quarta-feira, 27 de abril de 2011

BO.tão





Botão

Eu que já olhei nos teus olhos,
elogiei sua boca.
Que Acho teu cheiro inebriante.
Digo também que amo seu cu.
Acho-o lindo, botão de rosa, discreto
perfeitamente situado ao oposto do cérebro
(tão cheio de certezas e sentenças).
O cu está quieto, reflexivo.
Quando eu o vejo me sinto novamente
andando de quatro, pelas campinas paleolíticas.
Caminhar erectus  trouxe-nos vantagens, 
porém  a maior perda foi a de não ver mais
seu cu ao sol, á chuva, ao vento….
Tenho saudades do seu cu.
Pede á ele pra me ligar.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Esperando Gerald.


Flor – entrevistara
Pixuca – boneco fantoche
Bernardo – manipula dor de fantoche
Pingo – sonoplasta

Flor – Ele é um simpatissisimo senhor de 52 anos, ele é alemão , mas ao mesmo tempo brasileiro e americano, viveu em Londres e conhece toda a europa e principalmente as cidades com nomes mais complicados… seus antecedentes são judeus e alguns deles morreram nos campos de concentração nazista, ele trabalha como encenador, dramaturgo, iluminador é blogueiro, colunista tem formação em filosofia, entende de musica, principalmente de opera. Senhoras e senhores tenho ao meu lado Gerald thomas.
Flor – pronto? Parece que ficou uma coisa muito superficial né? Sera que eu já digo que ele trabalhou com a mulher da novela, porque se sabe né, se eu falar Fernanda Montenegro é possível que essa audiência idiota nem saiba quem é. Mas se falar “ a a fulana da novela, mãe da outra fulaninha gostosa…” dai as pessoas identificam,… é o que eu digo viu.. a cultura vai bem… de quatro em quatro anos ela sai do coma que é quando dos brasileiros pintam a cara pra torcer por um jogador que a dez anos não pisa por aqui.
Pixuca – fico aqui?
Flor – fica meu filho… esse cara tá chegando… e nem se preocupe, Por mais cheio que parece ele é leve, raso também, é mais carão sabe.
 Pixuca -  e se der vontade de mijar eu posso sair?
Flor – puta que o pariu né.  É o tempo todo querendo mijar. A dá essa merda aqui. Não vai beber mais nada. Imagina, Gerald, um momentinho que o Pixuca quer fazer pipi. Que cara que eu fico né.  Porra Bernardo.. se ouviu isso? Bernardo? Tá ouvindo. Bernardo? Ah! Pixuca, cadê o Bernardo?
Pixuca – tá mijando… eu também quero.
Flor – isso é um complô? Agora todos querem? Então vai. Vai todo mundo. Nem me olhe com essa cara de “não tem poste pra todos” eu não tô nem aì, só que quando ele chegar…. Quero todos aqui com cara de nada Heim? Cara de paisagem? Eu sei que ele gosta dessa coisa de niilismo sentimental, faz cara de quem veio viver e perdeu a vontade.  E assim que ele gosta. Alias o pingo tá aí?
Pingo – oi.
Flor- queria que nos intervalos você coloque um som bem pós-pós-moderno sabe minimal-tecno,  pós-rock ou etereal-minimal-domenical acho que soa melhor que um só a nossa vinhetinha.. cansei dessa guarani 3 o retorno. Os modernista já eram fio..
Pingo – vou tentar.
Flor – bernardo?
Bernardo- oi,
Flor – e aí? Cadê esse cara. Ele não tinha dita as duas?
Bernardo – não, ele disse as uma e meia, dai eu marquei duas porque o transito tia de intenso ao meio-dia então…
Flor – sim eu sei esses antenados sempre atrasam… antenados… muito antenados… se eu fosse amige das bil estilistas também seria muito antenada, eu tenho glamur meu amor, só me falta companhia certa, só isso.
Você acredita que aquele cachorro que eu estava saindo não conhecia Leminsk? Sim nos estávamos no transito pra Ipanema, dai ele disse “haja saco pra isso” dai eu falei “haja hoje pra tanto ontem” ele ficou me olhando com aquela cara de buldog, com os olhinhos assim piscando….  Dai eu disse “ hellou , leminsk” ele continuou me olhando com aquela cara de buldog com os mesmos olhinhos assim , dai eu disse “poeta” dai ele disse “ah” ai tipo que saco, será que ninguém mais da valor a poesia?
Pixuca – quem é leminsk poeta?
Flor – pixuca! Poeta não é nome! Poeta é a profissão do cara que faz poesia.
Pixuca – ah! Mas a patricia poeta.
Flor – a patricia poeta é um saco. Tá, eu prefiro mil vezes as Gloria maria, porque ela e a hebe estão desde o começo da televisão no ar, sabe isso é tradição.
pixuxa – a TV começou? achei que estivesse ai sempre…
Flor – também não sei. Mas eu ouvi alguém dizer que ela tinha começada a 100 anos atras, ou mais… não sou boa com datas…
Bernando – mas como era sem a TV?
Flor- é…. Estranho. Não faço nem idéia…. Acho que era por telefone que as pessoas se informavam.
Pixuca – gosto de telefone. Ele é macio, ele tem barulho, gosto de telefone.
Flor – sabe que me deu uma angustia agora, de imaginar que se a TV teve um começo, dai tudo que nos conhecemos teve um começo, isso quer dizer…
Todos  – ah! Basfemia, blasfemia, horror, ousadia, blasfemia..
Flor- ai gente só pensei… não levo á serio essas filosofia. Credo, que escândalo , chega.
Sabe que eu já falei filosofia hoje, não lembro onde…. Que será que queria dizer? Porque agora eu estava falando de tipo pensamento sabe?
Bernando – eu sei? Filosofia é mesma coisa que pensamento, então é sinônimo.
Flor- é eu sei… acho que vou começar a usar essa palavra mais vezes, “ eu filosofei e descobri que nossa sexo não é sexo é so lambida no sexo, então não chega a ser sexo” “eu filosofei e vou comer macarrão” , “ eu filosofei e acho que o elseve é melho pro tom do meu cabelo”
Bernardo – legal. Talves eu começe a usar também..
Flor – odeio gente que imita Bernardo…. Se você não tem criatividade pra inventar uma palavra só pra você, não saia de casa meu filho.
Bernardo – tá mais não se irrite.
Flor- tá mais não se irrite, viu? Tá imitando de novo. Quem falava isso era aquele cara da televisão o Lula.
Bernardo – mas não era o…
Flor – bernardo. Chega. Chega. Cadê esse desgraçado. Droga eu tinha pensando em ir tomar alguma coisa com ele depois daqui. Sabe porque ele comeu muita gente importante dai eu estava pensando em dar pra ele também, nada serio.. só sexo, pra dar uma decolada sabe? To precisando Bê. Ontem a repórter da contigo me perguntou “ você tem programa na qual emissora” quer dizer… se nem elas lembram como eu poderia chegar a globo? Ai que droga e pior que já estou com 26 só tenho mais 4 anos pra acontecer. Porque a globo não contrata com mais de trinta sabia?
Pixuca  (triste)– sabia.
Flor – fazer o que né? Regra é regra. Por isso eu precisava muito pegar esse cara.. nem que seja pra um suruba… dizem que ele gosta de tudo.  Mas tenho minhas duvidas, será que eu chego de cara e pergunto assim “ vamos transar no meu carro?” mesmo sem dizer a marca do carro, porque depois ele descobre que não é importando e vai me esculachar pra tudo mundo.
Bernardo – tem que ser honesta, tem que dizer. Senão é muita surpresa…
Flor – acho que vou falar logo no começo, sabe dar uns toques assim, “ eu nasci em são paulo por isso gosto de fiat, em são paulo metade da minha geração foi concebida no congestionamento, por isso minha aproximação com a fiat” dai o cara já se toca né.
Bernardo  - ahãm…
Flor – que carro será que a xuxa tem? Porque essas revistas nunca mostram? Que merda e imprensa a desse pais né? Falam de tudo, dai agente que gosta, copia tudo do artista e ele nem pra falar que carro que eles usam, com eu faço?
Bernardo -  filosofo que tem que ser um carro escuro.
Flor- eu também filosofo. E agora como eu faço pra ter um carro escuro, mas que ao mesmo tempo chame a atenção? Pense…. Como  a Angelica faria, como a Beth faria….
pixuca – hahha  essa foi infame né? Que clichê ….o autor escreveu essa porra na privada?
Bernardo – não blasfema idiota, nossa vida depende dele.
Pixuca – a é …. Perdão meu querido, amado e estimado criador, senhor de todos seus personagens senhor de tudo isso aqui. Dai-nos vida
Flor – assim seja. Posso continuar?
Bernado – deve.
Flor -  eu preciso de ajudar ,eu preciso de uma nova agente, mas dai se eu saio dessa que estou agora, e ela me queimar com as outras só por vingança? Ai que vida ingrata… ai agente sofre pra chegar onde chegou, depois sofre por estar onde está, com medo de perder o que se tem, e medo de ser ter o que perdeu estampado nos tabloides.
Bernando – ai de mim que nem apareço na tv.
Flor – não reclama o lombardi Também não aparecia mais depois de morto ele apareceu, é tipo vam gog sabe é um sucesso prostumolo.
Bernando – pros tumulo?
Flor- é… quando o cara fica famoso depois de morto… apesar que eu não sei se eu quero tanto sucesso assim, sabe, acho que perde um pouco da privacidade, teve um modelo que se deixou fotografar cheirando pó, até ficou legal mas não sei se eu faria,  será que a Beth faria?
Pixuca –  piada ruim de novo
Flor – porque assim , pó é pó e ele é da pessoa. Eu guardo o meu muito bem limpo. Sabe?
Bernado – acho que ele não vem.
Flor – quem?
Bernado – o cara que você vai entrevistar.

