segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O retorno de Charlote Danke.


Estamos no km 666 da auto-estrada que liga a cidade-sem-Deus até a locação abandonada da uma filmagem de um filme B qualquer. Abaixo desses matos secos que você vê, jáz a cabeça de Charlote Danke, a diva de Jazz que revolucionou o conceito de Strip-jazz, e acima: uma cruz de madeira branca, com as indicações “Carlot, Descance em paz”. Há exatos 13 anos e 13 dias algum fã deixou uma coroa de flores de plástico azul que agora, desbotadas, refletem a pouca luz da Lua que escapa por entre as nuvem carregadas.
O barulho dos carros não deixa perceber um leve gemido, que nas proximas horas vai aumentar….
A luz dos carros passando apressados não deixa perceber que a terra, a 13 anos intacta agora parece mexer….
Ludmila, vem em alta velocidade, deixou tudo para traz, marido e filhos e de hoje em diante vai viver uma nova vida ao lado do seu verdadeiro amor, Lucio, o jardineiro, homem forte, bruto e másculo que a faz se sentir uma verdadeira mulher, submissa as suas caricias, ao seu bigode, ao seu cheiro de mato. Ela vai feliz e decidida “aquele banana nunca me mereceu” pensa sobre o banana do marido que ficou em casa com os três ou quatro filhos (Ludmila não sabe precisar a quantidade). Ela sabe que a melhor coisa foi ter fogido, “é o melhor pra todos nós” deixou escrito num bilete, (talvez o marido não concordasse com esse “nós”, mas ela nunca deixou ele dar a opnião dele) seria feliz ao lado de Lucio, e faria mais alguns filhos, e talvez até aceitasse casar-se com Lucio. Qundo pensava sobre isso o pneu furou, e foi no km 666…

Charlot Danke não suportava o tedio dos camirins, sempre aranjava uma diverssão, um segurança bonito ou uma dose extra de remedios controlados ou talvez alguma substancia proibida que trazia da fronteira. Charlot não suporta a solidão, e é disso que mais sofre uma diva (todos acham que divas querem ficar sozinhas o tempo todo) Charlot sofre por ter de manter uma pose “musa-intocavel” sabendo-se suburbana que sempre foi. Quando morreu ela estava dirigindo a mais de 200km/h pra fogir de umas lembraças terriveis, personificadas nos olhos castanhos de um moreno jambo que conhecera na ultima turné. Aquele cheiro a acompanhava… aquele toque deixava-a doida, tanto que capotou três vezes e morreu com um sorriso nos labios. Seu corpo seguiu pra capital onde centenas de fãs esperavam o feretro, já sua cabeça foi enterrada no local do acidente, como é costume ao longo dessa estrada.

Lubmila treme, sai do carro e constata: o pneu furou, se aquele banana estivesse aqui ela o xingaria muito, e faria ele trocar num instante, mas, agora era só ela. Lembro-se de seu proposito de ser uma nova mulher e a nova Ludmila saberia trocar um pneu como ninguem. Abriu o porta-malas, pegou a chave de roda, colocou na roda e tentou girar, uma, duas e umas duas vezes mais… Nada. A porca não se mexia.

Charlot Danke corregou multidões em seus shows, sua voz e as curvas de seu quadriu agradaram homens de todas idades e classes sociais, mas, Charlot sempre gostou dos mais pobres, porque mais submissos aos seus caprixos, menos interrogadores. Quando esteve no porto, ela teve uma queda especial por dois marinheiros polacos, que sem dinheiro para retornarem a terra natal, faziam “bicos” de saxofonistas nos bares da cidade. A paixão foi imediata, aquele sotaque, aquele bronze desbotado, aquele charme que só um imigrante oprimido tem, deixaram Charlot maluca. Levou os dois para seu quarto de Hotel, beberam champanhe, Martini, café e pela manhã, ainda sem decidir com qual dormiria, Chalot esfaqueou os dois e deixou-os sangrando perto do mar, “que seus gemidos cheguem a Polonia, e que seus corações batam por mim” desejou, amorosa, Charlot Danke.

Lubmila quase não pode parar de pé sobre os seus saltos, italianos, a porcaria da porca da roda não rodava. Ainda bem que ninguem está por perto, porque senão veria uma dama, soltar um monstroario muito vasto de palavras de baixo calão. Ela tenta outra vez e… nada. Uma onda de desespero bate bem no fundo de seu amor proprio
(lugar verdadeiramente sensivel numa mulher) e Lubmila chora feito uma criança agachada na beira da estrada.

Charlô a muitos anos morta assiste a esse triste e monotono espetaculo: os carros passando na estrada e suas lembranças passando feito filme em looping na sua memoria. Porque ela está morta, mas nunca esquecida. Apesar disso, não pode ter o charme de uma Zumbi, visto que o seu corpo foi enterrado bem longe e só a cabeça jaz sob a cruz. Sua sorte parece mudar. Ela ouve os soluços de uma mulher…

Sai do buraco, mordendo uns matos perto da cova, com um esfoço consegue ver: uma mulher chora agachada, perto de um carro (sim! É Lubmila) Charlote não tem tempo pra pensar, apenas age: aproxima-se rolando da mulher e morde com todas as forças que tem o tendão de Aquiles, até conseguir perceber que esse rompeu.

        Ludmila solta um berro, pensa que algum bicho a mordeu, tenta correr mas o bicho continua preso na sua perna, ela olha é vê: é um cranio, com alguns cabelos louros preso nuns pedaços de pele aprodecidos e uns dentes meios podres que fincam, com cada vez mais força o seu tendão, até que ludmila sente que ele se rompeu e cai no chão de tanta dor.
       
