sexta-feira, 22 de abril de 2011

O sexo e a cidade.


Raul Cruz




             Quando Haroldo saiu de casa fazia frio e caia uma garoa. Aquele tempo era péssimo para a asma, a sobrinha tinha alertado:
            - Tio, mas vai sair com esse tempo? depois fica a noite inteira tossindo.
            Ele não gostava de contrariar-la, afinal não fosse ela estaria numa pensão ou asilo qualquer. Mas era seu aniversário e ele não ficaria em casa no dia, ou noite que faria setenta e três anos. Era moralmente cabível que ele se desse um presente. De modo geral esses setenta e poucos, agora tão pesados, teriam tido alguns momentos de prazer. E ele estava ávido por comemora-los, pena que a sobrinha, tão atarefada, não lembrou, ele teria comprado um bolo pra comer com ela e seu marido, não esqueceria de levar um pedaço ao seu melhor amigo: o  porteiro. Mas ninguém lembrou e foi melhor esse  dinheiro seria pra seu presente. E mais: não é que esqueceu-se que justo hoje o porteiro estava de folga? Que pena, ele é tão bom de conversa. Sabia as noticias melhor que o jornal, e dava á elas um tom  apocalíptico muito próprio, era um sujeito muito bacana, pena não estar aí hoje.
 Abriu a porta e entrou na noite.A cidade estava bonita, (ou ele estava feliz?). Havia alguns carros estacionados em frente ao prédio, todos eles coberto de sereno e refletiam as luzes dos postes e das janelas, tudo era silêncio, tudo era mais ou menos escuro (ou seria o seu modo de ver e ouvir que já não alcançava os detalhes?).
Vinham na sua direção um grupo de jovens, conversavam e riam alto,  todos cabelos e roupas eram iguais. São felizes por serem consumistas, pensou Haroldo ele também fora um jovem alienado, quando essa palavra ainda tinha algum significado. Seguiu a moda ouviu as musicas mais tocadas e até o vocabulário, mas isso tudo agora é tão anacrônico, o que é contemporâneo agora, para ele, é uma tranqüilidade de velho que ele jamais imaginou ter, o jovem apressado? o funcionario estressado? Nada. Agora Haroldo é um velho que caminha e até, as vezes, para na rua pra pensar em qual direção tomar. Notou que a principal característica da velhice é a transparencia, ninguém o vê passando pelas ruas, nem ninguém o incomoda com perguntas cotidianas como “ será que chove?”, “tudo bem?” agora ele faz parte do cenário, vêem através dele, vêem os anos, o passado. Assim como essas arvores centenárias da praça,

                    bela, bela mas qual será o nome dela?