Flor- ah! Quem ele é mesmo? É ator?
Bernando – não ele é do teatro.
Flor – deve ser uma bichoma…..teatro é a ante-sala de Sodoma sabia?
Bernardo – aham
Flor- você também ta virando evangélico?
Bernado – tô!.
Flor – ai Bê, por isso que eu te amo, eu também… pra se a Record me chamar eu já tenho mais essa formação né? É assim meu amigo… hoje em dia mercado tem oportunidades, basta você estar bem preparado…. Eu to lendo aquele livro
Bernardo –  a Bíblia?
Flor – não outro bem melhor “ a autobiografia de Jesus” escrito pelo bispo
Bernardo – não creio! Você comprou? Mas tava super difícil comprar..
Flor – contados né. Contatos, quem tem amigos tem tudo….
Bernardo – eu to lendo a bíblia, mas é muito chato.
Pixuca – não gostei do cântico dos cânticos…
Flor – isso é. Acho que a bíblia vai parar de ser usada, ela é muito mal escrita né?
Sabia que o Bono Vox pediu ao  Paulo Coelho escrever  uma nova versão da Bíblia? dai todo mundo vai substituir por essa velha, bem melhor nem, porque vamo combina, paulo coelho é o Paulo Coelho…. Sabia que ele voa?
Pixuca – ele é mágico. Ele espira inspiração, ele cura a dor das pessoas , ele faz minhas pernas amolecerem, ele me deixa molhadinho…
Flor – não sabia que você gostava tanto assim.
Pixuca – nem eu é que eu decorei essa fala… é a que eu mais gosto, sabia que nessa parte o autor  tava na praia, tomando cerveja e comendo camarão?
Flor – não, mais que eu saiba ele não tem grana nem pra pagar o conserto do dente cariado..
Bernardo – gente… parem de falar, ele não quer aparecer, ele é super discreto, não gosta de ser citado…
Pixuca – to por aqui com essa bichona , que medo é essa que que aquele prego do autor pode fazer? Por mim ele morria.
Flor – ele não tá morto? Jurava que ele tá morto….
Bernardo – para. Olha acho que o Gerald que tá chegando,  pingo música… não, essa não…..também não, mais sóbrio, mais triste… menos emotivo, mas fino, mais angustioso, isso… bem dawm…
Pixuca – ele tem buchechas grandes ne?
Flor – não, é que o botox deixou ele assim….
Pixuca – coitado…. Mas esse aí é o anão da dança do quadrado….
Bernardo – não é o Gerald thomas?
Pixuca – não é o anão,
Bernardo – não é o anão é ou não é?
Pixuca – esse é o anão, e não esse esse é ou não.
Flor – calem a boca…. Pega essa porra desse anão mesmo , vamo entrevistar o anão.
Bernardo – o que você vai perguntar pro anão?
Flor – a não o que?
Bernardo – vamos ter que adaptar tudo isso aqui pro anão? É a lei da acessibilidade.
Pixuca – á por anão vai ter tudo né? Porque pra mim ninguém pensou nisso….
Bernardo – não esquece de perguntar pra ele, quantos anos ele tinha quando virou anão. E se os pais receberam bem a noticia, e se é favor do casamento entre anões e o que ele pensa da adoção por anões.

