domingo, 31 de julho de 2011

Nossa Senhora.

...Ou está na hora do almoço. A moça sorridente disse que não ou que eu já comi, eu sorrio e digo, “ah, sim, já comi ” mas tenho quase certeza que isso que estou sentindo é fome ou tem um pouco de dor nas costas. Mas eu não reclamo,                                eu tenho dor nas costas, vou dizer isso pra essa moça que sorri                                    ela sempre sorri e eu também sorrio junto. Acho que ela é minha filha ou minha neta.
         Quando me dava banho a moça falou alguma coisa muito, muito engraçada, eu ri muito                              ela riu muito e a cara toda enrrugada pelo riso                                   me deu medo. Como  pode?         o medo paralizar a mão, dai por medo eu acho que não consegui comer                                   ou é porque está na hora do almoço eu tenho fome.

Tenho que estar bem bonita, hoje o meu filho Davi vem me ver. Eu sei disso que está acontecendo, eu sei que tem alguma coisa errada e eu esqueço das coisas, mas nunca, nunca posso esquecer de meu filho.     Eu amo ele                eu amo  o Davi e não posso deixar essa doença fazer eu esquecer dele, se eu pudesse guardava o Davi bem dentro do coração, lá tenho certeza que doença nenhuma vai fazer eu esquecer dele.                Se o Davi visse mais cedo iria pegar esse cheiro de xampu no meu cabelo , bem gostoso, eu pedi pra essa moça colocar bastante pra durar até a hora que ele vai chegar,                                                       mas tinha que ter colocado mais.

Tem uma manta azul na minha perna, tem uma flor azul na folhinha. De todos esses azuis nenhum se parece com o azul do manto de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Eu lembro, chegamos cedo, desci do ônibus, entramos naquela igreja enorme, dai eu vi!
Que coisa mais linda, aquela estatuazinha, pequena e quase preta, mas parece que ela olhava pra mim, parecia um mãe.                     Minha mãe me olhando - senti.  O manto azul que nunca posso esquecer. Teve um que estava conosco que falou “a mãe do Brasil”,                 eu não queria sair nunca, mas tinha muita gente, “não se perca do moço do ônibus” falou…….não sei quem…..fui embora e nunca mais pude voltar, mas sinto Ela ainda bem perto, agora essa doença e nunca mais posso ir ver a Santa. Coitada tão pequena, como pode cuidar de todos, tão pequena…

Vou esconder o Davi bem atraz da santa e com seu manto ela vai encobrir ele. A doença pode apagar tudo da minha memoria, pode levar até o nome das coisas, mas nunca vai levar e imagem da Santa e nunca vai levar meu Davi. Ele vem hoje?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Sereio


Certa manhã, ele acordou e estava transformado.
Assim, naturalmente, sem mágica ou cirurgia, mudou como é natural mudar e
tinha certeza que estava acordado, do contrario seria um sonho.
Acordou e viu-se transformado numa enorme vagina, obvio que não só a
vagina, talvez até tivesse ganho seios, útero, grandes e pequenos lábios etc.
Mas era a vagina que mais chamava a atenção.
Maior que qualquer outra ela começava no umbigo, desfolhava-se em peles-
sobre-peles até sumir por entre as pernas.
Ele nunca tivera duvidas sobre sua identidade sexual, acordar transformado em
mulher era definitivamente uma novidade. Pensou no lado positivo da
mudança: cabelos longos...batons... gravidez.
batidas na porta e já não há pensamentos, apenas o desejo de esconder-se.
Esconder-se por ser mulher.
Novas batidas e já não houve tempo, nem força, pra se esconder. 
O pai abriu a porta e viu.
O pai viu a vagina, grande, na cama. Depois viu que estava no garoto. Estivera
sempre ali? Não soube responder. Riu. Era engraçado, corria tanto atrás
daquilo e de repende, no lugar menos esperado, lá está!. 
Ficou olhando até que ficou ereto.
Abaixou as calças. O garoto iria dizer alguma coisa.
-cala á boca.
Uma dessas se não aproveitasse era viado. 
Subiu na cama. E penetrou. era larga, entretanto quente o suficiente pra
lembrar uma de verdade. 
A cara do garoto encarando, irritava ele  mandou que não olhasse:
-vira pra lá!
Mas não adiantou. Coisa incompreensível é uma vagina, até boa, no corpo dum
piá. Resolveu o problema colocando uma manta na frente. 
Era boa, muito boa, quem diria que o dia começaria assim? Se soubesse
antes, teria até levantando mais cedo. Ejaculou. Tirou a manda da cara do
garoto e disse. 
-fique aí , não vai trabalhar hoje.
Foi trabalhar, mas quem disse?
Essa novidade não lhe saiu da cabeça e como nunca foi de guardar segredo
falou pro Mineiro, seu colega:
-Imagina uma sereia. Agora pense numa de segunda linha.
Minero ficou olhando com cara de quem não tinha entendido nada.
- vamo lá em casa pra você ver.
Foram e o garoto estava jogando na rua. Com um shortes pequeno, e camisa
curta, na fresta aparecia a carne vermelha da vagina, as pernas finas do garoto
tremeram ao ver o pai.
-vem cá, mostra pro minero.
Mostrou. O colega só conseguiu falar:
-Nossa senhora do Cêu!
-por Deus do Céu, minero,não seu que Diabo é isso, mas eu aproveitei e é
bom.
-aproveitou? E o seu pia?
-não disse nada.
Voltaram pro trabalho. Dai foi o mineiro quem não deixou de pensar.
Chamou o Pai do garoto num canto.
-você deixa eu aproveitar disso também?
-quem isso Minero? Tá maluco… 
-você falou que o seu pia não liga.
-100 reais.
-não
-50
Aceito o valor de 50 por ambas as partes, depois do trabalho, o mineiro foi na
casa e na mesma cama transou com aquela vagina, a parte sobressalente: o
garoto, cheirava a suor 
e a poeira da rua.
Dessa vez doeu, bem no meio da barriga do garoto, ele chorou baixinho.
-e aí mineiro? Bom?
-se é, fazia tempo que não comia uma dessas.
Foram todos dormir e na solidão da noite o pai pensava. Iria ofertar a vagina
pra um monte de caboclos do trabalho e da vila, quem não tivesse 50, teria que
fazer uma rapidinha pra pagar só a metade. Mas bom mesmo era oferecer
para os ricaços, qualquer um que visse aquela “bucetona” pagaria o preço que
fosse pra meter ali.
O menino acordou transformado, no lugar da volupuosa vagina apenas um
pênis, com peles no prepúcio e nenhum pêlo.
O pai acorda e vai direto ver, olha e xinga:
-Puta que o pariu! 