como essa placa da prefeitura que comemora mil obras em dois anos. Será que a própria placa entra na contagem? Questiona Haroldo, com o que lhe restou de ironia.
             Na esquina lá está, assim como ele, personagem da cidade: as travestis que se prostituem na calçada. Com suas roupas mínimas e seus enigmas, será um vitima do cruel sistema ou um vicioso pederasta com mulher e filhos em casa? Fosse haroldo pintor, iria retratar essa esquina sobrepondo, de dia o café mais “bem freqüentado” da cidade, a noite “zona de baixo meretricio o nome do quadro seria:  Lugares urbanos e verdadeiros na sua crueldade.
            Havia uma boite na muruci, duas quadras acima de onde Haroldo está agora, era o point dos modernos, artistas, maconheiro etc.. certa vez  lá, ele viu uma moça acompanhada de dois rapazes. Ela era realmente “moderna” usava roupas de vinil, um aranjo no cabelo, estava bêbeda ou drogada, era lindíssima. Dançava fora da musica, tinha um olhar longe, era lindíssima, depois de pensar um pouco e aproveitando que os amigos dela foram ao banheiro Haroldo aproximou-se.
            -olá!
            -oi
            -como é seu nome?
            - você tem bebida?
            -não, mas se quiser eu pego.
            -aqui não tem wisk, essa porcaria…
            -como é seu nome?
            -Michele.
            - O meu é Haroldo.
            - …
            - Você é muito bonita, Michele.
            - obrigada,
            - tem namorado?
            - que?
            -algum deles é seu namorado?
            - namorados…um do outro, entendeu?
            -ah!, sim…
            -que me beijar?
            Haroldo queria sim, e beijaram-se muito aquela noite, normalmente ele era bem mais tímido e jamais chegaria numa moça assim, mas com ajuda de algumas latas de cervejas qualquer um cria coragem. E foi com essa coragem que ele a arrastou pra um canto e deu uns bons malhos naquele corpo, sentiu a coxa firme da moça, o hálito de cigarro, o cheiro doce de perfume e pensou que realmente tinha de dado bem. O dia amanheceu, as pessoas começaram a ir embora, Haroldo imaginou que com menos gente iria transar com a moça ali mesmo, num canto escuro. Mas ela estava cansada e com dor no pé. Foram pra um sofasinho perto do bar e, cavalheiro, ele ajudou ela a tirar o sapato, mas notou que o pé era grande e largo de mais, com um pouco mais de atenção ele viu que o cabelo negro, lindo, chanel era peruca e a gargantilha escondia um pomo-de-adão. A moça era travesti. E essa foi sua primeira decepção amorosa. Com a cerveja claro, pois fora ela a culpada de tudo, qualquer um em sã consciência veria que a moça era moço. Irritado consigo mesmo ele foi embora e jurou nunca mais voltar e nunca mais beber. Não cumpriu nenhuma das duas promessas mais ficou mas atento á alguns detalhes desde então.
            Porem a “sua” travesti era diferente dessas, ela tinha classe. Essas se expõem quase nuas, rebolam com saias que não chegam a um palmo e a sociedade curitibana, que espia das janelas e dos carros, masturba-se no seu concervadorismo. O papel social das travestis é manter o moralismo exitado. Enquanto ele passa as moças retocam a maquiagem e não o enxergam claro, “somos margens opostas” , pensou ele.
            O cinema do outro lado da rua também lhe traz vivas lembranças dos seus filmes: “Harald contra os ganters fantasmas” , “Harald apaixonado”, “Haroldo contra lei”  sempre fora protagonistas de todos os filmes que assistiu, foi ele que sofreu-mais-venceu, foi também ele que apaixonou-se-pela-pessoa-errada, ou mexeu-com-a-máfia e venceu-sozinho-a-máfia, era divertido estar em mil aventuras, com mil carros e cavalos, tantos que não poucas vezes perdeu o fôlego na platéia daquele mesmo cinema, agora em degradação…Entre uma aventura-filme e outra ele cresceu, foi trabalhar e as aventura migraram pra casa, noites de sábado e domingo, como um vicio: filmes e filmes – melhores companhias que os vivos – sonhos e sonhos agora não mais como protagonista mas como o mais atento e critico espectador, nada lhe escapava, porem inútil convencer alguém que Kubrick era um mero parnasiano pós-modernista ou que Hitchcock era ateu-militante, então nada melhor que assistir mais e mais filmes pra ter certeza de cada sentença, mesmo que  proferida pra si próprio.