Flor- sim… polêmicas e polêmicas, haja polêmicas pra manter a audiência…
Pixuca – eu vou fazer um ensaio nú!
Flor – o que?
Pixuca – mentira, mas você poderia lançar essa polêmica… se a Elsa pode porque eu não posso, somos ou não somos iguais perante a lei dos bonecos? Porque boneco de olinda sai na caras, e eu so saio na veja, eu mereço coisa melhor… eu sou um boneco de
respeito e a próxima vez que a veja citar o meu nome, eu me suicido… mentira….polêmica…hahah
Flor – lembrei… vou perguntar pra ele porque não existe enterro de anão!!!
Bernado – isso!!!! Boa, caraca essa é muito boa… parabéns Flor…
Flor – brigada… brigada… é o que eu digo, me chamam de burra mas eu tenho talento, eu tenho prestigio, tenho sedução, tenho batom, sufler
Pixuca – quero caras, quero caras , quero a cara me veja, me veja, veja caras, veja caras, veja caras….
Flor – amandita, ferrero croche, diplomata, sonho de valsa
Bernardo – Gerald você não veio mas…te amo..  ( mostra a bunda)
Pixuca – veja caras, veja as caras, vejas as caras…
fim

Quem mexeu na minha Bunda?





1- Caraca maluco, esse plantão foi uma merda
2- já peguei uma também, pior que estava num lugar que você nem imagina.
1- doido, o corpo tá virado mesmo.
2- Estou a quase dois dias aqui, vou mudar de setor.
1- queria mudar também. Mas duvido que ainda tenha algo de bom.
2- dizem que o melhor está no setor “paturilia esquerda”
1- porque que diabos eu nunca pego uma carninha assim?
2- reclama não, já peguei “calcanhar” e “mão calejada”, sobrevivi e você há de sobreviver também. Vou te falar: já roí muito calcanhar nessa vida e há de ter um cara lá em cima vendo tudo isso… um dia Ele muda minha sorte.
1- tomare, apesar que já perdi as esperanças, tu viu ontem? A fila pra pegar uma vaga no  pé, ia até ao tornozelo.  “Pé” heim.
2- Eu vi, e o pé é bem ruisinho né, tem nada não..
1- tem porra nenhuma. Bom é que vai rápido, logo acaba tudo isso.
2- você acredita que um dia vai acabar? nada ver irmão, o corpo só acaba pro verme que morre.
1- eu creio, mas confesso que as vezes dá uma descrença.
2- essas horas que tu deves se apegar, encarar tudo isso como uma oportunidade, mesmo se só se encontra pentelho e pelanca.
 1- você está a quanto tempo aqui?
2 – um mês.
1- nossa, e quando vai se aposentar?
2- daqui a 10 dias.
1- ainda?
2- fazer o que né, alguém precisa ensinar vocês. Assim como meu pai me ensinou.
1- teu pai roía aqui mesmo.
2- não, ele veio do interior. Depois pegou a melhor fase da “nádega”.
1- essa fase boa da nádega é mito, não é não?
2- nada, verdade mesmo. Meu pai já comeu muito essa bunda, disse que não lembra de coisa melhor, era macia, boa de corte, parecia nunca ter sido usada. Um pai sustentou a familia, de treze filhos, só comendo essa bunda.
1- tem gente que tem sorte mesmo. Se eu tivesse lá, não perdoava.
2- mas que que adianta? Meu pai tem vários companheiros que pensavam que a bunda nunca ia acabar. Nunca economizaram, nunca guardaram um milímetro qualquer pra comer depois. E agora?
1- passam fome?
2- isso mesmo. Vivem de verrugas, ou cicatriz.
1- triste.
2- por isso não perca seu tempo aí reclamando, estude, roa com prazer, quando você ver, já esta num lugar melhor e com mais conforto.
1- poisé, essa hora tá meio triste, sabe, faz quase um dia que minha mãe morreu…
2- o rapaz, que isso, levanta a cabeça, tenho certeza que agora mesmo ela está te vendo lá do cérebro, e torcendo pra você.
1- fica um vazio sabe.
2- sabe quem que coloca isso na gente? O Dito-cujo.
1- o HIV?
2- fala alto não, que ele aparece…você pensa que ele está la no nas profundezas do cançer? Torturando os vermes maus, mas não. Ele está em todos os lugares. Temos que vigiar.
1-sim….bem, eu vou indo. Obrigado pelos conselhos..
2- nada, precisando estamos aí…. Jovens…

