande tenda, toneladas de alimentos foram preparadas, toneladas do melhor vinho. Todos usavam suas roupas mais belas… Por fim o discurso daquele mestre que tinha idealizado a paz: um grande filosofo, “Que a aboboda celeste seja testemunha” começou ele, e avançou para: “ Nessa data memorável que…” e depois disso ele usou a palavra. Ela mostrou-se estremamente leviana para a ocasião. A paz quebrou-se como vidro, “das mãos espalmadas fês-se espanto” e ambos os povos, viram-se nus e em pecado, como a beijar a cunhada. A palavra, no entanto, não era má, ele tornava-se má entre outras e por contaminação destruia todas as outras orações. Os dois povos cairam novamente em guerra, somam-se os mortos, o ódio, as lágriamas e… a palavra foi banida dos dois lados.

A beira de um caixão do pai, um filho jamais deve dizer essa palavra, ela é alegre e histriônica demais.

Num show de homor, depois de quinze ou vinte piadas, o comediante usou essa palavra, foi vaiado e processado, ela é triste demais.

Numa bruxaria uma feiticeira usou essa palavra e o feitiço caiu sobre ela.

O homem mais forte do mundo disse que iria sustentar essa palavra em público, não aguentou. O mais rapido disse que iria quebra-la em mil pedaços, mas foi surpreendido por ela.

Hoje sabe-se que ela está entre nós, dissimulada, sinonimisada, neologisada mas tal qual a esfinge, espera-se que um dia, um de nós irá desvendá-la para sempre e nos livraremos desse temor que causa a simples lembrança da existência dessa palavra.

Fim

img: http://mostravisualdepoesiabrasileira.blogspot.com/2011_02_01_archive.html

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