Charlô solta do pé de sua presa, pula uma ou duas vezes até alcançar a garganta da mulher e finca-lhe os dentes, o sangue espira para todos os lados, a mulher grita, geme e agita-se, mas, Charlote não solta. Pelo contrario ela morde e masca a garganta da mulher, que, vez ou outra para de gritar pela boca pra sopra pelos buracos do pescoço, feitos pelos dentes de Charlê. A mulher agarrou ultimos cabelos louros de Charlote e arrancou-os com o couro apodrecido da cabeça e isso deixou o humor de nossa diva ainda pior, com mais vontade era mastiga o pescoço de Ludmila. Que agora já não reage. Morreu. Charlote Danke com umas mil mordidas consegue arrancar a cabeça de Ludmila, com um esfoço homerico rola a cabeça até a estrada e pula de felicidade ao ouvir esta ser esmagada por um caminhão de frigorifico. Charlote posiciona-se exatamente acima do pescoço de Lud…. Que Foi de Ludmila e reza a todos os deuses que sejam compativel o tipo sanguineo.

Se Charlote Danke não fosse Charlato Danke essa operação nunca daria certo, mas como ela era ela, os nervos do corpo com os nervos do cerebro ligaram-se e com menos de 15 minutos nossa diva já pode mexer os dedos... meia hora depois ela já pode agitar os braços e isso chama a atenção de um grupo religiosos que passava. Comovidos com a historia que charlote contou, (que era uma enfermeira da ONU, que salvara um bebê…etc) eles a levaram pra sua Vam, lhe deram água e cantaram alguns hinos. Não sabemos se foi a água abeçoada ou os hinos mas em uma hora charlote já tinha todos os movimentos. Deu um monte de socos na cara dos religiosos, pegou o carro deles e correu a toda pela estrada.
       
        Nesse interim aparece um novo personagem: Samael: o borracheiro. Flor-que-não-se-cheira e viciado na agua-que-passarinho não bebe, ele havia espalhado pregos pela estrada, um deles furou o pneu de Ludmila, e outro nesse instante acaba de furar o pneu da Vam de Charlot Danke. “com mil diabos” grita nossa heroina.
“Com mil e um diabos” diria Samael, pois uma Vam vinha pela estrada, a uns 150km/h, com a roda praticamente no aço, sem se importar com as cosequencias…  Era Charlot que xingava a todos os responsaveis por essa miserável tragédia (até Henry Ford, por ter criado carros que dependem de pneus) quando entrou na borracharia, aos berros Charlot, diz para aquele velho chamar o barracheiro.
-Sou eu.
Chalote suspira, um velho, magro,corcunda e cujos musculos pareciam bailar sobre finos ossos era o borracheiro do qual ela dependia. “o que deve ter acontecido com os homens” pensa Chalô, “espero que tenha sobrado ao menos algum exemplar”.
O homenzinho era rapido e forte, o que surpreendeu Charlô, em pouco tempo tirou o pneu furado, achou o prego, lixou o lugar do furo e colocou a câmara num aparelho que aquece o remendo e a câmara…. enfim:
-Leva vinte minutos.
Charlote Suspirou de novo, anos na cova não haviam feito dela alguém que suporte uma espera.
Começou a perambular pelo local. Uma parede suja, pneus velhos, jornais velhos, fotografias velhas, Charlot está com nojo dessa velharia, desse mundo tedioso e velho que é a beira da estrada. Quando é surpreendida por uma foto, uma foto da propria Charlote, nua, colada sobre um calendario de mil novecentos e oitenta e…. um raio corta a espinha que foi de Ludmila.A anos atraz, havia feito um ensaio sensual, no auge de sua carreira, e lembrava-se que alem das fotos nuas havia um belíssimo pôster: Charlote Danke, nua, sobre um Opala preto, numa pose Pin Up, e acima um luminoso escrito: Charlote Danke. Era incrivel, ela não sabia que isso havia chagando tão longe. Lembro-se do quanto era desejada, por caminhoneiros, borracheiros, motoristas de taxi. Essa escala baixa da sociedade a amava e faziam dela figura ideal de mulher, e de sexo. Ela amava a todos, sentia seus olhares, tinha arrepios de imaginar suas mãos a acariciando, suas barrigas, seus bigodes, mas, nunca pode usufruir dessa clientela, pois não poderia igualar-se a eles - quebraria o encanto - ficavam ambos, ela e eles na imaginação.
- Voce sabe quem é essa, perguntou ao borracheiro, e antes que ele respondesse ela disse “essa sou eu à anos atrás”.
Pobre do homenzinho, sua corcunda parece ter se acentuado quando seus olhos pulavam do pôster á figura, da fugura ao pôster, ele não a reconhecia.
“Mudei muito meu caro” disse chalote para consola-lo, mas ainda tenho o mesmo fogo….
- Eu te amei muito. Disse o safado que por muito tempo havia se masturbado pensando em Charlot.
Anos embaixo da terra, tempos de muito privação, loucura ou sei la o que. Conduziram Charlote para ir delicadamente aproximando-se do homem, tirando-lhe pouco a pouco as roupas, susurando palavras doces como “ vamos ver de ainda tem braza nesse fogão” ao pé do ouvido do pobre borracheiro. Ele, anos de solidão, de falta de ousadia, de falta de oportinidade fez de Charlot a mulher mais realizada sobre uma pilha de pneus, sobre o macaco,  a escrivaninha velha... Fês como ninguem havia feito, mostrou para ela o que é receber um homem dentro de si.
Casaram-se e vivem bem .



fim
Imagem: http://liveunderconstruction.wordpress.com/2010/10/28/caveiras-tattoos-e-pin-ups/

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