fim

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Aos seus lugares.



I.

O homem de chapéu destoa de nós outros, “não devemos usar chapéu” é o primeiro pensamento que me ocorre, depois disso não o vi mais, mas a lembrança do homem de chapéu dava a estranha sensação que algo iria dar errado, talvez a culpa, ou o medo- simples de estréias – ou a  diferenciação me irritava mais que a possibilidade de erro. Tudo pode falhar, mas não deveríamos lacrar todas as fendas do erro? Não deveríamos ser prevenido? Então porque o chapéu estava na cabeça e não no cabide?
Minha severa autocrítica começou a sentenciar “ acalme-se”, “respire”…
Entre tantas cabeças e vultos de cabeças uma que usava chapéu carregava o estigma de “novo” ,“vivo” e é tudo que não queremos, se estamos aqui pra manter tudo como tudo está , seguramente um chapéu deveria estar no cabide,  assim como os pensamentos devidamente calados e os sonhos devidamente assassinados. Se é uma sociedade adulta que queremos não permitiremos adolescência e juventude a soprar a vela do status quo.Alguém disse uma palavra que ressoou na sala, alguns mormuraram. Ninguém reagiu. Pensei se o atrevimento se dava ao homem de chapéu, esse deveria ser um provável dissidente, uma fenda.

II.

Tudo novo, tudo colorido, é preciso inovar sempre, mudar é preciso estar com as antenas ligadas, e o coração maior que peito. Se ontem fui homem hoje sou mulher, lésbica, blues, a marselhesa toca, as fronteira todas, se refazem, e o pólo sul surge na aurora, essa nova e brilhante aurora do meio-dia, dia-a-dia sem as noites, cem são estrelas, cometas com tragetorias inéditas… e o mundo se refaz, hoje é , era, será, o que foi ainda é, o que será já foi, o pretérito-mais-que-perfeito, perfeitamente abolido, o seguro morreu de velho, morreu de tédio, que morreu de fome. Coisas paradas juntam pó, o movimento produz o movimento, nascem as flores, que comem os frutos, que trazem o inverno em si, o inverno particular , o resto cai sobre a chama da galáxia, que transpira, conspira. Não há retrovisor, não há historia, não há livros, estamos livres dos livros. Apanagio dos velhos, niilistas, capa durável, sexistas. 

MMXI.

. ou a diferenciação me irritava mais que a possibilidade de erro. Tudo pode falhar, mas não deveríamos lacrar todas as fendas do erro? Não deveríamos ser previnidos? Então porque o chapéu estava na cabeça e não no cabide?
Minha severa autocrítica começou a sentenciar “ acalme-se”, “respire”…
Entre tantas cabeças e vultos de cabeças uma que usava chapéu carregava o estigma do meio-dia, dia-a-dia sem as noites, cem são estrelas, cometas com tragetória inéditas… e o mundo se refaz, hoje é , era, será, o que foi ainda é, o que será já foi, o pretérito-mais-que-perfeito, perfeitamente abolido, o seguro morreu de velho, morreu de tédio, que morreu de fome. Paradas assassinados. Se é uma sociedade adulta que queremos não permitiremos adolescência e juventude a soprar estrelas, cometas com tragetorias inéditas… e o mundo se refaz, hoje é , era, será, o que foi ainda é, o que será já foi, o pretérito mais que perfeito, perfeitamente abolido, o seguro morreu de velho, morreu de tédio homem de chapéu destoa de nos outros, “não devemos usar chapéu” é o primeiro pensamento que me ocorre, depois disso não o vi mais homem de chapéu destoa de nos outros, “não devemos usar chapéu” é o primeiro pensamento que me ocorre, depois disso não o vi mais