            Cruz Machado. Para Haroldo a única rua viva da cidade. Putas, táxis, cervejas e espetinhos, um barulho de gente falando, de musica sertaneja misturado com o tchutchu dos carros que passam, levando os manos ás minas, ou os manos pra lugar nenhum andando só pelo prazer de atrapalhar, pessoa suspeitas, viciados em crak dignos de pena, mendigos, Haroldo se compreende melhor entre todos esses. Uma menina com idade pra ser sua neta lhe pede cigarro e aproveita “tem uma grana aí tio? Vamos beber uma?” Ele se sente melhor ainda, aqui ninguém é transparente. Porque não? uma cerveja só, pensa. Mas não, o dinheiro que tem é para seu presente. Quem dera ter mais. Chamaria alguém pra beber diria que essa cidade está cada vez melhor e que cerveja boa mesmo era “na bundinha” ririam, claro, e diriam “ quem que teve a idéia de chamar ceveja, sal e limão de “na bundinha””. É no bar que nascem as grandes idéias, concordariam. Infelismente entre as caras que o olham, e o vêem rindo não há nenhum conhecido, alias nunca teve, no máximo colegas. Mas e isso, não vale algo? São boas companhias e sem grandes intimidades. Afinal somos ou não somos curitibanos?
Mas na data de seu aniversário ele vai querer algo mais sofisticado e a Cruz Machado, não tem. Então ele toma um táxi
            -Anita de barros.
            - È pra já.
            - Ufa!
            - Cansado tio?
            - Um pouco só, logo passa.
            - O senhor vai ao hospital?
            - Não, mas é próximo.
            - Beleza, que tempo não?
            - Isso é péssimo pra saúde.
            - È mesmo, senhor sabe que estou com uma tosse que não para, e garoa mais o pessoal que fuma…o senhor não fuma né.
            - Não.
            - Faz bem, antes eu deixava fumar aqui no meu táxi, mas agora não. pelamordedeus  fica um cheiro que não sai nunca. Além de fazer mal para os próximo passageiros. Não digo para o senhor que não perdi alguns clientes, perdi. Mas mais tem Deus pra dar que o Diabo pra tirar, não é?
            - isso.
            - Antes eu fumava, sabe. Fumava pouco mais fumava, era no máximo meia carteira por dia, por causa da madrugada né, mas Deus vai endireitando o caminho da gente, vai colocando consisciêcia né? deixei tudo, alcool , cigarro e só tem me feito bem…nem vontade eu tenho, fico ali na frente da boate, todo mundo sai pra fumar bem na cara da gente. Mas nada… se disser pro senhor que tenho vontade tô mentindo…
            Haroldo não fumava, se tinha fumado algum dia foi pra imitar James Deam. Mas lhe dava asfixia e como tudo na vida tinha mais gosto na tela que na realidade, o táxi por exemplo: o para-brisa era uma  tela onde a cidade ia passando, lentamente ao fundo e muito mais rápido perto. A silhueta disforme dos prédios quase tocando no céu , aquele céu cada vez mais feio da cidade, teto de fumaça e tão omisso, imparcial, abaixo dele pode correr a alegre vida dos filhos de catadores de lixo e escorrer o sangue das meninas usuárias de crak. O cêu assiste a todas as coisas e é imparcial como um cinegrafista do Discovery lembra-se Haroldo, pensando no sujeito que filma uma tartaruga morrer na areia e não a ajuda a chegar no mar.
 Quantas lojas passam pela janela do taxi, quantos produtos feito apenas para os jovens, os lojistas teriam esse fetiche? Desejavam roubar a juventude dos mais novos os atraido através de cartazes? Seriam eles , em ultima instância conscupiciosos? Haroldo era.
            - Dai falei pra ele que pena que o você Gervasio, não me trouxe antes pra essa benção…
            - Pode parar aqui.
            - Ah!, ali no toldo?
            - Isso, quanto é.
            - O senhor não se importa de eu pergunta uma coisa?
            - Não.
            - Você sabia que Deus esta vendo tudo isso?
            - …
            - Eu sei que essa casa aqui é um antro de pederastia, que aqui tem sexo e drogas rolando solto, e o senhor heim? Eu falando as coisas de Deus e o senhor vindo pra essa casa imunda, se eu soubesse, nem tinha aceitado a corrida. Não to aqui pra carregar homossexuais nem travestis para seus pecados, isso mesmo: pecado. O Diabo deve estar feliz no inferno vendo todos vocês O louvando, cantando o pecado nesses antros…. quinze reais, e por favor se for pra te trazer aqui nem me chame mais… venha a pé.
            O taxista tinha razão. O que Haroldo vinha fazer ali era pecado, não sabemos se contra Deus, mas com certeza contra sua consciência. Lotou muitos anos contra a homossexualidade. A vez que ficou com a travesti na boite fora a primeira de muitas outras. Ele se deixava enganar pela imagem feminina, mas o que queria mesmo era a essência masculina por traz de tanta maquiagem e brilho. Porem a tranqüilidade da velhice trouxe consigo a aceitação. Gostava mesmo era de homem. E mais que isso: gostava de jovens, corpos firmes, carne dura e espíritos idem. Era mais um vampiro de Curitiba, o mais civilizado deles  porque pagava suas vitimas, era generoso nas gorgetas, ali todos gostavam dele e ele gostava dos mais jovens e magros. Essa noite iria sair com um belo, o melhor que houvesse, era seu aniversário.
