sábado, 28 de maio de 2011

G-ATO

Certa vez um filhote de GATO apareceu em casa. Era um desses bichamos meio cinza, que miam alto demais, um vira-latas. Fui incumbido de dar um sumiço no bicho. Combinei com meu primo e decidimos matar o gato. Mas quem diz que matar um GATO é algo fácil? Não queríamos matar aos olhos nus de nossa falsa moral, tínhamos que matar de uma maneira cega e surda. Por isso o  método: fecharmos o bicho num saco plástico e jogarmos num terreno baldio perto de casa. Feito isso fomos pra casa crentes que tínhamos cumprido a ordem de manter a ordem da casa, sem barulho de GATO.
Mas aí começou uma mudança decisiva, não sei se foi o mundo ou eu que mudei, mas algo que ainda não era se fez e um remorso apareceu. Algo como um dó. Passou-se umas duas horas e a sensação era que alguém viria de algum lugar me incriminar por ter matado um GATO, não apenas matado mas também torturado o bicho, visto que não fomos até o terreno, mas sim jogamos o saco do rua, com direito ao um miado e um “catpof” quando o GATO caiu no chão.
Acho, não lembro bem, que tentei fazer alguma coisa atoa pra esquecer, como pensar em desenho animando, ou brigar com o meu vizinho. Mas o diabo do GATO continuava engatado na minha memoria.
Passou-se mais duas horas.
E a mudança em mim ou no mundo se fez completa. Algo em Vénus se alinhou com plutão ou foi apenas a curiosidade, porque se o GATO já tivesse morrido a partir de então eu estaria com o direito sobre a vida e a morte, dos GATOs pelo menos.
Fui até o terreno, rasguei o plástico. E… o GATO miou, ele estava completamente suado, mas vivo, como se tivesse sido mergulhado numa poça, abriu a boca e me olhou, percebi que era mais que um GATO, era um filhote de GATO, ainda não tinha consciência nem de sua natureza, ele estava experimentando a dor pela primeira vez. Acho que foi a partir desse momento que eu deixei de ser feliz. A dor de um GATO me fez perceber a dor da existência. De que a maldade pode ser cega e inocente. Acho que o GATO sobreviveu, eu é que não sei se algum dia conseguirei sair desse cárcere, tão fino e tão definitivo.  

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