Frederico procura um pai



- há de ter um algum lugar um pai sobrando no mundo, porque há tantos filhos sobrando no mundo, tantos andando assim como que perdidos. Deve haver um pai sobrando no mundo, e é esse que eu procuro , junto com uma mãe talvez – não é importate – junto com uma familia – também não é importante – mas seria bom, pois há tantas pessoas perdidas no mundo, assim como eu que caminham e ser perdem entre entradas e saídas, entre idas e vindas… deve haver algum pai sobrando porque filhos sobram, e pessoas que sobram tem que ter um pai.
Frederico buscava um pai nos mais diversos locais, putero:
-pai?
-que pai o que moleque tá maluco, que porra é essa , quem deixou entrar esse moleque aqui.
Na farmácia:
-pai?
-é… eu..
-o senhor queira me desculpar, esse menino inconveniente… é brincadeira dele.
E para frederico: sai, sai daqui deixa o senhor comprar remédios em paz.
-onde já se viu, a gente vê cada coisa hoje em dia.
Na papelaria:
-pai?
-Eu? Eu pai? Não meu deus não pode ser, não . não pode ser, porque porque ela nunca me disse? O Pai eterno… ele nunca me disse! Ela nunca me disse, oh! Deus! Adeus.
E o homem vai abaixo no viaduto próximo
Na livraria:
-pai?
- que pai o que, fui seu professor não é? Sempre me chamam assim, começaram a chamar pelo de “tio” depois pelo nome, agora de “pai” vocês realmente perderam a educação. No meu tempo não era assim, saiba que no meu tempo…
Frederico vai embora.
É sinceramente é muito difícil, nesse mundo, procurar um pai. É quase impossível, não haveria motivo pra alguém procurar um pai> frederico está atras de si mesmo, é essa,  caro leitor a verdade, isso deveria ter aparecido como subtítulo do texto “frederico está atrás de sim mesmo” … (quem é si mesmo? Eu? Você? Quem é) qualquer filosofia deveria começar com a pergunta: quem somos nós? Perdidos no mundo, jogados (?) entre a terra e o céu, nossas solas dos pés assentam na terra, nossas cabeças cruzam o céu e nossa imaginação vai muito além disso (porque diabos imaginamos?) já um macaco qualquer não sonha nada além do que é. O ser humano sonha, imagina constrói universos inteiros apartar de ilusões.
A gente quer apenas um lar e comida, é tudo que buscamos no entanto entre o calor do lar e a sociedade da comida um obstáculo: imaginação ( que ser gostaria disso?) e Frederico imagina, uma casa com um pai e com, talvez uma mãe, irmão e talvez irmãs, se esse gênero esta sempre em segundo plano, é porque afinal se já se esta fraco porque iria querer mulheres ao seu lado? Se já está cansado da vida porque mais um ser assim, apático ao seu lado? Não. Frederico não quer ninguém que lhe atrapalhe, essa é bem a verdade. Não quer ninguém que lhe agarre ao seus pés e lhe impeça de correr na hora necessaria quando os inimigos entrarem por aquela porta, ou por esse céu, ou dentro de sim mesmo. Ele quer correr com ninguém preso ao seus pés, é por isso que mães e irmãs não fazem parte do cardápio dos sonhos de frederico, ele que sim, pai e irmão que possam correr tanto quanto ele. Obviamente não poderia estar com mãe, visto que na hora da fuga atrapalha (amor pesa)
O amor que as novelas falam e os filmes repetem, Frederico não quer amor, quer coragem, prazeres sem medida nem sonhos que o despertem no meio da noite , ele quer a vida já vivida, (dos outros, pode ser) o pai que outros já não usam, que já levou de um ponto a outro, um pai que já ensinou como realizar realidades possíveis (frederico só que sonhos possíveis)
A procura já lhe cansa (a leitura também) nada faz sentido, quando isso parece uma transloucada procura de apenas mais um bêbado (frederico cresceu e bebeu) e continua a procurar entre milhares de caras uma, que lhe seja favorável, compreenda e conduza. Que conduza entre noites e noites. O tempo passa (como passa?) a procura continua, porque? (você já está homem, Frederico, porque procura algo que não encontraste a milênios atrás?)
De repente: a figura de seu pai se fez tão clara e obvia, era aquele que esta ali, sempre, como um símbolo, (a busca era mais profunda que um pai-homem) Pai ele sempre teve, só nomeara de forma errada, era tão obvio. (Frederico, não se iluda com o obvio, sua procura é a da humanidade, quem tu procuras é chamado: Deus, o nome da tua procura é Deus, não te iludas mais. Chama agora entre as noites turbulentas da tua cidade, e das madrugadas iluminadas pelos semáforos chama: meu Deus onde estas?)

O fim do universo é nosso começo.

No cêu o anjorelogio, será esferico,
contará a ligação de cada coisa com todas as outras
e o dia será claro como a felicidade.
As cidades serão luz
a voz, musica. o sexo, calor.
Mil olhos pra cada superficie.
Mil bocas pra cada beijo.
Nós, como nunca, lugares exatos.
O fim é o começo
O meio sou eu
E a flores nascem, nascem, nascem.

O fim do universo é nosso começo.

No cêu o anjorelogio, será esferico,
contará a ligação de cada coisa com todas as outras
e o dia será claro como a felicidade.
Da guerra todos sairam vitoriosos.
Todos serão salvos por si mesmo
vidas e mortes celebradas.
A coisa-em-si em mim.
O silencio, o nada: possibilidades.
A construção e a destruição: etapas.
Desdesenhos, desprojeteis e tudo é lindo
 porque humano , humanidade.

O sexo e a cidade.