            - Haroldinho! Tudo bem? Vai fazer uma sauna hoje?
            - Olá, Cris, sim, por favor.
            - Ta meio fraquinho o movimento hoje, mas acho que vai melhorar daqui a pouco.
            - ah. Ok.
            - Boa sauna.
            Quando entrou correu os olhos pelos cantos, tinha fome da beleza arrogante dos garotos que se prostituíam ali, mas não encontrou nada. Procurou os amigos-de-sauna, senhores como ele que se unem contra a solidão, pra falar de rapazes, jogar truco, disfarçar o tédio. Também não havia. Espero que o movimento melhore mesmo, pensou. Não poderia passar a noite de aniversário sem nenhum amigo.
            No bar: O atendente, Haroldo sempre teve uma admiração, era um jovem louro, com olhos muito bonitos, sorria fácil e era visivelmente hetero. Casado, mas convivia muito bem com a sexualidade alheia, enfrentava milhões de cantadas diárias com um facilidade. Ele não temia ser objeto de desejo por aquilo que não lhe atrai. Haroldo admirava esse moço, era um estóico do século XXI ou apenas alguém buscando de soldo? sabia que o rapaz já tinha filho, e sempre quisera saber como alguém poderia sustentar um filho com um salário miserável de barman. Se ele quisesse se prostituir teria todos os motivos, bastava subir uma escada e tirar a roupa e ele e o filho teriam um mês pouco mais confortáveis. Entretanto ele nunca fizera, se fizesse algum dia Haroldo saberia porque todos sabem de tudo sobre todos nesses lugares.
            Despiu-se devagar no vestiário, colocou um roupão, as pirulas azuis no bolso do roupão. O único barulho era das TV uma ligada no jornal outra num filme pornográfico.
Entrou na câmara da sauna. Fumaça, calor, umidade e o cheiro mil vezes aspirado de essência de eucalipto. Tudo ali lhe era conhecido, as paredes azuleijadas em branco, os bancos de madeira, o ar era quente mas a vida ali dentro era morna, era um tédio e teve alguém que disse que sauna era bom pra saúde, mas todo mundo sabe que é só mais uma desculpa pra ver a nudez alheia. Saiu. Nem esquentei o banco, disse rindo da própria miséria…
            - Wisk!
            - boa escolha, disse o barmam hetero.
            - cawboy.
            Tomou três doses, aquele lugar, aquela data estavam lhe deixando melancólico, que diabos, justo hoje não havia ninguém, nem um amigo ou um garoto andando nú só pra ele ver, justo hoje que tinha dinheiro e iria pagar o quanto fosse preciso.
            - Faz tempo que você está aqui não? perguntou ao barmam.
            - oito meses
            - Caramba, ainda não cansou desse lugar?
            - não é tranqüilo…
            - mais uma dose.
            - poxa! Hoje o senhor esta bebendo né?
            - pode me chamar de você..
            - ah!
            - como é seu nome?
            - Leandro.
            - o meu é Haroldo.
            - Sim eu sei…
            - faz programa Leandro? – sabia que não, mas não custa tentar…
            - Não, só trabalho aqui.
            - Porque não?
            - Sou hetero.
            - Se fosse não teria escolhido trabalhar aqui.
            - sou barmam, e bar é bar em qualquer lugar né.
            - deve ganhar aí um salário…
            - é, mais ou menos…
            Ficaram ambos assistindo a TV, Haroldo bebeu mais algumas doses e convidou:
            - te dou um salário por uma foda.
            - não, quero não.
            - não quer porque? Ganha uma porra de um salário de miséria e fica se fazendo..
            - não é isso, é que não gosto.
            - não gosta de uma chupeta?
            - que isso…
            - vamo ou não?
            - não vou.
            - então vá se fuder seu podre do caralho
            - o senhor está bêbado.
            - esse lugar já é uma merda e ainda colocam esse favelados-moralista pra servir a gente… que merda de dia
            Colocou a mão o bolso e encontrou as pirulas azuis, tomou as duas.
            - você não vai trepar comigo né? Pois eu vou ali bater uma punheta pensando na tua pica, na tua mulher lá na favela, no teu filho…
            entrou na sauna. Estava mais quente que antes. Começou a se masturbar. O ar estava raro, estava com raiva de mais um fora que levara, com raiva desses malditos amigos viados que não vieram, raiva de ter planejado um dia de “princesa” e não houve merda nenhuma. estava tremendo. Faltou ar. Ele não estava bem. Calor, calor, caiu no chão molhado e não consegui levantar 
            - Socorro – porem muito baixo, ninguém ouviu
            Haroldo do Rosario velho, culto, homossexual, bêbado morreu debatendo-se no chão da sauna, foi encontrado horas depois mas sua carteira não.

Fim. 

Imagem: Raul Cruz

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