Fim
Imagem: http://www.flickr.com/photos/missvulva/4854797854/sizes/z/in/photostream/

sábado, 23 de julho de 2011

A

Apesar de toda dor, que em si mesma cause
Uma ode a beleza de Amy Winehause:

 Espalhou canções pelo mundo,
Mas o mundo não percebeu:
Não era vicio o seu problema
seu vicio era também o meu:

Somos todos assim,
Loucos, viciados e descrentes.
Somos todos insanos
a paixão tornamo-nos dementes.

Que seu corpo descanse em paz
Que sua alma brilhe eternamente
A paixão que tu inspirou
Fas-se vicio e semente.

Se ao pó voltamos? inevitável
É o fim,
Se é o  excesso, imperdoável,
 ai de mim
ai de mim.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Não olhe nos olhos do Fantasma.

               
           Nao olhe nos olhos do fantasma
               
              Subindo a Rua da universidade Federal tem um bar, pequeno e pouco freqüentado, porem, com alguns clientes cativos que as quartas-feiras assistem ao show de uma banda, que sempre toca as mesmas musicas e que os habituais clientes cantam o mesmo refrão.
                Fabio e Luiz é um casal de namorados, juntos há cinco anos, mas se conhecem a pelo menos dez, época em que Luiz namorava Claudio, que morreu. Foi a morte de Claudio que aproximou Fabio de Luiz, foi ele consolar o amigo, tomar um vinho... Dar um oi... Uns beijos e Até que declarou-se apaixonado por Luiz, que queria-o só pra si, até mesmo sem o consentimento dos outros amigos que achavam tudo isso rápido demais – o retrato de Claudio ainda estava na parede.Quem lembra-se dessa historia? Ninguém, mas todo mundo sabe que Fabio namora Luiz e que freqüentam o bar as quartas apenas pra rever os velhos amigos.
                Tempos atrás esse mesmo show com as mesmas musicas e os mesmos refrões foi interrompido.Havia um garoto, risonho, pois meio bêbedo, dançando, bem feliz, em frente a banda. Ele cantava algumas letras que conhecia, ensaiava uns passos e bebia ainda mais quando, sorrindo, pedia um “golinho” para outros clientes. Todos davam, só pra ver o garoto mais bêbedo e feliz, até porque ele era bem bonito, magro, com uma camisa xadrez, uma calça jeans, justa e tênis AllStar, tinha um ar indï, cabelos curtos pretos, pele clara, olhar longo, de olhos castanhos, (cor-da-casca-de-um-cavalho-que-nasce-á-beira-dos-lagos-congelados-do-Canada-quando-no-fim-da-tarde-Sol-acrecenta-lhe-um-dourado-especial como havia descrito um admirador do garoto, que não terá espaço nessa história). O garoto gostava de Literatura , de cerveja e desse ar blasé dos intelectuais. Ele viu tudo isso no Luiz. Comprou um Long Neck e foi até onde o Luiz estava, ao lado de Fabio, mas o garoto não supunha que fossem namorados.
                - Ei,comprei essa cerveja pra você, porque te acho muito gato.
                Luiz sorriu Fabio não.
                Quanta ousadia pensou Fabio, será que esses pias pensam que todos aqui são sem-vergonha como ele? Pegou a garrafa de cerveja das mãos de Luiz e foi atrás do garoto que voltava pra frente da banda.
                -Volta aqui!
                O garoto olhou e Fabio deu uma garrafada bem no topo da cabeça do garoto.
                A garrafa era verde e o sangue bem vermelho. As pessoas gritaram e Fabio fugiu.Nesse ínterim a banda parou de tocar.
                Luiz correu e socorreu o garoto, levou-o no seu carro até o Hospital, lá eles se conheceram melhor... Ligaram-se, depois, algumas vezes “pra saber se estava tudo bem” e agora Luiz namora com o garoto e não fala mais com Fabio que se tornou um bêbado e vaga pelas noites da cidade. Se encontrá-lo nunca olhe nos olhos do fantasma que ele trás sempre consigo, o fantasma é dele, só dele.
                fim