Raul Cruz




             Quando Haroldo saiu de casa fazia frio e caia uma garoa. Aquele tempo era péssimo para a asma, a sobrinha tinha alertado:
            - Tio, mas vai sair com esse tempo? depois fica a noite inteira tossindo.
            Ele não gostava de contrariar-la, afinal não fosse ela estaria numa pensão ou asilo qualquer. Mas era seu aniversário e ele não ficaria em casa no dia, ou noite que faria setenta e três anos. Era moralmente cabível que ele se desse um presente. De modo geral esses setenta e poucos, agora tão pesados, teriam tido alguns momentos de prazer. E ele estava ávido por comemora-los, pena que a sobrinha, tão atarefada, não lembrou, ele teria comprado um bolo pra comer com ela e seu marido, não esqueceria de levar um pedaço ao seu melhor amigo: o  porteiro. Mas ninguém lembrou e foi melhor esse  dinheiro seria pra seu presente. E mais: não é que esqueceu-se que justo hoje o porteiro estava de folga? Que pena, ele é tão bom de conversa. Sabia as noticias melhor que o jornal, e dava á elas um tom  apocalíptico muito próprio, era um sujeito muito bacana, pena não estar aí hoje.
 Abriu a porta e entrou na noite.A cidade estava bonita, (ou ele estava feliz?). Havia alguns carros estacionados em frente ao prédio, todos eles coberto de sereno e refletiam as luzes dos postes e das janelas, tudo era silêncio, tudo era mais ou menos escuro (ou seria o seu modo de ver e ouvir que já não alcançava os detalhes?).
Vinham na sua direção um grupo de jovens, conversavam e riam alto,  todos cabelos e roupas eram iguais. São felizes por serem consumistas, pensou Haroldo ele também fora um jovem alienado, quando essa palavra ainda tinha algum significado. Seguiu a moda ouviu as musicas mais tocadas e até o vocabulário, mas isso tudo agora é tão anacrônico, o que é contemporâneo agora, para ele, é uma tranqüilidade de velho que ele jamais imaginou ter, o jovem apressado? o funcionario estressado? Nada. Agora Haroldo é um velho que caminha e até, as vezes, para na rua pra pensar em qual direção tomar. Notou que a principal característica da velhice é a transparencia, ninguém o vê passando pelas ruas, nem ninguém o incomoda com perguntas cotidianas como “ será que chove?”, “tudo bem?” agora ele faz parte do cenário, vêem através dele, vêem os anos, o passado. Assim como essas arvores centenárias da praça,

                    bela, bela mas qual será o nome dela?

como essa placa da prefeitura que comemora mil obras em dois anos. Será que a própria placa entra na contagem? Questiona Haroldo, com o que lhe restou de ironia.
             Na esquina lá está, assim como ele, personagem da cidade: as travestis que se prostituem na calçada. Com suas roupas mínimas e seus enigmas, será um vitima do cruel sistema ou um vicioso pederasta com mulher e filhos em casa? Fosse haroldo pintor, iria retratar essa esquina sobrepondo, de dia o café mais “bem freqüentado” da cidade, a noite “zona de baixo meretricio o nome do quadro seria:  Lugares urbanos e verdadeiros na sua crueldade.
            Havia uma boite na muruci, duas quadras acima de onde Haroldo está agora, era o point dos modernos, artistas, maconheiro etc.. certa vez  lá, ele viu uma moça acompanhada de dois rapazes. Ela era realmente “moderna” usava roupas de vinil, um aranjo no cabelo, estava bêbeda ou drogada, era lindíssima. Dançava fora da musica, tinha um olhar longe, era lindíssima, depois de pensar um pouco e aproveitando que os amigos dela foram ao banheiro Haroldo aproximou-se.
            -olá!
            -oi
            -como é seu nome?
            - você tem bebida?
            -não, mas se quiser eu pego.
            -aqui não tem wisk, essa porcaria…
            -como é seu nome?
            -Michele.
            - O meu é Haroldo.
            - …
            - Você é muito bonita, Michele.
            - obrigada,
            - tem namorado?
            - que?
            -algum deles é seu namorado?
            - namorados…um do outro, entendeu?
            -ah!, sim…
            -que me beijar?
            Haroldo queria sim, e beijaram-se muito aquela noite, normalmente ele era bem mais tímido e jamais chegaria numa moça assim, mas com ajuda de algumas latas de cervejas qualquer um cria coragem. E foi com essa coragem que ele a arrastou pra um canto e deu uns bons malhos naquele corpo, sentiu a coxa firme da moça, o hálito de cigarro, o cheiro doce de perfume e pensou que realmente tinha de dado bem. O dia amanheceu, as pessoas começaram a ir embora, Haroldo imaginou que com menos gente iria transar com a moça ali mesmo, num canto escuro. Mas ela estava cansada e com dor no pé. Foram pra um sofasinho perto do bar e, cavalheiro, ele ajudou ela a tirar o sapato, mas notou que o pé era grande e largo de mais, com um pouco mais de atenção ele viu que o cabelo negro, lindo, chanel era peruca e a gargantilha escondia um pomo-de-adão. A moça era travesti. E essa foi sua primeira decepção amorosa. Com a cerveja claro, pois fora ela a culpada de tudo, qualquer um em sã consciência veria que a moça era moço. Irritado consigo mesmo ele foi embora e jurou nunca mais voltar e nunca mais beber. Não cumpriu nenhuma das duas promessas mais ficou mas atento á alguns detalhes desde então.
            Porem a “sua” travesti era diferente dessas, ela tinha classe. Essas se expõem quase nuas, rebolam com saias que não chegam a um palmo e a sociedade curitibana, que espia das janelas e dos carros, masturba-se no seu concervadorismo. O papel social das travestis é manter o moralismo exitado. Enquanto ele passa as moças retocam a maquiagem e não o enxergam claro, “somos margens opostas” , pensou ele.
            O cinema do outro lado da rua também lhe traz vivas lembranças dos seus filmes: “Harald contra os ganters fantasmas” , “Harald apaixonado”, “Haroldo contra lei”  sempre fora protagonistas de todos os filmes que assistiu, foi ele que sofreu-mais-venceu, foi também ele que apaixonou-se-pela-pessoa-errada, ou mexeu-com-a-máfia e venceu-sozinho-a-máfia, era divertido estar em mil aventuras, com mil carros e cavalos, tantos que não poucas vezes perdeu o fôlego na platéia daquele mesmo cinema, agora em degradação…Entre uma aventura-filme e outra ele cresceu, foi trabalhar e as aventura migraram pra casa, noites de sábado e domingo, como um vicio: filmes e filmes – melhores companhias que os vivos – sonhos e sonhos agora não mais como protagonista mas como o mais atento e critico espectador, nada lhe escapava, porem inútil convencer alguém que Kubrick era um mero parnasiano pós-modernista ou que Hitchcock era ateu-militante, então nada melhor que assistir mais e mais filmes pra ter certeza de cada sentença, mesmo que  proferida pra si próprio.
            Cruz Machado. Para Haroldo a única rua viva da cidade. Putas, táxis, cervejas e espetinhos, um barulho de gente falando, de musica sertaneja misturado com o tchutchu dos carros que passam, levando os manos ás minas, ou os manos pra lugar nenhum andando só pelo prazer de atrapalhar, pessoa suspeitas, viciados em crak dignos de pena, mendigos, Haroldo se compreende melhor entre todos esses. Uma menina com idade pra ser sua neta lhe pede cigarro e aproveita “tem uma grana aí tio? Vamos beber uma?” Ele se sente melhor ainda, aqui ninguém é transparente. Porque não? uma cerveja só, pensa. Mas não, o dinheiro que tem é para seu presente. Quem dera ter mais. Chamaria alguém pra beber diria que essa cidade está cada vez melhor e que cerveja boa mesmo era “na bundinha” ririam, claro, e diriam “ quem que teve a idéia de chamar ceveja, sal e limão de “na bundinha””. É no bar que nascem as grandes idéias, concordariam. Infelismente entre as caras que o olham, e o vêem rindo não há nenhum conhecido, alias nunca teve, no máximo colegas. Mas e isso, não vale algo? São boas companhias e sem grandes intimidades. Afinal somos ou não somos curitibanos?
Mas na data de seu aniversário ele vai querer algo mais sofisticado e a Cruz Machado, não tem. Então ele toma um táxi
            -Anita de barros.
            - È pra já.
            - Ufa!
            - Cansado tio?
            - Um pouco só, logo passa.
            - O senhor vai ao hospital?
            - Não, mas é próximo.
            - Beleza, que tempo não?
            - Isso é péssimo pra saúde.
            - È mesmo, senhor sabe que estou com uma tosse que não para, e garoa mais o pessoal que fuma…o senhor não fuma né.
            - Não.
            - Faz bem, antes eu deixava fumar aqui no meu táxi, mas agora não. pelamordedeus  fica um cheiro que não sai nunca. Além de fazer mal para os próximo passageiros. Não digo para o senhor que não perdi alguns clientes, perdi. Mas mais tem Deus pra dar que o Diabo pra tirar, não é?
            - isso.
            - Antes eu fumava, sabe. Fumava pouco mais fumava, era no máximo meia carteira por dia, por causa da madrugada né, mas Deus vai endireitando o caminho da gente, vai colocando consisciêcia né? deixei tudo, alcool , cigarro e só tem me feito bem…nem vontade eu tenho, fico ali na frente da boate, todo mundo sai pra fumar bem na cara da gente. Mas nada… se disser pro senhor que tenho vontade tô mentindo…