quinta-feira, 14 de julho de 2011

armas, de defesa

[educacao-arma.jpg]
do: http://mou5e.deviantart.com/gallery/ (educação é a arma mais poderosa)

"Um homem armado é um cidadão. Um desarmado é um súdito."
A frase acima foi usada como as ultimas palavras de Timothy McVeigh, terrorista condenado a morte por um atentado em Oklshoma que matou 168 pessoas. É justificável o fato de ele ter sido morto, mas, isso não pode tirar o mérito da verdade presente na frase.
Se quisermos um povo facilmente comandado é obvio que esse povo não deve possuir armas de fogo. Compreendemos que as armas nem sempre foram de pólvora, muitas delas não são: cassetetes, paus, foice, bomba atômica etc.
O que caracteriza “arma”? Não seria aquilo que aumenta a capacidade humana de atacar e defender-se? Nesse aspecto os portões e as portas da casa, que são meios de defesa, conservam um parentesco com as armas, do mesmo modo as câmeras de segurança, os vigias e muitos outros aparelhos de defesa.
Mas como tudo que é solido desaparece no ar, esses meios de defesa vão tornando-se cada vez menos visíveis a medida que se aproximam dos “centos” ou das regiões fundamentais da estrutura do sistema, como: unidade nacional, governo etc. as armas de defesa dessas áreas não poderiam ser físicas devido ao tamanho dessas estruturas então temos coisas como: ideologia, identidades, divisões por classes como armamento de defesa.
Se as estruturas do governo, por exemplo, funcionasse plena e eficasmente isso resultaria no fim, ou pelo menos numa desconfiança da Ideologia, coisa que não interessa a estrutura.
Se existisse apenas uma identidade nacional o povo poderia se unir e defende-se, de maneira a romper com a estrutura. Coisa que deve ser evitada pelos centros dessa estrutura. Porem de o povo não se reconhece em nenhuma identidade, há conflitos e o sistema não funciona, coisa que também pode ameaçar a estrutura. É necessário em equilíbrio entre identidades e não-identidades (reconhecimento e não-reconhecimento) uma das maneiras de manter o reconhecimento é através do discurso do entretenimento e do discurso do esporte. Uma maneira de manter o não-reconhecimento é unindo a idéia de povo com a idéia de doença, ignorância, medo, por exemplo.
São essas as principais armas de defesa e também de ataque da estrutura social e política e é claro que essas armas também podem ser usadas de maneira a romper com uma estrutura desigual e injusta, são elas fortalecer a idéia de povo com o conhecimento da historia desse povo, desempenhar um papel critico do entretenimento e das identidades, criticar a ideologia totalitarista em relação a cada elemento do todo, reconhecer a divisão por classes (sem eufemismos). São armas que podem ser usadas por aqueles que querem mudar a estrutura e ninguém melhor para isso que o artista.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

...Pedro (a)

...sou Pedro, mas será a Sua voz que em minhas mãos tornar-se-á Pedra.
(Sua Voz petrificada erigirá imensos edifícios que com a beleza de manjedouras não passaram de matadouros)
...esforçar-me-ei para manter sua voz presa a um passado-sem-futuro.
(pedra de grutas, que não vêem a aurora dos novos dias.)
...sou Pedro, construo muros de pedras que separam água e terra seca.
...sou Pedro e construo, a partir de suas palavras-pedras, túmulos seculares.