            Haroldo não fumava, se tinha fumado algum dia foi pra imitar James Deam. Mas lhe dava asfixia e como tudo na vida tinha mais gosto na tela que na realidade, o táxi por exemplo: o para-brisa era uma  tela onde a cidade ia passando, lentamente ao fundo e muito mais rápido perto. A silhueta disforme dos prédios quase tocando no céu , aquele céu cada vez mais feio da cidade, teto de fumaça e tão omisso, imparcial, abaixo dele pode correr a alegre vida dos filhos de catadores de lixo e escorrer o sangue das meninas usuárias de crak. O cêu assiste a todas as coisas e é imparcial como um cinegrafista do Discovery lembra-se Haroldo, pensando no sujeito que filma uma tartaruga morrer na areia e não a ajuda a chegar no mar.
 Quantas lojas passam pela janela do taxi, quantos produtos feito apenas para os jovens, os lojistas teriam esse fetiche? Desejavam roubar a juventude dos mais novos os atraido através de cartazes? Seriam eles , em ultima instância conscupiciosos? Haroldo era.
            - Dai falei pra ele que pena que o você Gervasio, não me trouxe antes pra essa benção…
            - Pode parar aqui.
            - Ah!, ali no toldo?
            - Isso, quanto é.
            - O senhor não se importa de eu pergunta uma coisa?
            - Não.
            - Você sabia que Deus esta vendo tudo isso?
            - …
            - Eu sei que essa casa aqui é um antro de pederastia, que aqui tem sexo e drogas rolando solto, e o senhor heim? Eu falando as coisas de Deus e o senhor vindo pra essa casa imunda, se eu soubesse, nem tinha aceitado a corrida. Não to aqui pra carregar homossexuais nem travestis para seus pecados, isso mesmo: pecado. O Diabo deve estar feliz no inferno vendo todos vocês O louvando, cantando o pecado nesses antros…. quinze reais, e por favor se for pra te trazer aqui nem me chame mais… venha a pé.
            O taxista tinha razão. O que Haroldo vinha fazer ali era pecado, não sabemos se contra Deus, mas com certeza contra sua consciência. Lotou muitos anos contra a homossexualidade. A vez que ficou com a travesti na boite fora a primeira de muitas outras. Ele se deixava enganar pela imagem feminina, mas o que queria mesmo era a essência masculina por traz de tanta maquiagem e brilho. Porem a tranqüilidade da velhice trouxe consigo a aceitação. Gostava mesmo era de homem. E mais que isso: gostava de jovens, corpos firmes, carne dura e espíritos idem. Era mais um vampiro de Curitiba, o mais civilizado deles  porque pagava suas vitimas, era generoso nas gorgetas, ali todos gostavam dele e ele gostava dos mais jovens e magros. Essa noite iria sair com um belo, o melhor que houvesse, era seu aniversário.
            - Haroldinho! Tudo bem? Vai fazer uma sauna hoje?
            - Olá, Cris, sim, por favor.
            - Ta meio fraquinho o movimento hoje, mas acho que vai melhorar daqui a pouco.
            - ah. Ok.
            - Boa sauna.
            Quando entrou correu os olhos pelos cantos, tinha fome da beleza arrogante dos garotos que se prostituíam ali, mas não encontrou nada. Procurou os amigos-de-sauna, senhores como ele que se unem contra a solidão, pra falar de rapazes, jogar truco, disfarçar o tédio. Também não havia. Espero que o movimento melhore mesmo, pensou. Não poderia passar a noite de aniversário sem nenhum amigo.
            No bar: O atendente, Haroldo sempre teve uma admiração, era um jovem louro, com olhos muito bonitos, sorria fácil e era visivelmente hetero. Casado, mas convivia muito bem com a sexualidade alheia, enfrentava milhões de cantadas diárias com um facilidade. Ele não temia ser objeto de desejo por aquilo que não lhe atrai. Haroldo admirava esse moço, era um estóico do século XXI ou apenas alguém buscando de soldo? sabia que o rapaz já tinha filho, e sempre quisera saber como alguém poderia sustentar um filho com um salário miserável de barman. Se ele quisesse se prostituir teria todos os motivos, bastava subir uma escada e tirar a roupa e ele e o filho teriam um mês pouco mais confortáveis. Entretanto ele nunca fizera, se fizesse algum dia Haroldo saberia porque todos sabem de tudo sobre todos nesses lugares.
            Despiu-se devagar no vestiário, colocou um roupão, as pirulas azuis no bolso do roupão. O único barulho era das TV uma ligada no jornal outra num filme pornográfico.
Entrou na câmara da sauna. Fumaça, calor, umidade e o cheiro mil vezes aspirado de essência de eucalipto. Tudo ali lhe era conhecido, as paredes azuleijadas em branco, os bancos de madeira, o ar era quente mas a vida ali dentro era morna, era um tédio e teve alguém que disse que sauna era bom pra saúde, mas todo mundo sabe que é só mais uma desculpa pra ver a nudez alheia. Saiu. Nem esquentei o banco, disse rindo da própria miséria…
            - Wisk!
            - boa escolha, disse o barmam hetero.
            - cawboy.
            Tomou três doses, aquele lugar, aquela data estavam lhe deixando melancólico, que diabos, justo hoje não havia ninguém, nem um amigo ou um garoto andando nú só pra ele ver, justo hoje que tinha dinheiro e iria pagar o quanto fosse preciso.
            - Faz tempo que você está aqui não? perguntou ao barmam.
            - oito meses
            - Caramba, ainda não cansou desse lugar?
            - não é tranqüilo…
            - mais uma dose.
            - poxa! Hoje o senhor esta bebendo né?
            - pode me chamar de você..
            - ah!
            - como é seu nome?
            - Leandro.
            - o meu é Haroldo.
            - Sim eu sei…
            - faz programa Leandro? – sabia que não, mas não custa tentar…
            - Não, só trabalho aqui.
            - Porque não?
            - Sou hetero.
            - Se fosse não teria escolhido trabalhar aqui.
            - sou barmam, e bar é bar em qualquer lugar né.
            - deve ganhar aí um salário…
            - é, mais ou menos…
            Ficaram ambos assistindo a TV, Haroldo bebeu mais algumas doses e convidou:
            - te dou um salário por uma foda.
            - não, quero não.
            - não quer porque? Ganha uma porra de um salário de miséria e fica se fazendo..
            - não é isso, é que não gosto.
            - não gosta de uma chupeta?
            - que isso…
            - vamo ou não?
            - não vou.
            - então vá se fuder seu podre do caralho
            - o senhor está bêbado.
            - esse lugar já é uma merda e ainda colocam esse favelados-moralista pra servir a gente… que merda de dia
            Colocou a mão o bolso e encontrou as pirulas azuis, tomou as duas.
            - você não vai trepar comigo né? Pois eu vou ali bater uma punheta pensando na tua pica, na tua mulher lá na favela, no teu filho…
            entrou na sauna. Estava mais quente que antes. Começou a se masturbar. O ar estava raro, estava com raiva de mais um fora que levara, com raiva desses malditos amigos viados que não vieram, raiva de ter planejado um dia de “princesa” e não houve merda nenhuma. estava tremendo. Faltou ar. Ele não estava bem. Calor, calor, caiu no chão molhado e não consegui levantar 
            - Socorro – porem muito baixo, ninguém ouviu
            Haroldo do Rosario velho, culto, homossexual, bêbado morreu debatendo-se no chão da sauna, foi encontrado horas depois mas sua carteira não.

Fim. 

Imagem: Raul Cruz